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Pedro Antunes

Pai de Zezé e Luciano, Seu Francisco mudou o rumo da música sertaneja

Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

24/11/2020 11h58

Sem tempo?

  • Seu Francisco, pai de Zezé di Camargo & Luciano, morreu ontem (23), aos 83 anos de idade
  • Fã de duplas sertanejas, Francisco sempre quis que seus filhos trilhassem o caminho artístico
  • Com um punhado de fichas telefônicas, ele ligava para a rádio de Goiânia para pedir que tocassem a música dos filhos, "É o Amor"
  • Da sua maneira, Seu Francisco ajudou a mudar o rumo da música sertaneja como a conhecemos hoje

Se você assistiu ao filme "2 Filhos de Francisco", talvez esteja mais familiarizado com a importância do Francisco do título do longa para a história da música sertaneja brasileira. Sem Seu Francisco, onde estaria o sertanejo? Qual seria a fatia do gênero dentro da música mainstream geral?

Gente como Gusttavo Lima, Marília Mendonça, Jorge & Mateus, etc, seriam os nomes mais populares da música da atualidade?

Bom, tudo isso gira em torno de Seu Francisco, pai da dupla Zezé Di Camargo & Luciano, morto ontem (23) aos 83 anos, em um hospital particular em Goiânia (GO).

Fã de duplas sertanejas como Tonico e Tinoco, Francisco teve o primeiro filho, Mirosmar, quem depois seria conhecido como Zezé Di Camargo, e decretou que aquele guri seria a primeira voz.

E insistiu nisso: deu instrumentos musicais, levou-o os para tocar rodoviárias e onde quer que fosse possível.

Quase 6 milhões de pessoas assistiram ao filme "2 Filhos de Francisco", de Breno Silveira, lançado em 2005, no qual é contada toda a trajetória de Francisco e o sonho de ter os filhos formando uma dupla sertaneja, primeiro com Mirosmar e Emival - este último, morto em um acidente em 1975.

A tragédia dos anos 1970 levou à década seguinte, à nova tentativa de Mirosmar, agora com o irmão quase uma década mais novo, Welson David.

Saltamos para o ano de 1990 e a dupla estava formada com o nome de Zezé Di Camargo & Luciano, um contrato assinado com a gravadora Copacabana e um disco para fazer.

O sertanejo se mudava para a cidade

Na década anterior, tinha início a era do sertanejo romântico, mais distante daquele sertanejo tradicional, com o som da viola e com narrativas sobre os causos do campo e a saudade da terra como centros gravitacionais dos versos.

Com essa abertura temática e harmonias mais doces, o sertanejo chegava às TVs e às rádios FM.

Na época, era o amor que dominava as paradas, em uma aproximação cada vez maior com a música popular daquele tempo.

Aí chegamos em "É o Amor", música inspiradíssima de Zezé, criada numa madrugada, que após muita insistência, entrou no primeiro álbum da dupla, "Zezé Di Camargo & Luciano", de 1991.

Seu Francisco e a cultura do fandom

Atualmente, os fandoms, uma espécie de fã-clube contemporâneo, são responsáveis por brigas acirradíssimas em eleições de melhores com votos abertos.

Vocês lembram da época em que o rock colorido de Restart e companhia dominou as votações da MTV graças às votações massivas dos fã-clubes?

Seu Francisco fez a mesma coisa, mas em um tempo pré-internet. Morando já em Goiânia, ele reunia o dinheiro que tinha para comprar fichas telefônicas e pedir para que todos os conhecidos ligassem para a rádio local e pedir pela música "É o Amor".

Aliás, esse é um momento bem emocionante no filme de Breno Silveira.

Teria sido o Seu Francisco o criador dessa tendência, 30 anos atrás?

Com esse empurrãozinho de Seu Francisco (e, claro, com a qualidade da música, uma canção derretida de amor), "É o Amor" vendeu 1 milhão de cópias.

Por mais simbólico que o ato tenha sido, o fato é que a música estourou e virou um sucesso nacional estrondoso.

Zezé Di Camargo, que já era um compositor conhecido por criar músicas para Chitãozinho & Xororó e Leandro & Leonardo, estava no topo do sertanejo e da música brasileira.

O pós-É o Amor

Não é que "É o Amor" carregou sozinho o sertanejo romântico para frente, mas a verdade é que a música fez uma onda. Depois de anos cantando o campo, o sertanejo se achava nos ambientes urbanos e nas grandes cidades. Mudou a temática, ganhou mais público.

Ali, quem já estava na crista, caso dos já citados Chitãozinho & Xororó e Leandro & Leonardo, entre outras duplas, cresceram junto.

Aliás, uma dica para quem curte sertanejo é o podcast "Prepare o Seu Coração", disponível no Spotify, feito pela jornalista Lorena Lara:

O sertanejo romântico se tornou "o" gênero da música de origem caipira daqueles anos 1990. Na mesma década, os grupos de pagode também cresceram com uma pegada igualmente adocicadas. Até a música popular brasileira se entregou aos amores atordoantes.

(Destoante desse movimento estava o axé, que crescia e tomara espaço para si, com músicas que também fugiam dessa tônica)

Zezé Di Camargo em foto com o pai, Francisco José de Camargo - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Zezé Di Camargo em foto com o pai, Francisco José de Camargo
Imagem: Reprodução/Instagram

Junto de "Evidências", "É o Amor" marcou a era do sertanejo romântico, que, aos poucos passou por outra adaptação e renovação, chegando ao sertanejo universitário da década passada e do sertanejo que a gente conhece hoje, com os subgêneros como a sofrência, a aproximação com o arrocha, entre outros.

Se o sertanejo é o gênero mais popular e ouvido nas plataformas de streaming, com algumas concorrências com funk e subgêneros do forró, isso se deve à aproximação com o público das cidades e com a chegada da temática romântica. "É o Amor" está diretamente ligado à ascensão e popularização do gênero duas décadas atrás.

Pela persistência em ter dois filhos como uma dupla sertaneja, Seu Francisco já tem um nome marcado na música brasileira.

E não importa se a cena das ligações para que as rádios tocassem "É o Amor" seja mais bonita no cinema do que eficiente na vida real. Ali, debaixo de um orelhão e com um punhado de fichas telefônicas nas mãos, Francisco também ajudou a mudar o rumo da história.