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Pedro Antunes

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Billy Gibbons está obcecado por queijo coalho. Ah, e também gravou um álbum

Billy Gibbons, do ZZ Top, prepara o álbum solo Hardware - Blain Clausen / Divulgação
Billy Gibbons, do ZZ Top, prepara o álbum solo Hardware Imagem: Blain Clausen / Divulgação
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

11/05/2021 19h42

Sem tempo?

  • Billy F. Gibbons é uma instituição do rock mundial
  • Afinal, o cara integra a icônica banda ZZ Top e foi amigo de Jimi Hendrix. Uau, né?
  • Agora, ele se prepara para lançar um novo álbum solo chamado Hardware
  • O trabalho foi todo gravado no deserto Joshua Tree (o mesmo que deu nome ao disco do U2)
  • Nesta entrevista, ele detalha a gravação realizada em um ambiente com cobras, cactos, pedras e areia
  • Mas também conta sobre sua nova obsessão: o queijo coalho encontrado nas praias brasileiras

"Queijo coalho!"

Com um sotaque meio torto diante da óbvia dificuldade em falar o português, a voz retumbante e rouca do veterano do rock estadunidense Billy Gibbons, do ZZ Top, conta sobre a sua recente obsessão da culinária brasileira, ao longo de uma chamada de vídeo realizada no final de abril.

Ele explica que a esposa, "minha adorável Gilligan Stillwater", como diz, passou três anos no Brasil, trabalhando em São Paulo e aprendendo português e ouvia as histórias dela por aqui.

"Entre todas as experiências que ela me contava, uma delas me fascina. Ela adorava ir às praias brasileiras e ouvi ela dizer uma frase estranha: 'queijo, queijo coalho!' E pedi para que ela me explicasse o que é."

Encantado com o que ele tentou traduzir como "grilled cheese", ou queijo grelhado, Gibbons tinha outros bons motivos para estar sorridente naquela manhã. Eram as primeiras entrevistas sobre "Hardware", o novíssimo álbum solo do guitarrista da lendária banda de blues rock, o terceiro da carreira sem contar os 15 discos com o ZZ Top.

Novo álbum de Gibbons será lançado em junho  - Blain Clausen / Divulgação - Blain Clausen / Divulgação
Novo álbum de Gibbons será lançado em junho
Imagem: Blain Clausen / Divulgação

Previsto para ser lançado no dia 4 de junho, "Hardware" (via Universal Music) foi o resultado de uma experiência transformadora - e, talvez, até um pouco perturbadora, mas em um bom sentido.

Numa tarde, Gibbons recebeu uma ligação do incansável baterista Matt Sorum (de Guns N' Roses, Velvet Revolver, Hollywood Vampires, entre outras) e ouviu a respeito de um tal estúdio que o músico havia encontrado.

O estúdio era localizado no Parque Nacional de Joshua Tree, no deserto sul-californiano, a pouco mais de 210 quilômetros de Los Angeles, e frequentemente associado com o rock and roll, tendo inspirado gente como Keith Richards, John Lennon, Josh Homme (Queens of The Stone Age) e, claro, dado nome a um dos álbuns mais importantes da carreira do U2.

"Dirigimos até aquele lugar, no meio do deserto. Nossa ideia era ficar 30 minutos, uma hora, no máximo. A visita acabou se estendendo e ficamos três meses. A gente simplesmente não foi embora (risos). Claro, não tínhamos equipamentos conosco, só alguns papéis e uma caneta. Então, usamos tudo o que tínhamos à disposição no estúdio."

Incrível, não é?

"Esse estúdio, mesmo que tivesse bastante equipamento, era bem remoto. Não havia nada por perto, exceto pedras, cactos, areia e algumas cobras."

Junto nesta jornada com o Reverendo - como Gibbons é chamado, tal é a importância dele para a instituição guitarrística que chegou a abrir para a turnê de The Jimi Hendrix Experience com a banda Moving Sidewalks -, estavam Mike Fiorentino e Chad Shlosser, além do já citado Matt Sorum. O quarteto assina quase todas as faixas de "Hardware".

"Como chegamos sem nada e éramos um grupo pequeno, pudemos ser muito mais focados em um objetivo comum. No início, imaginávamos que seria difícil, já que não tínhamos nada preparado, mas o desafio nos uniu."

No canal de YouTube de Gibbons, é possível assistir à dois vídeos que funcionam como diário de bordo da jornada (abaixo) e os singles já lançados.

Até a data da entrevista, duas músicas haviam sido divulgadas. A primeira é a poderosa "West Coast Junkie", que tem uma vibe surf rock adquirida a partir de uma caixa de reverb da marca Fender encontrada por Gibbons no estúdio.

"Nos disseram que ela talvez não funcionasse porque era muito antiga. Quando pluguei a guitarra, ouvi essa energia de surf music. Foi inesperado, mas adorei."

O outro single - pra mim o mais instigante também - é "Desert High", cuja ideia é ser um tratado sobre "barato do deserto", como se o ambiente pudesse criar uma atmosfera inebriante para quem passar por lá.

"Esta foi a última música que criamos. Devo dizer que existem muitos lugares no mundo que possuem um tipo de qualidade misteriosa que é difícil colocar em palavras. Posso dizer que trabalhar neste estúdio em Joshua Tree causou este efeito. Você pode ler sobre isso e ver fotografias, mas quando você está lá, uma energia diferente aparece e você sente isso. Esta música eu tentei descrever em palavras como foi passar aqueles três meses no deserto."

"Desert High" é conduzida por um baixo vagaroso, uma guitarra que chora lentamente e a voz de Gibbons parece vir de outro mundo. Ele só recita os versos, não os canta.

"Sabia que não seria uma música que deveria cantar, ela tinha que ser falada. Ela se encaixaria em um filme de faroeste."

Até agora, dois singles foram lançados do álbum  - Roger Kisby / Divulgação - Roger Kisby / Divulgação
Até agora, dois singles foram lançados do álbum
Imagem: Roger Kisby / Divulgação

Nesta sexta-feira (14), uma nova música do álbum ("My Lucky Card") será lançada já com videoclipe.

Como todos os músicos, Gibbons quer voltar às turnês. Logo no início da entrevista, antes mesmo da primeira pergunta, o músico dizia querer vir ao Brasil em turnê. A única passagem do artista por aqui foi em 2010, em turnê com ZZ Top com dois shows em São Paulo e um em Porto Alegre.

E, ao final da entrevista, entendi que apesar da fama do público daqui, o interesse dele também era o tal aperitivo brasileiro assado na hora, na beira do mar.

"Quando voltar a viajar, levarei ela e iremos até o Brasil. Depois de fazer os shows da turnê, vamos encontrar esse queijo coalho."