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Pedro Antunes

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Daft Punk revolucionou o pop com estética dos robôs e volta à forma humana

Daft Punk anunciou o fim da dupla hoje (22) - Divulgação / Columbia Records
Daft Punk anunciou o fim da dupla hoje (22) Imagem: Divulgação / Columbia Records
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

22/02/2021 16h18

A existência conceitual do Daft Punk era uma deliciosa ficção científica. Robôs humanoides que criavam músicas a partir do nosso cotidiano. Não precisavam "falar" muito. A repetição e os loopings, inspirados pelas raves frequentadas por Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter no início dos anos 90 em Paris, diziam tudo.

Desde o primeiro álbum da dupla, "Homework" (1997), com o hit "Around the World", o Daft Punk mostrou a repetição poderia tomar lugar da poesia para retratar um cotidiano cada vez mais mecânico e globalizado.

É interessante analisá-los agora, com o anúncio do fim da dupla, a partir da nossa perspectiva da vida automatizada e completamente dependente das máquinas - com aparelhos como Alexa, que respondem perguntas mais estúpidas ou às questões sobre a previsão do tempo, atendem aos pedidos de tocar música, criam timers e nos lembram dos afazeres do dia.

Daft Punk, formado por dois guris franceses que desencarnaram do indie rock e se apaixonaram pela música eletrônica, sempre foi altamente crítico à decadência do fator humano da sociedade, mas faziam isso a partir de beats e hits perfeitos para a pista de dança.

Como profetas de um futuro robótico e automatizado, o Daft Punk colocou a gente para dançar com um primeiro par de discos revolucionários, "Homework" (1997) e "Discovery" (2001), que celebravam a decadência da humanidade existente em cada um de nós.

Claro, "Harder Better Faster", é um hit poderosíssimo, com uma estética única de flertar com animes futurísticos...

? Mas era nas entrelinhas que o Daft Punk fazia estrago

No mesmo disco "Discovery", da celebração da automatização e com a house music levada ao limite com "Harder Better Faster", eles se permitiam sofrer com uma pegada funkeada (na deliciosa e quebradora de corações "Something About Us") ou esfarelar conceitos dos solos de guitarra virtuosos com o looping de "Aerodynamic".

Ouça essa delicinha aqui:

O curioso caso do Daft Punk é que, por mais robótica que fosse a música que o duo criava, ela mantinha os traços humanos.

Fosse em imagens gravadas em cartões de memória daqueles personagens robôs com os quais eles se apresentavam, fosse no sangue que ainda circulava entre as partes ainda humanas deles.

Enquanto Daft Punk caminhava por um terreno bastante desconhecido da música, levando a house e o tecno para além dos limites imagináveis, eles não deixavam de homenagear os grandes artistas da disco, do rock e do pop, o que ficou ainda mais evidente com o passar do tempo.

No limite entre o humano e o robô

Não é por acaso que o terceiro álbum, lançado em 2005, se chamou "Human After All" (algo como "humanos, no fim das contas") e brincavam com esse conceito em, por exemplo, "Robot Rock", o rock robótico do Daft Punk.

Mas o duo ficou longe dos holofotes por um tempo. Oito anos separam "Human After All" de "Randon Access Memories", o álbum derradeiro da dupla, de 2013.

Nesse meio tempo, o mito em torno do Daft Punk cresceu. Kanye West, por exemplo, usou "Harder Better Faster", em "Stronger", no disco "Graduation" (de 2007). No mesmo ano, o duo lançou o poderoso álbum ao vivo, "Alive 2007".

Quando "Randon Access Memories", o Daft Punk mostrou sua versão mais humana até aqui.

Enquanto produtores e DJs da música eletrônica fomentada pelo duo francês se tornavam estrelas de primeira grandeza da indústria, com o uso cada vez mais automatizado dos samples que foram fundamentais para a carreira do Daft Punk, Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter fizeram o oposto.

"Randon Access Memories" é uma ode à música orgânica, aquela tocada por instrumentos de verdade - e por seres humanos, é claro.

Foram vencidas cinco categorias do Grammy com esse disco que tinha as participações de Julian Casablancas (do The Strokes, em "Instant Crush"), Pharrell Williams (em "Lose Yourself To Dance" e "Get Lucky") e Panda Bear (em "Doin' It Right"). Além deles, o guitarrista Nile Rodgers, da banda Chic, assina três faixas.

A mais surreal das músicas era "Giorgio by Moroder", na qual o veterano produtor da música eletrônica Giorgio Moroder narra a própria história enquanto o Daft Punk constrói uma música em torno disso.

Mais oito anos se passaram desde aquele álbum. O Daft Punk seguiu em silêncio, com exceções às participações em "I Feel It Coming" e "Starboy", do The Weeknd. O que era a expectativa por um novo disco terminou com o anúncio hoje (22), de que o duo chegou ao fim.

Por mais triste que a despedida seja, ela faz sentido.

Quando ainda éramos só humanos, o Daft Punk mostrou o futuro das máquinas.

Agora que somos meio humanos, meio máquinas - em uma ideia mais conceitual do que literal, por enquanto -, é chegada a hora do Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter voltarem à forma humana, abandonando as personas robóticas que criaram com o duo.

E que esse seja, mais uma vez, o nosso futuro. Humano, afinal de contas.

Errata: o texto foi atualizado
A música do Daft Punk com Julian Casablancas se chama "Instant Crush" e não "Instant Karma", como reportado no texto original. A informação foi corrigida.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL