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Pedro Antunes

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Thalia quer cantar o amor nos tempos do Instagram, likes, DMs e nudes

Thalia lança o novo álbum DesAMORfosis - Sony Music / Divulgação
Thalia lança o novo álbum DesAMORfosis Imagem: Sony Music / Divulgação
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

14/05/2021 07h12

Sem tempo?

  • Thalia está com um novo disco, mas este não é um trabalho qualquer.
  • DesAMORfosis, lançado pela Sony Music, é um tratado sobre o amor.
  • Não amores genéricos. Thalia canta os amores que já viveu aqui.
  • Tudo é tão pessoal, como ela conta a seguir. Thalia aprendeu a gravar em casa os próprios vocais, o que também mudou a forma de gravar o álbum.
  • A seguir, Thalia conta como usou as próprias experiências amorosas nem sempre boas para criar um novo álbum pop.

"O amor não é tangível", explica Thalia. "O amor é uma ideia."

E que ideia, não é? Algo impossível de se tocar, de se mensurar ou medir. Sentimento que arde, que bate e pede muito em troca. O amor é paixão, é tesão, é desgraça (haha!, perdão).

São tantos os conceitos e as transformações do amor em cada um de nós ao longo da vida ou, mesmo, durante uma paixão, que este sentimento merece um estudo dedicado em um álbum. E este é "DesAMORfosis", o novíssimo álbum da cantora e atriz, lançado hoje (14), pela Sony Music, gravado ao longo dos últimos dois anos.

O título, que pode parecer estranho para nós, brinca com as palavras "desamor" e "metamorfose", em espanhol, como se fosse uma "metamorfose do desamor". Uau, não é?

"Este é o amor em tempo de 'DesAMORfosis'. Sempre gostei de cantar o amor. Sou uma mulher muito vulnerável e romântica, que tem um lado super sexual, agressiva e ardente, que dança e canta. Tenho estas duas vertentes. E sempre me permiti cantar o amor em diferentes formas."

Amores digitais

São 40 anos de carreira, iniciada com um grupo de cantores mirins (sim, quase 15 anos antes da excepcional Trilogia das Marias, como ficou conhecida a sequência de telenovelas "María Mercedes", "Marimar" e "Maria la del Barrío", e fundamental para qualquer noveleiro que se preze).

Grande parte deste tempo, os versos cantados por Thalia gravitavam em torno do tema que, agora, é figura absolutamente central deste álbum. O amor.

São duas as diferenças, percebo, entre o que Thalia já fez relacionado com esta temática e "DesAMORfosis".

A primeira delas é que amor e desamor se transformaram com a modernidade das coisas. Sabe as cartas bonitas que seus pais trocaram quando estavam distantes por uma centena de quilômetros? Elas se tornaram verdadeiras relíquias e sugiro guarde-as. Com celular na mão e uma chamada por vídeo, a distância míngua e desaparece.

Tempos de mensagens que desaparecem no Instagram, de emojis safadinhos, de flerte descarado no Tinder, pseudo-intelectualismo no Twitter e de nudes trocados.

Como cantar o amor de hoje, tão complexo, Thalia?

"O amor de hoje é difícil e vai ficar ainda mais (risos). Existe uma nova linguagem e uma dinâmica que talvez seja mais desapegada. O amor de hoje não me parece ser tão pessoal como antes, mas é sincero. Duas pessoas estão juntas porque querem. É um amor mais do 'aqui e agora' o amor destes tempos"

Um exemplo deste álbum é uma música de nome "Eres Mío", a segunda do álbum, que fala sobre como as redes sociais trocaram alguns aspectos do jogo dos relacionamentos.

Pedacinhos do coração de Thalia

Além dos amores líquidos, as 14 faixas de "DesAMORfosis" partem de um ponto de vista extremamente pessoal da artista, como ela mesma conta.

O álbum começou a ser criado dois anos atrás, mas todo o processo, de princípio, foi interrompido pela pandemia do novo coronavírus. Com todos em casa, Thalia fez o que chamou de "curso intensivo com meu engenheiro de som para aprender a me gravar sozinha no meu estúdio".

Sim, Thalia agora é razoavelmente DIY, nossa ~punk do desamor~ (estou muito piadista hoje, vai entender), mas, falando sério...

Thalia sorri genuinamente quando conta que, enfim, aprendeu a gravar sozinha seus vocais. Montou um estúdio em um quartinho descrito "pequeno", no apartamento onde mora em Nova York. Dali, pelo menos 12 dos vocais do álbum foram gravados.

"Aprendi a baixar os programas que precisava, como enviar as sessões de voz. E tudo isso é tão interessante para mim. Depois de tantos anos de carreira, poder aprender a fazer algo e depender somente de mim. Estar sozinha com meu microfone no estúdio foi incrível, Isso deu uma atmosfera íntima para o álbum. Realmente, é um álbum especial. Um álbum de muito amor e libertação. Libertação do amor e da alma. E do caminho que uma pessoa vive com o amor."

Desta vez, o eu-lírico (o personagem central das canções) não é um imaginário nem distante. Thalia explica a intenção, desta vez, de apresentar como o amor se transforma.

Sim, prepare-se para canções de desamor, de festa e sobre paixões avassaladoras.

"Canto sobre tudo o que acontece enquanto aquele sentimento cresce. Quando você conhece alguém, de olhar essa pessoa nos olhos, de quando sente o corpo pela primeira vez, quando perde essa pessoa, quando o amor é cego, quando a falsidade aparece e você percebe que este não é alguém para você. Então, seu coração é partido. Você sai com os seus amigos, bebe todas, diz que não quer saber de um novo amor, mas acaba voltando com quem havia terminado..."

(É impressão minha ou essa história toda daria uma série perfeita destas moderninhas do Globoplay, tipo "Todas As Mulheres do Mundo", sabe?)

Thalia segue:

"Essa jornada segue e se repete até você se dar conta que o amor começa primeiro por você. Você precisa se amar para, então, amar alguém."

E, aqui, a cereja do bolo para quem é fã da cantora, atriz, apresentadora e outras tantas outras ocupações:

"Esse é o caminho do amor a partir da minha própria vivência."

Ou seja, tudo ali passou pela experiência da artista. O que realmente dá outro sabor às canções.

Uma cantora pop

Ouvir cada detalhe de "DesAMORfosis" é como investigar e ser apresentado a cada pedacinho do coração de Thalia até aqui.

E, apesar da ascensão gigantesca do reggaeton, a artista faz um flerte com o gênero em algumas das músicas, como a ótima "Mal Y Bien" e a dançante "La Luz" (com Myke Towers), mas sua experimentação é centrada no pop.

É aí que está o DNA musical de Thalia, ela explica:

"Sou uma cantora pop. Sempre respeitei isso, ao longo da minha carreira toda. Isso está na forma como estruturei as minhas músicas, está presente quando escrevo ou quando eu canto. Tenho um jeito muito próprio de fazer isso, sabe? Gosto de explorar gêneros diferentes, seja bachata, R&B, hip hop, música urbana, o reggaeton, isso sempre me encanta. Do primeiro álbum até hoje eu estou unindo minha característica às novas sonoridades."

Um carinho especial por brasileiros, é claro

Confesso que, ao longo destes mais de dez anos fazendo entrevistas com artistas gringos, geralmente não "compro" o papo daqueles que elogiam o público brasileiro demasiadamente, sabe? Parece um jogo de cartas marcadas e de frases repetidas para todos os jornalistas do mundo inteiro: o artista só muda o local de origem dos fãs.

Mas, no caso da Thalia (que no ano passado gravou a ótima "Tímida", com a Pabllo Vittar), eu realmente acredito no que ela diz.

Afinal, enquanto a Trilogia das Marias, as novelas que citei acima, eram transmitidas no Brasil pelo SBT, eu tinha uns 10, 11 anos, e parecia que não havia artista maior no mundo do que a mexicana. Para uma criança, naquela época, Thalia era gigante.

Ela talvez tenha sido a maior artista no Brasil naquele biênio de 1996 e 1997, o que foi um impulso para uma fama global (na época, ela também era um fenômeno nas Filipinas, você sabia?).

Por conta desta ligação com brasileiros que Thalia interagiu com os brasileiros sobre o fenômeno BBB 21, ao ser citada pelos participantes Fiuk e Juliette.

E ainda mandou um vídeo curtinho para ser exibido na final do reality brasileiro:

"Aproveito toda a oportunidade que tenho para surpreender o meu público no Brasil. Meus fãs brasileiros têm um espaço muito especial no meu coração. E eu sei que a Thalia está em um cantinho no coração dos fãs brasileiros também. É uma relação antiga. Gosto muito do meu fandom daí e adoro surpreendê-lo sempre que eu posso."

Aproveitando que o BBB convida famosos desde a edição de 2020, sugeri que Thalia participasse do reality show brasileiro. Ela riu, mas negou a ideia.

"Não gosto desta situação de ser confinada. Sou muito claustrofóbica, preciso ir para fora, precisaria respirar. Seria muito desafiador para mim."

Ainda assim, fica a dica aí, Boninho.

Novas dinâmicas digitais

Ao longo do papo realizado via chamada de vídeo, Thalia conta que nem tudo é ótimo na possibilidade de trabalhar de casa. A intimidade cobra seu preço, brinca ela, quando os filhos surgem no estúdio porque precisam dela para algo.

"A pandemia nos ensinou que podemos nos adaptar e mudar as rotinas. Eu acho fantástico estar no Zoom e falar com tanta gente nesta plataforma. Porque isso funciona em entrevistas, mas também em participações para o álbum. É íntimo porque agora todos trabalham de casa."

Mas...

"Mas também é desafiador, porque como mãe, estou ali trabalhando e de repente meu filho diz 'mamááá' ou a minha filha grita 'mamiiiii'. Tenho que ser mãe, ser maestra da casa, ser técnica de computador para entender de todos estes programas (risos)".

Viver em home office, como Thalia mesma pode provar, é entender que agendas e rotinas podem ser facilmente destruídas por um gato que decide arranhar o sofá depois de anos de boa convivência com o móvel, por uma conexão de internet que falha ou, no caso dela, por um link errado de Zoom.

Ela ri e se desculpa pelo atraso na entrevista. Foram coisa de uns 15 minutos. Ela explica que esperou pelas entrevistas do dia em outra dessas salas virtuais. "Estava tudo programado hoje de manhã, entende? Mas me mandaram outro link. Eu estava em um, as pessoas estavam em outro", explica. "Ainda assim, é tudo tão desafiador e excitante."

Pergunto se ela conseguiu estabelecer um horário para trabalhar e separar o que é pessoal e o que é trabalho. (Dizem que é o recomendado por especialistas, mas é uma dificuldade confessa deste colunista que talvez deveria experimentar um hobby como tocar ukelelê.)

"É tudo misturado", ela ri.

Para aproveitar o disse Thalia no início deste texto, vivemos tempos em que nada é tangível, já reparou? Seja nas relações afetivas marcadas por distanciamento social, nudes e mensagens de carinho à distância, seja no trabalho remoto, ou no sentimento cantado pela artista em "DesAMORfosis".

Errata: o texto foi atualizado
O nome do novo álbum da Thalia é "DesAMORfosis". O texto apresentou diferentes grafias. O erro foi corrigido.