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Pedro Antunes

Vale a pena Nego do Borel lançar uma música ruim sobre recomeçar?

Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

22/01/2021 20h06

Sem tempo?

  • Denunciado por abuso, Nego do Borel lançou uma música nova hoje (22)
  • Na faixa, 'Recomeçar', o artista fala sobre um relacionamento que chegou ao fim.
  • "Todos podem recomeçar", escreveu Nego do Borel no post de Instagram que celebrava o lançamento da faixa.
  • A questão, meus jurados da internet favoritos, é: já era hora de lançar música?

Se você acessou o UOL nas últimas semanas é certo que cruzou com os nomes de Nego do Borel e Duda Reis.

Isso porque o relacionamento deles chegou ao fim com Duda apresentando detalhes da vida do casal, com denúncias da parte dela sobre abusos dele. A história foi parar até no Fantástico, da TV Globo.

Duas semanas depois da exposição toda, Nego do Borel lança uma música com o nome sugestivo de "Recomeçar".

Na letra, ele canta sobre arrependimentos e cita até as boas lembranças de um relacionamento.

Em nenhum momento ele diz se tratar de uma música sobre a história que viveu com a influenciadora Duda Reis, mas talvez nem precise. Quando ele diz "todos podem recomeçar", no post de Instagram no qual anuncia a chegada da música às plataformas digitais, tudo fica bem claro.

Do ponto de vista musical (tirando a canção do contexto e analisando-a por si só), "Recomeçar" é frágil, tem flow truncado, em que as palavras, por vezes, não cabem no andamento da música. Tudo soa desconjuntado.

Para piorar, se você ouvir com atenção, toda a melodia do refrão de Nego do Borel segue a harmonia de "Tá Rocheda", dos Barões da Pisadinha, mas em um ritmo lento, com camadas de violão e uma pegada de R&B acústico de churrascaria.

Veja se a semelhança não é, no mínimo, curiosa:

No vídeo do Nego do Borel, o refrão começa do tempo 0'53'':

Já na música dos Barões da Pisadinha, o trecho se inicia em 0'50''.

Pisadelas a parte, a pergunta que faço, meu jurado da internet, é: o que Nego do Borel tem a ganhar uma canção que soa como uma resposta musical ao turbilhão que tem vivido?

Me parece simples. Views. Likes. Números.

É o mal da internet. Tudo é contabilizado e tem valor. Alguém expõe algo e os números de engajamento vão para as alturas. Aquele que é cancelado leva a pancada virtual, mas também vai parar nos trending topics do Twitter.

A resposta musical dele (com uma música mais frouxa do que o elástico da minha meia favorita que uso toda semana pelos últimos 14 anos, ainda por cima), não trata do que aconteceu e só capitaliza com a exposição.

Se é bom para ele ou não, os views que podem dizer.

Mas uma coisa que tenho certeza é: Gusttavo Lima já pode buscar o diploma de professor na arte de transformar as crises em likes.

Se você não entendeu a citação ao cantor sertanejo, dá uma olhada no texto do Fefifo, nobre colega colunista de Splash, que vai ficar mais fácil.