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Pedro Antunes

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Eduardo Costa, o arrependido, agora critica Bolsonaro e vira até top 5

Eduardo Costa, o arrependido  - Montagem / Divulgação
Eduardo Costa, o arrependido Imagem: Montagem / Divulgação
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

02/05/2021 18h17Atualizada em 03/05/2021 12h50

Arrependido, meu tio não para de mandar "real news", como eu gosto de chamar o oposto das "fake news" sobre o coronavírus, sobre a ineficácia do tratamento precoce e sobre o governo Bolsonaro. É bonito de ver até, embora cansativo.

Ele, é claro, apertou 17 na urna eletrônica, convicto e de camiseta da seleção brasileira de futebol naquele dia. Tio Marcos usava até o filtro do Bolsonaro foto de perfil do Facebook, veja só. Andava com bandeira do Brasil presa na antena do carro esportivo. Adorava repercutir uma ou outra notícia mentirosa no grupo da família e, quando podia, arrumava confusão com alguém por dizer que a imprensa "pegava no pé do presidente".

Tio Marcos é uma figura que cresce no Brasil, uma espécie no oposto da extinção. Os bolsonaristas arrependidos (na web, você encontra termos menos amigáveis para eles, como "minions arrependidos" e coisas do tipo).

Um pessoal que acreditou no que disse Bolsonaro em campanha e, agora, admite que errou.

É preciso ter nervos de aço para, em um ato de bravura, dizer que foi enganado, não é?

Até porque, a turma do outro lado não é assim tão receptiva com os arrependidos (embora devesse ser, mas isso é um papo para outra coluna).

Eduardo Costa, sempre polêmico, é o típico bolsonarista arrependido, tal qual tio Marcos.

Mas Costa faz até música para contar pra todo mundo que lamenta a escolha feita nas eleições de 2018.

"Cuidado", a faixa, não é uma composição muito inspirada - já adianto - com uma letra que alterna rimas óbvias e outras mais interessantes, mas com pouco espaço para poesia ou requinte. É bem popularzona, mesmo.

E a interpretação do artista, que tem uma constância impressionante nos lançamentos semanais, sugere mais cuidados com as cordas vocais.

"Trocou os hospitais pelos estádios e agora estádios viram hospitais", canta Costa, outro momento. E, neste caso, ele está falando tanto de Bolsonaro quanto de Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva. Foi durante as presidências de políticos do PT que o Brasil se tornou candidato e sede da Copa do Mundo de 2014. No período, foram construídos novos estádios no País (muitos deles, pouquíssimos utilizados desde então).

É um combo: um jab no queixo do PT e, na sequência, um direto em Jair e sua inabilidade para controlar o coronavírus.

No verso, a repetição de palavras cobra um preço alto e a voz de Costa, tão combalida, não dá conta de dar sabor ao trecho em si.

Ou seja, a pancada ou o soco até saem, mas são fraquinhos e mal afetam o adversário.

Costa foi além da dicotomia "Deus versus diabo": "Você trocou Jesus por Barrabás", acusa o sertanejo arrependido.

Para os não-letrados na história, Barrabás era um conspirador que estava condenado a morte, mas que acabou absolvido pelas pessoas presentes no julgamento de Jesus. Na passagem relatada na bíblia, o povo preferiu salvar Barrabás, o assassino, e crucificar Jesus Cristo.

"Vendeu o voto e a alma pro diabo", canta Costa, em outro trecho. Bolsonaro é o Diabo, ok?

Como todo arrependido, Costa não dá nomes aos bois, é verdade.

O sertanejo ainda critica quem, segundo ele, fica de "mimimi" e canta mais uma porção de frases óbvias, como: "Eles passam só de quatro em quatro anos e o resto deste tempo, eles ficam planejando a festa, o pão, o circo".

À rádio Jovem Pan, em janeiro de 2021, chegou a dizer que não apoia mais políticos e quer ver o País melhor. Atitude típica dos arrependidos, infelizmente.

Por fim, o instrumental da canção (não creditado em lugar algum) faz uma pequena sequência de notas iguais ao Hino Nacional.

"Cuidado" é um típico sertanejo épico, que flerta com o gospel e brinca com vocais alongados como aqueles do soul.

Isso exige uma grande performance do dono gogó, algo que Costa se esforçou para entregar (apesar da pele esticada do rosto impedir as rugas de aparecerem), mas não deu conta.

"Cuidado" não é uma música boa, mas chegou ao 5º lugar nos virais do YouTube no Brasil, atrás somente de músicas de Anitta, Jorge & Mateus, Gr6 Explode e Orochi.

Lançado em 30 de abril, na última sexta, o vídeo de YouTube foi assistido 1,12 milhão de vezes até o encerramento deste texto.

Há mais gente arrependida chegando aí?

Minha avó, dona Adelina, que é moderna e adora enviar mensagens de WhatsApp para todos os netos e netas, com "boa noite", "bom dia" e figurinhas divertidas com a hashtag #sextou às sextas-feiras, sempre pediu por paciência quando as confusões no grupo da família começavam com o Tio Marcos.

Quando ele, enfim, admitiu estar arrependido em ter votado no Bolsonaro, ela também foi a primeira a dizer. "Antes tarde do que nunca".

No caso do sertanejo, poderia ser com uma música melhorzinha.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL