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Pedro Antunes

Como nasceu a lenda de Amy Winehouse: 'Frank', o disco que sorria

Capa de "Frank", primeiro álbum de Amy Winehouse - Divulgação
Capa de 'Frank', primeiro álbum de Amy Winehouse Imagem: Divulgação
Pedro Antunes

Pedro Antunes, ou "Pô Antunes" pra quem só me conhece pelo Instagram, é jornalista, apresentador, curador e crítico de música e cultura pop desde 2010. Escreveu no Jornal da Tarde, Estadão e foi editor-chefe da Rolling Stone Brasil. Fez mais entrevistas do se lembra, tem um "novo disco favorito" por semana e faz mini-análises de álbuns no programa Tem um Gato na Minha Vitrola, no perfil @poantunes.

Colunista do UOL

20/10/2020 15h48

Sem tempo?

  • Primeiro disco de Amy Winehouse completa 17 anos
  • Lançado em 2003, 'Frank' é um retrato solar da artista
  • O álbum só saiu nos EUA depois do sucesso de 'Back To Black'
  • Mais solar, 'Frank' mostrava a força bruta de Amy

Tímida, Amy Jade Winehouse detestava posar para fotografias. Irritada com as opções de fotos de divulgação do primeiro álbum dela, decidiu chamar um fotógrafo amador Charles Moriarty, amigo de amigos, para os cliques.

A histórica capa de "Frank", o álbum que completa 17 anos neste dia 20 de outubro, apresenta uma Amy Winehouse vivaz, corada, com dois cachorrinhos da raça Scottish terrier que "pediram emprestado" ao dono em uma noite de junho, em pleno verão na tradicional Princelet Street, no leste de Londres.

Amy que está na fotografia escolhida para estampar o álbum nem sequer tinha completado duas décadas de vida (comemorou aniversário no mês seguinte à sessão de fotos, em setembro).

Ela morreria tragicamente sete anos depois, aos 27, com dois álbuns de estúdio lançados em vida, um sucesso tremendo e perseguida por paparazzi aonde quer que fosse.

O que "Frank" representa de Amy Winehouse?

Com dois álbuns, "Frank" (2003) e "Back To Black" (2006), Amy mostrou uma espécie de yin-yang no estúdio - sim, estou propositalmente ignorando o póstumo "Lioness: Hidden Treasures" (2011) por conta das circunstâncias de lançamento e por ele não ser, exatamente, um disco e, sim, uma reunião de sobras de estúdio e gravações preliminares para aquele que seria o terceiro trabalho de Amy.

O que "Back To Black" tinha de sombrio, "Frank" tinha de claridão. Não que sejam discos de uma cor só, assim como o yin-yang, havia sombras em "Frank" e luz em "Back To Black".

Um disco desperdiçado?

Não foi um sucesso estrondoso como "Back To Black", o que é uma pena e um desperdício, de fato.

O primeiro disco de Amy levou meses para chegar ao 13º lugar nas paradas do Reino Unido, ou seja, em janeiro do ano seguinte, e logo deixou a parada de novo. Só voltou quando a artista morreu, em 2011, quando atingiu a 5ª posição.

Nos EUA, a situação foi ainda mais crítica. O neo-soul de Amy Winehouse, com aquela fusão poderosa de jazz e linguagem do hip-hop, não era bem-visto na época e sequer foi lançado em 2003 por lá. O disco só chegou por lá de forma oficial quando "Back To Black" já era um sucesso, com a ideia de surfar no sucesso de "Rehab" e outros hits do segundo álbum.

Talento nato

Criada em uma família bastante musical, em Southgate, em Londres, Amy era filha de um motorista de táxi, Mitch, e de uma farmacêutica, Janes. Os tios eram músicos profissionais e, diz a lenda, que a avó de Amy teria tido um caso com Ronnie Scott, uma das lendas do jazz inglês.

Ela tinha uns 13, 14 anos quando ganhou o primeiro violão e passou a escrever. Matriculada na prestigiada escola Sylvia Young Theatre School, ela acabou expulsa aos 16 por aparecer no colégio com um piercing no nariz. Foi dito que ela não se "enquadrava" com o que a instituição propunha.

A real é que Amy ligava zero para instituições. Musicalmente, ela fazia o mesmo. Bebia de fontes diversas. Quando adolescente, curtiu Salt-N-Pepa, por exemplo, e até criou um grupo de rap que teve vida curta.

Já adulta - se é que alguém com 20 anos pode ser chamado de "adulto" por completo, principalmente no quesito amadurecimento artístico -, ela tinha a voz comparada às divas como Sarah Vaughan e Macy Gray e chamada de sucessora das linhagens de Nina Simone e Erykah Badu, se é que isso fosse possível.

Bom, com Amy, tudo era possível.

'Frank' é a beleza da imperfeição

Com canções criadas por Amy anos antes, ou seja, durante a adolescência, duas colaborações e dois covers (o standard de jazz "(There Is) No Greater Love" e "Moody's Mood for Love", que no disco é tocada junto de "Teo Licks"), "Frank" é o poder puro e agridoce de Amy Winehouse.

Ali, ela já tinha estabelecido uma parceria de confiança com o produtor e músico Salaam Remi, com quem ela trabalharia para o resto da vida. Ele trouxe um sabor de lo-fi hip-hop para essas canções, cheias de ruídos, arranhados como se tivéssemos dado o play em um vinil antigo.

Aqui em "Frank", você ouvirá a força bruta de Amy antes de ser sugada por uma indústria desgastante de paparazzi, produtores e gente interessado na grana que ela poderia gerar. Antes também de se tornar um ícone fashion e influenciar outros artistas do pop, de Adele a Lady Gaga, passando por Lana Del Rey.

Ela era ainda uma guria de 20 anos cantando canções de amor com uma voz incomum, um espírito jovem para uma voz que parecia ter sido curtida em um barril de carvalho por décadas.

"I Heard Love is Blind", por exemplo, uma atrevida Amy quebrava os padrões de gênero ao, colocar a mulher como a infiel de uma relação. Essa, segundo ela, foi a única canção que não era extremamente pessoal do álbum. "Um objeto de estudo", ela conta.

A música é linda e apresenta uma das melhores performances vocais do álbum.

"Stronger Than Me", música que abre o álbum, é também um carro-chefe impressionante do que Amy poderia criar e produzir - apesar de, hoje, a música enfrentar questionamentos por objetificar papeis de gênero e falar o "você que deveria ser o homem", entre outras coisas.

Amores vem e vão em "Frank". Se "Know You Now" fala de um amor fugaz, em "In My Bed", embalada por uma trilha poderosa de trip-hop, Amy canta sobre uma transa com um ex - e como tudo aquilo é somente uma "questão de cama", não de amor.

Amy ainda não cantava o amor destrutivo e tóxico de "Back To Black".

O que Amy achava do álbum?

Meses depois do lançamento de "Frank", Amy não poupou o próprio trabalho. Na época, a intervenção da gravadora irritou a cantora.

"Algumas coisas deste álbum me fazem ir para um lugar amargo pra caralh*. Nunca ouvi o álbum do início ao fim. Não tenho uma cópia em casa. O marketing foi uma merd*, a promoção foi terrível. Foi tudo uma bagunça",
Amy Winehouse, ao 'The Observer', em fevereiro de 2004.

Uma Amy que ainda sorria

Apesar de instável e ainda distante da forma que Amy Winehouse iria mostrar em "Back To Black", "Frank" é o retrato mais saudável de uma Amy que ainda sorria, apesar de já sofrer com as dores de amor, mas antes de entrar num círculo vicioso e corrosivo.

Era despretensioso, assim como na capa do álbum, com cachorrinhos emprestados de um estranho que passava na rua. Leve, como uma noite quente de verão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.