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Pedro Antunes

Afinal, por que o rock acabou? E como o Moptop tinha razão o tempo todo

Capa do disco "Moptop", da banda Moptop - Divulgação / Universal Music
Capa do disco 'Moptop', da banda Moptop Imagem: Divulgação / Universal Music
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

22/11/2020 09h14

Sem tempo?

  • O rock acabou?
  • O vocalista da banda Moptop cantava o fim do rock em meados dos anos 2000
  • E ele tinha razão, em partes
  • Gênero ganhou destaque, mas foi gasto por uma indústria fonográfica sedenta demais
  • Mas sobrevive em nichos, em ótimas bandas independentes
  • E o Moptop? Bom, esses acabaram mesmo

Bom, "tinha razão" é em partes, pelo menos.

E "acabou" é no sentido de não estar com a evidência que tinha nos anos 2000, em programações de rádio e nas TVs. Aqui, você vai entender como tudo isso aconteceu.

O colega Braulio Lorentz, do G1, conseguiu a mais difícil missão do jornalismo musical indie: encontrar e entrevistar o sumido Gabriel Marques, o vocalista do Moptop, banda eleita por mim mesmo como o melhor grupo de rock brasileiro dos anos 2000. Um exagero? Talvez, mas não importa.

Carioca, o Moptop tinha um som diretamente derivado do The Strokes, com uma diferença: as letras eram em português e os vocais eram mais arrastados, pegados na garganta, como se fosse uma mistura louca entre Julian Casablancas e Bruno, da dupla Bruno & Marrone.

Saca só o som. Você certamente cruzou com esse clipe na programação da MTV lá pela primeira metade dos anos 2000:

Guardem o título dessa música e a verso "o rock acabou", ok?

O Moptop surgiu poucos anos depois dos Strokes criarem aquela pequena e ruidosa revolução roqueira no final dos anos 1990, início de 2000. Para a música mainstream, que frequenta as rádios e tinha circulação na MTV brasileira e dos Estados Unidos, foi o renascimento do rock.

As guitarras e jaquetas de couro ficaram populares de novo. Era cool usar calça skinny, ter o cabelo propositalmente bagunçado e seboso, vestir uma regata rasgada e uma jaqueta mesmo no calor tropical.

Claro, a indústria brasileira não queria deixar isso passar. Por aqui, as rádios começavam a prestar atenção no movimento que era gigante já no underground: o crescimento do hardcore (alguns muitos com várias doses de lágrimas).

No Brasil, a jogada foi investir pesado na galera do emo. O CPM 22, que já estratosférico fora do circuito mainstream, tinha mais de cinco anos de estrada quando "Regina Let's Go!" passou a tocar na MTV a todo instante, lá por 2001 e 2002.

A Pitty chegou e quebrou tudo com o álbum dela de 2003, "Admirável Chip Novo", e hinos daquela molecada, como a música título, a poderosa "Teto de Vidro" e "Equalize", que coloquei abaixo.

De volta ao Moptop

É preciso entender o contexto do qual o Moptop surgiu. A banda iniciada em 2003, portanto, nasceu inserida nesse momento no qual a indústria estava sedenta por mais grupos que seguissem essa estética.

É claro, era assim que gravadoras funcionam (ou funcionam até hoje), muito ligados aos aspectos da cultura de massas e na reprodução da arte em escala fordista, em série, até que a fórmula se desgaste. Daí, pulam para outra.

Moptop no clipe de 'O Rock Acabou' - Reprodução / YouTube - Reprodução / YouTube
Moptop no clipe de 'O Rock Acabou'
Imagem: Reprodução / YouTube

O Moptop talvez seja o exemplo desse movimento também. A banda não estava diretamente ligada a nenhum movimento de rock que acontecia no Brasil no mainstream. Não era good vibes e desbocada como as outras bandas do Rio de Janeiro (caso de Forfun), não tinham a aceleração desenfreada do hardcore paulistano capitaneado pelo CPM 22, não tinham a poesia emotiva da Fresno e da galera do Rio Grande do Sul, nem era bonitos, jovens e cheios de gás como a turma do NX Zero.

Mas lá estavam eles. E mais: o Moptop, os outsiders dessa "nova onda de rock", se tornou os queridinhos das produtoras de shows internacionais.

De repente, eles foram chamados para abrir shows de bandas como Faith No More, Franz Ferdinand e até Oasis.

DVD 5 Bandas de Rock

Quando digo "outsiders" é porque o Moptop realmente não tinha uma cena para chamar de sua nessa geração que furou a bolha e chegou às rádios. Ansiosa para capitalizar em cima dessa geração, a MTV decidiu lançar o DVD ao vivo 5 Bandas de Rock.

Juntou um line-up estrambólico para uma espécie de festival de uma noite que seria gravado e lançado como álbum único. Reuniu NX Zero (a grande atração da noite, que bombavam com o hit "Além de Mim"), os good vibes Forfun (que acabou em 2015 por ter um "viés de esquerda" numa história absolutamente surreal de proximidade com a família Bolsonaro), a excelente Fresno, os veteranos do Hateen (cujo clipe de "1997" bombava na MTV na época) e, claro, o Moptop.

O disco ao vivo chegou às plataformas de streaming recentemente, inclusive, embora tenha saído em 2007.

O Moptop foi colocado como a última banda na tracklist das músicas do álbum, mas a verdade é que eles foram, se não me engano, os primeiros a tocar naquela noite.

Sim, eu trabalhei nesse show. Na época, era estagiário de gravadora e ficava do lado de fora do Via Funchal, extinta casa de shows na zona sul de São Paulo, com uma lista de nomes na mão, preparadíssimo para dar credenciais para os jornalistas que iriam cobrir a gravação do DVD.

E a verdade é que o Moptop não chegou perto de promover o tumulto ensurdecedor causado por NX Zero e Forfun, principalmente.

Óbvio, eram públicos completamente diferentes.

Dois discos e olhe lá

Claro, o Moptop tinha uma grande gravadora por trás desde o primeiro álbum e isso fazia toda a diferença do mundo naquela primeira década dos anos 2000, quando a indústria fonográfica ainda travava uma guerra contra a pirataria digital.

Os dois álbuns lançados pelo Moptop, "Moptop" (2006) e "Como Se Comportar" (2008), vieram já sob contrato com a Universal Music. E havia uma promessa de um terceiro disco vindo aí.

Mas a banda sumiu.

"Sim, o rock acabou"

Certo dia, quando trabalhava na Rolling Stone Brasil, lá por 2013, conversava com meu editor na época, o grande Paulo Terron, e comentei com ele sobre o Moptop e o desaparecimento da banda.

Eu passava por uma fase nostálgica e mostrava Moptop para todos os jovens que conhecia (risos).

Não sei direito como, mas a história chegou ao Lúcio Ribeiro, outro jornalista de música dos bons, que na época publicava no UOL a coluna Popload (hoje um empreendimento gigantesco que conta com shows, festival, podcast, rádio, etc).

Ele "encontrou" Gabriel Marques, vocalista da banda. Na verdade, um site dele, na qual ele listava as experiências em tecnologia da informação e dizia:

"Antes de me tornar adulto, ou melhor, programador, fui vocalista e guitarrista da banda Moptop. Me diverti um bocado, mas sim o rock acabou."

Essa última frase do Gabriel Marques era uma referência à música que coloquei no começo do texto. Perceberam, certo?

Havia algo de irônico, sarcástico no verso dessa música: "O rock acabou, melhor ligar sua TV". Mas acabou profético.

Como Braulio descobriu na entrevista com Gabriel Marques ao G1, o vocalista sentiu uma dificuldade enorme de compor canções para gravar o segundo álbum da banda, imagine fazer o terceiro. O grupo entrou em um hiato por volta de 2010 e 2011, e assim ficou.

Hoje, o vocalista trabalha na plataforma de música por streaming Amazon Music.

Acabou, mesmo?

O que nos faz voltar ao dramático "o rock acabou" e ao título deste texto.

Gabriel Marques tinha razão. O rock chegou ao fim. Não em um sentido existencial completo e de finitude, mas dentro do mainstream, das rádios, da MTV e etc. Qual foi a última banda de rock que você ouviu em uma rádio popular e jovem?

A geração do início dos anos 2000 foi usada, gasta e cuspida por uma indústria ingrata. Foi um tal de "copia e cola" de bandas de rock que a cada esquina aparecia um novo grupo, cada vez mais pop, cada vez mais comercial.

E 'era dos coloridos' e a morte roqueira

Uma geração que despontou com Pitty, CPM 22, Hateen e Fresno deu lugar à insanidade dos fãs jovens da turma do NX Zero e companhia. Os integrantes do NX ainda tinham uma história no underground com shows poderosos (e ruidosos) na antiga casa de shows Hangar 110, no Bom Retiro, em São Paulo, mas a indústria sempre precisa de mais, mais e mais.

O emo deixou o lugar de destaque, então ocupado pelo rock colorido, de bandas como Restart, Cine e outras genéricas criadas a partir dessa nova fórmula de músicas felizes, meio boy band, com guitarras quase desaparecidas.

Depois disso, o espaço que havia para o rock foi ocupado por artistas de outros gêneros musicais. O que não é necessariamente ruim - o rap, por exemplo, cresce a cada dia mesmo alheio ao mainstream e é cada vez mais importante e relevante.

Se o rock não está mais sob os holofotes é porque a indústria gastou a fórmula até onde pode. E depois largou para lá como um brinquedo velho. Ao parar de vender (com as cifras altas o suficiente para bancá-lo), o gênero foi tirado de cena. É simples, na verdade.

É o mesmo feito por europeus quando chegaram na América, saca? Extraíram o que puderam daqui, levar embora ouro, prata, madeira, etc, e pronto e se foram.

Moptop tinha razão, sim

O tempo todo, Gabriel Marques e companhia tinham razão. Acontece que o rock, enquanto um gênero musical com possibilidade de gerar lucro, acabou. Pelo menos até o novo ciclo.

Aliás, ao ser absorvido pela cultura de massas e da reprodução interminável, quando o Moptop cantou esse verso profético lá em 2006, o rock já tinha acabado. O gênero já era sendo sugado pela vampiresca indústria cultural. A gente que não entendia ou tinha a exata dimensão do estrago.

Depois disso, esse rock - aquele velho e combalido sujeito reerguido com The Strokes e companhia -, voltou para onde estava, o que era conhecido como underground, hoje chamado de indie, independente ou cena alternativa.

E lá ficou. Isso não quer dizer que não tenha bandas ótimas ali, trampando pesado para serem ouvidas.

Algumas delas, inclusive, conseguiram furar a bolha, caso dos excelentes Boogarins, que devem ter feito mais shows no exterior do que no Brasil ao longo desses sete anos de existência, e O Terno, trio que tocou até no "Encontro com Fátima Bernardes", da TV Globo.

Ou seja, o rock acabou. Mas segue vivo

E o Moptop? Bom, esses acabaram, mesmo. E é uma pena.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.