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Pedro Antunes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

A pós-sofrência de Jorge & Mateus tem amores líquidos e virtuais

Jorge & Mateus lançam o disco "Tudo Em Paz" - Montagem / Divulgação
Jorge & Mateus lançam o disco 'Tudo Em Paz" Imagem: Montagem / Divulgação
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

23/04/2021 17h33

Sem tempo?

  • Jorge & Mateus lançou o álbum 'Tudo em Paz' nesta sexta (23)
  • O disco reúne histórias sobre amores líquidos, fugazes e paixões que foram embora
  • E há duas maneiras de ouvir o novo trabalho da dupla
  • Escutar cada faixa individualmente é uma das maneiras, é claro. Certamente várias músicas entrarão nas suas playlists.
  • Mas há uma forma de ouvi-lo como uma narrativa única
  • De forma que o ouvinte escolher, "Tudo em Paz" responderá muito bem.

Os intelectualoides vão me matar, mas eu fiz isso, mesmo:

Conectei Jorge & Mateus (a maior dupla sertaneja do Brasil da atualidade - e há anos) e a teoria da liquidez das coisas de Zygmunt Bauman.

Passado o choque e a problematização sobre a ponte entre as teorias do sociólogo polonês e a obra da dupla do lindo Goiás, podemos seguir?

O que Bauman dizia, no livro "Amor líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos" é que os amores contemporâneos seguem a lógica do capital e do consumo.

São amores substituíveis, entende? De maneira simplificada, o que importa na teoria dele é a satisfação do cliente e a busca por novidades. Em vez de consertar a geladeira, por exemplo, as pessoas decidiram ser melhor comprar logo outra novinha. Com isso, as geladeiras se tornaram mais frágeis e menos duradouras porque ninguém mostrou muito interesse em mantê-las por muito tempo.

Queremos sempre mais, sonhamos com aqueles equipamentos de duas portas, freezer perfeito, aspecto futurista, a mais chique que coloca até gelo no copo com o apertar de um botão.

No caso desta metáfora, o cliente é o seu coraçãozinho e a geladeira, bom, são os amores que cruzam o nosso caminho.

A música pop e popular tratam disso há alguns anos, desses amores liquefeitos e tal. O que o novo álbum de Jorge & Mateus, "Tudo Na Paz", faz é criar uma narrativa moderna e intrincada sobre como é o jogo do amor atualmente.

"Tirando a falta que cê faz, tá tudo em paz",
canta a dupla na música que abre o disco e também dá nome a ele.

A música título do álbum é assinada por uma tonelada de gente (como é normal nesses nossos tempos de música popular) - os autores são Henrique Casttro, Montenegro, Elvis Elan, Maykow Melo e Bruno Rigamonte - e não precisa ser complexa nas palavras para dizer muito sobre esse dessabor amoroso.

Jorge & Mateus criam uma narrativa sobre o que vem depois da última ressaca de amor.

Lembra quando derramamos litros de lágrimas por aquela pessoa que foi embora? Dói até de lembrar, não é?

Mas já sofremos o que tinha para sofrer - alô, Marília Mendonça, é de você que eu estou falando - mas a cicatriz fechou. Continua e arde às vezes, mas o pior já passou.

Então, quando este alguém nos deixou pergunta como estamos, em uma ligação inesperada como a música mostra, a resposta oferecida por Jorge & Mateus é válida e sincera.

Possivelmente, é o início de uma nova era no cancioneiro popular brasileiro.

É a pós-sofrência. O que vem depois daquele chororô todo.

Surgem os amores passageiros, as relações líquidas (acharam que eu tinha esquecido do Bauman?) e recaídas. Nada é arrebatador como foi um dia. O que é triste, mas acontece.

"Tudo na Paz", faixa marcada pelo chorar de uma sanfona tristonha e que suinga em um forrozinho gostoso no final, abre uma possibilidade narrativa interessante.

São duas formas de ouvir este álbum, inclusive.

As 15 faixas do trabalho (dez inéditas e cinco lançadas anteriormente num EP do início de 2021) funcionam individualmente. Cada uma retrata uma situação corriqueira dos amores modernos desta era da pós-sofrência. Certamente uma das músicas (ou mais de uma, claro) funcionará para aquela indireta que você quer mandar nas redes sociais ou preencher a lacuna que faltava na sua playlist perfeita.

Mas há outra proposta de escuta, leitores chorões e choronas. Que é ouvir do álbum como uma história única de duas pessoas que terminaram depois de uma paixão profunda. Tudo está sendo contado ali, entre recortes e flashbacks, até a edificante "Tem que Sorrir", que encerra o disco.

A opção é sua, é claro, mas se decidir seguir pela ideia da narrativa única, saiba que estará entrará um discurso razoavelmente complexo e com uma mistura de pontos de vista inventiva que deixariam embasbacado até George R. R. Martin, o escritor que criou "Game of Thrones", mas delicioso.

E tudo começa com uma ligação

E essa chamada é descrita na primeira música de "Tudo Em Paz":

"Oh você me ligando primeiro /
Tem sorriso no seu tom de voz /
Pelo visto andou pensando em nós /
Te confesso eu também pensei"

Estamos diante de dois personagens, percebem? A tal ligação desencadeia um turbilhão de memórias do que viveu esse ex-casal de protagonistas depois do término. Tipo "Hello", da Adele ou de Lionel Richie.

Ressacas, choros, beijos na boca, match em aplicativos de encontros, fotos sorridentes postadas redes sociais.

Eles sofreram? Poxa, um bocado, mas também estabeleceram outras relações, algumas até duradouras, outras vazias, umas superficiais ou até razoavelmente profundas.

Todo o álbum se passa entre esse "alô" e o final dessa ligação tão importante para os dois personagens, em "Tem Que Sorrir".

Em um disco corajoso e honestamente doloroso ao apontar como as relações modernas são geralmente frágeis, Jorge & Mateus entoam versos sobre amores fugazes e passageiros vividos pelos dois protagonistas.

A roqueira "Troca" mostra a figura do boylixo, o sujeito que não responde ao carinho e que não diz "eu te amo" de volta.

Aliás, ouvi "Troca" e lembrei de Carla Diaz, ajoelhada, pedindo a mão de Arthur como parceiro de BBB 21 e ouvir, como resposta, um desajeitado e inexplicável "partiu".

Já na sequência, o pandeiro dita o ritmo de "Namorando com Saudade" e o ponto de vista passa a ser quem namora a pessoa errada.

Em "Me Ame Mais", surge a única participação do álbum, Marília Mendonça (e sua entrada realmente ilumina tudo, que voz!). Faz sentido que ela, a Rainha dessa Sofrência, esteja nesta música que é uma das mais derretidas do trabalho.

Faixa por faixa, você perceberá, Jorge & Mateus esmiúçam o que houve com esse casal de protagonistas do momento em que terminaram a relação que tiveram até o momento daquela ligação, em um entrelaçado de memórias, frustrações e flashbacks emocionais.

Bauman, o filósofo polonês citado no início do texto, não contava com os stories de Instagram, com Tinder e outras tecnologias que mudaram o jogo do amor, é claro, mas o caminho estava traçado e, neste disco, é cantado de forma direta e vívida.

E narrativa do álbum termina com a música "Tem Que Sorrir", dona de uma mensagem otimista (até demais para o meu gosto). "Diga 'eu te amo' para alguém", cantam Jorge & Mateus.

E o final?

Como todo bom filme, a história do álbum não entrega o destino dos personagens. Perceberam também?

Ao encerrarem a ligação, depois de lembrarem tudo pelo que passaram após o término, após experimentarem esse período de sentimentos nublados da pós-sofrência, eles ficarão juntos? Ou perceberam que o que tiveram foi bonito, mas acabou?

Sim, Bauman, amar em 2021 é para os corajosos. Mas, como bem mostram Jorge & Mateus, viver sem ele, um amor, de verdade é ainda pior.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL