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Pedro Antunes

Heroico, documentário do Emicida na Netflix vale como aula de história

Emicida no show do Theatro Municipal - Jef Delgado / Divulgação
Emicida no show do Theatro Municipal Imagem: Jef Delgado / Divulgação
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

08/12/2020 04h00

Sem tempo?

  • Emicida e Netflix lançam o documentário 'AmarElo - É Tudo Pra Ontem'
  • No filme, Emicida usa o contexto do show no Theatro Municipal, em São Paulo, para apresentar as bases do projeto que levou o nome de 'AmarElo'
  • Ao fazer isso, o rapper usa de uma plataforma de alcance mundial para reparar erros históricos da criação da identidade cultural brasileira
  • O documentário está disponível na Netflix a partir de hoje (8)

Era o final da apresentação de Emicida no Theatro Municipal, em São Paulo, quando o rapper, ao microfone, se despediu:

"Nos vemos nos livros de história"

Era premonitório.

Talvez fosse uma frase criada no improviso, na emoção do final do show de lançamento do álbum "AmarElo" (disco de outubro de 2019) ou talvez tivesse sido ensaiada em frente ao espelho um milhão de vezes.

Não importa, na verdade, o contexto de origem dela. Emicida fez história. A dele e a de tantos que estavam ali naquela tarde em um teatro erguido por mãos trabalhadoras negras, mas cuja presença naquelas cadeiras foi negada por mais de um século direta ou indiretamente.

E tudo, tudo, realmente tudo é interligado no projeto "AmarElo", que é, sim, um disco, com 11 faixas e 49 minutos de duração, mas é tão mais. Inclui de threads de Twitter a podcasts, é estudo social e transformador, era show, é cinema.

"AmarElo" é, oficialmente a partir de hoje (8), um filme/documentário na Netflix.

"AmarElo - É Tudo Pra Ontem" chegou à plataforma de streaming com pompa. Uma realização da Laboratório Fantasma, produzido por Evandro Fióti (empresário, sócio na empresa e irmão de Emicida) e direção de Fred Ouro Preto, o documentário teve pré-estreia (também à distância), com um chat para que os convidados pudessem trocar entre si, e um papo no final com o trio Emicida, Fióti e Ouro Preto.

Os três, aliás, se emocionaram algumas vezes ao falar da realização do filme, contaram intenções, deram detalhes dos bastidores, choraram por quem ficou pelo caminho. Isso, infelizmente, foi testemunhado por poucos, somente os convidados daquela noite.

"É Tudo Pra Ontem" tem urgência, como o título diz. Emicida, afinal não fala só de si ao narrar o documentário. "AmarElo" é o elo, é a conexão entre culturas, é amor, é afeto, é o encontro do samba com rap (o neo-samba), é uma reparação histórica, acima de tudo.

Emicida estudou, esquadrinhou e vasculhou a história brasileira. Dele e de todos que descendem daqueles trazidos à força e acorrentados em navios de terrores vindos do continente africano, despidos de identidade, história e cultura.

Urgente porque, nas escolas e nos livros, a escravidão não é tratada como o ato horrível que foi. Porque a estrutura social baseada em uma construção de um País racista também não é debatida nas salas, entre professores e alunos.

A cultura negra é histórica e repetidamente apropriada. Do rock ao samba.

É uma questão inadiável

O que Emicida faz é gigantesco e heroico. Extremamente didático, também, afinal, o rapper sabe ser necessário explicar, tintim por tintim, cada detalhe dessa outra história. (Estamos em um País em que há quem defenda a existência do "racismo reverso", entende?).

Ao final do documentário, a frase dita naquele show se mostra não somente verdadeira, mas necessária. Uma reparação obrigatória.

Controle da narrativa

Emicida e Fióti, com a Laboratório Fantasma, tomaram para si o controle da própria narrativa. Fizeram de tudo, de música a desfile no SPFW, e passaram a ditar as regras do jogo. A partir da emancipação, os dois irmãos franzinos da Zona Norte de São Paulo que vendiam CD a R$ 2 nas ruas do centro da cidade se tornaram tão imbatíveis e super-poderosos quanto os heróis das histórias em quadrinhos.

A dita emancipação transcende a cada nova realização da dupla. Deixaram de ser só dois heróis, sozinhos, faz tempo. Cresceram e, com eles, formaram um time mais numeroso e poderoso que os Vingadores. Quanto mais pessoas têm a alma tocadas por eles, mais fortes todos ficam.

Hoje, Emicida, Fióti e essa história tão esquecida do Brasil ganha um registro importante, disponível em uma das maiores plataformas de streaming do mundo.

Percebe a força daquilo que escrevi acima sobre "tomar conta da própria narrativa?"

Depois de séculos de esquecimento e embranquecimento nos livros escolares, Emicida transformou as armas que construiu numa carreira de mais de uma década em uma resposta para uma construção social com mais de cinco séculos de desigualdade. O documentário é a mais recente peça lançada desse processo criado gradativamente.

"AmarElo - É Tudo Pra Ontem", não inventa a roda em termos de narrativa e cinema, mas a linguagem se faz necessária para que a mensagem chegue sem ruído para o maior número de pessoas.

O documentário vale como uma aula e deveria ser transmitido em todas as escolas do País.