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Pedro Antunes

Menos é Mais: grupo resgata sabores do pagode dos anos 90, mas quer mais

Grupo Menos é Mais - Filipe Miranda / Divulgação
Grupo Menos é Mais Imagem: Filipe Miranda / Divulgação
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Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

27/11/2020 04h00

Sem tempo?

  • Conheça os segredos do sucesso do grupo de pagode Menos é Mais
  • Adorados por boleiros, eles sabem reverenciar o pagode dos anos 90
  • As dancinhas nos shows e nos vídeos ajudam a criar engajamento nas redes sociais
  • O grupo lançou um projeto chamado 'Churrasquinho do Menos é Mais', com medleys de pagodes antigos - e foi um estouro
  • Agora, a trupe de Brasília soltou um EP com seis músicas - cinco delas inéditas

Logo no início da entrevista com Gustavo Goes, um dos percussionistas do Grupo Menos é Mais, tentei uma interação diferente, baseada no meu aprofundado conhecimento sobre "Masterchef", a competição culinária da Band.

No reality, o chef e jurado Henrique Fogaça tem um conhecido lema entre os participantes: "Menos é mais", repete ele, em um pedido para que os competidores evitem pratos estrambólicos e optem por ideias que podem ser sofisticadas, mas sem exagero.

Seria o Menos é Mais, grupo de pagode mais cool do Brasil na atualidade, inspirado por um jurado de reality show?

A resposta é "não". Fuén. Mas tudo bem, também.

O que importa é que o Menos é Mais, grupo que lançou na noite de ontem (26), o EP Plano Piloto (Som Livre), a primeira parte de um álbum cheio, com participações de Dilsinho e Xande de Pilares, e se prepara para uma espécie de nova dominação do pagode nacional, sem perder as raízes brasilienses.

Afinal, significa o Menos é Mais?

Depois de chutar a bola para fora com a referência à "Masterchef", Goes me explica que o conceito por trás do nome do grupo gira em torno de comida, também, mas em outro aspecto. Conta aí, Goes:

A gente brinca que o Menos é Mais é aquele amigo que pode ir num churrasquinho de esquina ou ir à churrascaria mais cara. A gente vai se adaptar à qualquer condição"

A metáfora carnívora de Goes tem relação com a ideia de que o Menos É Mais é um grupo que teve início com poucos integrantes. "A gente tocava em qualquer barzinho pequeno, em festas particulares. Com o tempo, fomos conseguindo aumentar a banda", ele explica, e segue:

Virou nossa filosofia. Não precisa de tanta coisa para fazer um pagode. A gente pode levar isso para outros campos da nossa vida. Levar tudo de uma forma mais simples."

Início e estouro rápido

Para quem está ligado no que rola no pagode, não foi uma surpresa o fato de o Menos é Mais ter sido o grupo vencedor do Prêmio Multishow 2020 na categoria Experimente, criada para premiar os jovens artistas e as revelações.

Na premiação, eles disputavam contra nomes grandes da música pop brasileira mais contemporânea, como Giulia Be (sucesso, inclusive, em Portugal), as ótimas Agnes Nunes e Elana Dara e o DNA do também incrível Francisco Gil.

E eles levaram o prêmio, mesmo assim.

Formado atualmente por Duzão (voz), Gustavo Goes (percussão), Jorge Farias (percussão), Paulinho Félix (percussão) e Ramon Alvarenga (percussão), o Grupo Menos é Mais começou em 2017 e essa formação se montou aos poucos.

"Tudo que é nosso vem com esse ar de novidade", avalia Goes. "E aconteceu muito rápido. Começamos o nosso trampo na internet dois anos atrás. Faz um ano que as coisas começaram a acontecer para a gente."

Curiosamente, o grupo caiu no gosto dos jogadores (e ex-jogadores) de futebol. Gente como Neymar, Ronaldinho Gaúcho, Denilson, Thiago Silva, Marquinhos e Roberto Firmino estão entre os fãs do grupo.

Dá para montar dois times com com jogadores que curtem o grupo

Atualmente, são 3,5 milhões de ouvintes mensais no streaming, 2,2 milhões de inscritos no canal de YouTube e 660 milhões de visualizações na plataforma de vídeos.

Dancinhas e Tiktok

Parte do sucesso prévio de "Plano Piloto", esse EP lançado ontem, tem a ver com o trabalho do grupo nas redes sociais. O single "Adorei" foi amplamente divulgado pela banda, por exemplo.

Além disso, a rapaziada do Menos É Mais sabe da importância de se comunicar com o público da forma como outros influenciadores o fazem.

"Adorei", portanto, tem um #challenge no TikTok com uma dancinha razoavelmente simples. Aliás, o grupo tem uma conta na rede social há pouco mais de um mês (o primeiro post é de 24 de outubro) e já reúne quase 214 mil seguidores.

@grupomenosemais

Oi galera! Tamo chegando aqui agora. Alguém pra nos receber? ##menosemais ##pagode ##comedyvideo ##chamapapai

? space cadet - favsoundds

Saca a coreografia de "Adorei":

(Essa dancinha não parece ser das mais difíceis e acho que até eu vou tentar me arriscar. Qualquer dia, conto como foi a experiência)

O clipe da foi lançado pouco depois da chegada do grupo ao TikTok e narra uma história de amor que começa no pagode e termina em casamento.

"A gente é dançarino de rolê. Nossa proposta é animar o público e fazer a galera dançar. Não tem ninguém profissional, mas a coreografia de 'Adorei', a gente mesmo que decidiu, criou. Somos esforçados"

Está explicado o motivo da dificuldade da coreografia de 'Adorei' seja para iniciantes, portanto.

A verdade é que a simplicidade da coisa se conecta diretamente com a ideia/conceito do "menos é mais", tanto do Fogaça quanto da banda. Não precisa ter 1293 passos de coreografia diferentes, o que importa para o pagode do Menos é Mais é que o pessoal fique com um sorriso no rosto.

"Nas redes sociais, as pessoas querem te ver em situações inéditas, em circunstâncias da vida. É muito legal apresentar esse lado para as pessoas."

Para Goes, as redes sociais transformaram a relação entre artista e fãs. "O artista deixou de ser intocável", ele diz. "Desde o início, a gente quis trabalhar a imagem. A pandemia acelerou um processo e fez com que todos os artistas recorressem à internet. Ela acabou se tornando um acelerador disso"

Já com um público nas redes e engajamento estabelecido, o Menos É Mais fez uma live em 18 de setembro com as participações de Ferrugem e Tiee.

Essa live foi assistida 4,6 milhões de vezes.

Uau, não é?

Covers e Churrasquinho

A mudança de patamar do Menos é Mais está diretamente ligada ao projeto "Churrasquinho do Menos é Mais", um estouro. Sem necessariamente inventar uma nova roda, o grupo fez medleys de pagodes dos anos 1990 e 2000 de sucesso.

Por exemplo: no YouTube, o vídeo que reúne as músicas "Melhor Eu Ir" (Péricles), "Ligando Aos Fatos" (Pique Novo), "Sonho de Amor" (Nosso Sentimento) e "Deixa Eu Te Querer" (Gustavo Lins) foi assistido 273 milhões de vezes.

O que funcionou foi o formato. Um vídeo longo, com quase 10 minutos de pagodes famosos, caiu muito bem no streaming e no YouTube, como os números provam. Faz parte de um novo tipo de consumo de música, principalmente em um 2020 tão louco. "Muita gente coloca para ouvir para se arrumar, para limpar a casa. E é uma faixa de oito minutos de pagode. É bom para o público consumir."

Pagode dos anos 90

Para Goes, os novos grupos de pagode, como o Menos é Mais, têm a possibilidade de também apresentar os sucessos do gênero de quase 30 anos de existência, para um público que tem pelo menos uma década a menos de vida.

Hoje, a gente se comunica com um público das antigas e um pessoal mais jovem. Às vezes, trazer essas músicas antigas para o público jovem pode parecer inédito, porque ele não consumiu aquele artista nos anos 1990. No pagode, é importante que as músicas mais clássicas permaneçam vivas. Regravá-las é uma forma de mantê-las assim."

Grupo Menos é Mais - Filipe Miranda / Divulgação - Filipe Miranda / Divulgação
Grupo Menos é Mais
Imagem: Filipe Miranda / Divulgação

Na pandemia, houve um movimento de público de retração na busca por músicas novas. Principalmente no primeiro mês de isolamento social, por volta de março, os números de músicas antigas ("de catálogo", como diz o mercado) cresceu. As pessoas buscaram conforto naquilo que já conheciam.

O pagode 90, é claro, teve um aumento e procura no início do distanciamento social.

E timing é tudo, não é? O Menos é Mais, com um vasto catálogo de regravações e, ao mesmo tempo, apresentando uma linguagem jovem (e antenada nas redes sociais), só cresceu.

Tudo o que é bom não morre rápido. Existem músicas que transcendem o tempo. Quando você começa a tocar pagode, você se espelha nesses grupos antigos e, consequentemente, nessas músicas. Por isso é um ciclo que não acaba. Todo grupo que chega agora vai obrigatoriamente regravar músicas porque existe todo um processo de lançar uma música inédita."

E Goes emenda:

Os anos 1990 foram a década de ouro do pagode. Não teria como não ser reproduzido até hoje e não continuar vivo."

Pagode candango

Há um movimento de pagode de Brasília em expansão. Artistas como Grupo Menos É Mais (1,6 milhões de seguidores no Instagram) e Di Propósito (556 mil seguidores) capitaneiam essa geração que deixa as fronteiras do Distrito Federal.

"É um espaço geograficamente limitado", diz Goes, ao falar sobre possibilidades e espaços para a música ao vivo em Brasília, comparando-a com cidades como São Paulo e Rio de Janeiro.

Essa questão fez os grupos não só atuarem melhor nas redes sociais (para chegar em lugares distantes), mas também criou um DNA do pagode candango, como explica Goes.

Sempre existiu um público pagodeiro em Brasília. A gente começou a fazer o nosso pagode com DNA brasiliense. Apesar da influência do Sudeste, Brasília tem o próprio sotaque em fazer música."

O DNA do Menos é Mais é um pagode mais percussivo. "Fazemos questão de colocar a percussão logo na cara. Nossos integrantes são percussionistas, então, a gente faz questão de fazer um pagode alegre, animado. Quem sai de casa para consumir música não está ali para ver gente emburrada. A gente quer levar alegria. As dancinhas também são uma forma da gente interagir com o público."

Aliás, diz Goes, "os grupos de pagode dos anos 1990 também faziam dancinhas."

Músicas autorais

Parte final do processo de crescimento do Menos é Mais está ligada ao EP "Plano Piloto". São seis músicas no total, cinco delas inéditas. Dilsinho canta em "Coração Chorando", música cujo clipe foi lançado hoje (27), e Xande de Pilares participa de "Ela é Pagodeira".

O EP, ouvido de cabo a rabo, é puro pagode 90 atualizado para o nosso tempo. Aplicativos como Uber e Instagram, citados aqui e acolá, ajudam a situar a contemporaneidade das faixas. Os refrões são construídos se cantar junto, com aqueles bons picos de notas agudas, alongadas e as vozes em coro. Ou seja, otimas para um churrasco. "Adorei", por exemplo, é chicletíssima (e good vibes), já "Coração Chorando" é desoladora.

"Ser fora do eixo, para nossa bandeira, foi bom. A gente conseguiu trazer muita coisa que estava fora da curva", diz Goes.

A primeira parte do projeto "Plano Piloto" não se excede. É um trabalho enxuto, com 18 minutos e músicas bem aparadas. Como disse o Fogaça no "Masterchef", "menos é mais". E ele estava certo aqui também.

Viu só como ia conseguir emplacar essa conexão entre "Masterchef" e o Menos é Mais?