PUBLICIDADE
Topo

Pedro Antunes

Com Gilberto Gil, Emicida dá o carinho ausente em 2020: 'É Tudo Pra Ontem'

Emicida e a imagem projetada de Gilberto Gil - André Bernardes / Divulgação
Emicida e a imagem projetada de Gilberto Gil Imagem: André Bernardes / Divulgação
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

10/12/2020 11h00

Sem tempo?

  • Emicida lançou hoje o clipe de 'É Tudo Pra Ontem', com participação de Gilberto Gil
  • A música está presente no final do documentário lançado pelo rapper na Netflix nesta semana
  • Em 'É Tudo Pra Ontem', Gil recita trecho de um texto de Ailton Krenak
  • "Me coloco no lugar de uma pessoa curiosa, que sofre, que chora, que ri, que sente angústia, tem esperança, que se diverte, que lava um banheiro"

2020, áspero. No Instagram, alguém me manda uma mensagem raivosa porque gosta de Guns N' Roses e deixando claro ter notado a minha crescente calvice. Já o prefeito de uma grande capital faz um post na mesma rede social com comentários fechados para os não-seguidores (como eu) com prints desta a coluna para falar de "RADICALISMO IDEOLÓGICO" (assim mesmo, em caixa alta).

2020, o ano em que tudo se tornou motivo de raiva. De opiniões contrárias transformadas em inimigas. Ódio.

Tudo bem não gostar de Guns N' Roses. Ou gostar, também. Tudo bem ser tucano e ouvir Rage Against the Machine.

Entende? Falta afago. Sinto falta de carinho, de todos os lados. E faço, aqui, um mea-culpa também. Poderia ter amado mais, já cantaria Sérgio Britto, dos Titãs.

E aí vem Emicida. Ele, sempre ele, que brilhou ao longo de 2020 ainda com mais intensidade, acho, do que na brilhosa última década. Com ele, Gilberto Gil. As lágrimas podem cair. Está liberado.

"É Tudo Pra Ontem" chegou como isso, para ser o carinho tão ausente em um ano do desagarro. "É o ano todo de sexta-feira, treze", versa Emicida, levinho, logo no início da música lançada nesta quinta (10), nas plataformas de streaming e, a partir das 11h de hoje, em videoclipe dirigido por Fred Ouro Preto.

O vídeo mostra Emicida ao pé do Theatro Municipal de São Paulo, palco do show de lançamento do álbum "AmarElo" e parte fundamental do documentário dirigido por Ouro Preto. Ao fundo, entre as imagens projetadas, está Gilberto Gil, que participa da faixa. Vou falar sobre Gil mais a frente. Por enquanto, assista ao vídeo abaixo.

A música, se você prestou atenção direitinho, está no final do histórico e heroico documentário lançado por Emicida e o irmão/sócio Evandro Fióti com a Laboratório Fantasma na Netflix. Não por acaso, o título da canção está no documentário.

Emicida - André Bernardes / DIvulgação - André Bernardes / DIvulgação
Emicida
Imagem: André Bernardes / DIvulgação

Emicida, no final de 2019, soltou "AmarElo", um álbum extravasado. Mais do que um punhado de músicas, aquele era um projeto e/ou experimento social, cultural, multiplataforma (com braços que iam do Twitter aos podcasts, além de, é claro, o documentário na Netflix).

O rapper falava sobre a história oral do povo negro ignorada pelos livros de história brasileira, mas fazia isso ao sabor do afeto, não do ódio. Rimava sobre como o amor era (e é) a saída para aquele vórtex de cólera.

Aqui, ele também zomba também da pressa. O que precisa ser "pra ontem", afinal?

Não quero simplesmente olhar para as coisas que eu escrevi e trazer de volta a energia dos piores momentos desse ano. Acho que muitas coisas vão se propor a isso e fazer de uma maneira muito interessante e criativa e bacana. Pra mim, é satisfatório que outras pessoas que estejam mais à vontade para fazer isso, façam.

E Emicida segue:

Decidi investir numa forma afetiva de conduzir a conversa. Essa forma afetiva me faz sair desse lugar de reverência que a indústria coloca um artista e me colocar mais como pesquisador, um investigador, ou melhor, um curioso. Eu me coloco no lugar de uma pessoa curiosa, que sofre, que chora, que ri, que sente angústia, tem esperança, que se diverte, que lava um banheiro, uma louça? Mas que queria, assim como todas as pessoas no ano de 2020, lavar a alma e se desconectar desse contexto de alguma maneira, refletindo sobre a grandiosidade da vida. 2020 fez a gente pensar muito no porquê, porque que a gente faz um monte de coisa?

Emicida pergunta sobre os porquês. E, realmente, não tenho resposta. Talvez ninguém tenha, na verdade.

O rapper chamou Gilberto Gil para recitar um treco do livro "A Vida Não É Útil', de Ailton Krenak, autor e líder indígena a quem ele chama de "figura mais importante no Brasil deste momento". E conta mais:

As provocações que o Krenak traz em todos os três livros são urgentes e a gente precisa se debruçar sobre ele se a gente quiser encontrar uma solução positiva que contemple algo além do Sudeste.

Sobre a ideia de chamar Gil para a conversa, Emicida diz:

Quando eu tive essa ideia, eu fiquei pensando muito que o Gilberto Gil tem uma aura espiritual muito forte, uma aura de divindade, a sabedoria com a qual ele analisa a experiência humana é algo que me enriquece toda vez que eu o ouço.

A música "É Tudo Pra Ontem", produzida pelo rapper e Felipe Vassão, tem vocais de Evandro Fióti, Thiago Jamelão e Dj Nyack e coro formado ainda por Estela, Teresa, Marina Santa Helena e Raissa Fumagalli.

É uma canção que cresce, se agiganta apesar da aura leve.

"Viver é partir, voltar e repartir", cantam todos, em uníssono, lá pelo final da canção.

"Viver é partir, voltar e repatir", repete, por fim, a voz única e acalantadora de Gilberto Gil acompanhada de um dedilhar de violão.

Com "É Tudo Pra Ontem", Emicida dá aquele carinho que tanto faltou em 2020.