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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ariana Harwicz, a mente desenfreada de um pedófilo e a moral dos leitores

Ariana Harwicz, autora de Degenerado - Divulgação
Ariana Harwicz, autora de Degenerado Imagem: Divulgação
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Rodrigo Casarin

Colunista do UOL

25/05/2022 04h00

"Desejo é desejo, como vai ser legislado, é uma aposta no absurdo da vossa legalidade, da vossa coceira, ali onde me pegaram e me apontaram uma arma havia um casal de fazendeiros, católicos, moralistas, educados e dos mais simpáticos, distribuíam sua colheita entre os mais necessitados, mantinham um comércio de queijos, mel caseiro com gengibre e se via que tinham com os filhos uma relação de respeito, rigor e religiosidade. Mas o senhor marido gostava de enfiar os dedos no sexo das suas porcas, revolvê-las ali, estimulá-las, chupá-las e ter idílios anais com sua mulher na lama ao mesmo tempo que com a porca, depois o fazendeiro enfraquecido de chapéu e botas sacode o membro até ejacular no rabo da porca rosada. Sua mulher com os peitos à mostra por trás do peitilho de uma jardineira limpa a porca com um pano de prato que eles deixam ali para a próxima vez. E que importância tem isso, por que chamar isso de zoofilia, fetiche, depravação, desvio? Talvez seus filhos possam participar mais tarde dessas cenas e acabem todos juntos estimulados e de quatro antes de serem chamados para jantar".

Martelo na ideia do quanto é perturbadora a literatura da argentina Ariana Harwicz. "Morra, Amor", publicado em 2019, nos apresentou a autora de escrita afiada, que sabe dar acabamento estético à turbulência psicológica de personagens singulares. Esse traço, o ótimo lido com o caos mental de suas criaturas, atinge um nível quase caótico em "A Débil Mental", segundo romance da chamada Trilogia da Paixão, composta ainda por "Precoce". Quem procura por algo pacífico, acolhedor, que conforta e abraça, talvez saia correndo ao ter contato com a ótima literatura de Ariana.

Em "Degenerado", trabalho mais recente da autora e recém-lançado no Brasil (Instante, tradução de Silvia Massimini Felix), somos expostos à mente de um sujeito torpe. Com uma linguagem que exige atenção para captar vozes entrecruzadas, Ariana apresenta aos leitores um idoso acusado de ter cometido um crime sexual contra uma criança que mal havia começado a andar. É pela visão desse homem, habitante de um pequeno povoado francês e autodefinido como "filosoficamente de direita, politicamente anarquista", que vasculhamos um terreno nada confiável.

Degenerado, romance de Ariana Harwicz - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

"É preciso escrever contra a História, é preciso falar contra a História, contra os juízes que estabelecem a História, é preciso escrever tudo ao contrário", acredita o protagonista. Rompantes racistas, demonstrações da xenofobia encrustada na sociedade europeia e questionamentos sobre quem são as vítimas que comumente ganham a compaixão pública aparecem em seu discurso. Um discurso formado por reflexões, lembranças da infância conturbada ao lado dos pais, contestações e aparentes delírios.

Há algo de "Serotonina", de Michel Houellebecq, ou de "O Lugar", de Annie Ernaux, na apresentação das diferentes maneiras como o cidadão médio do interior e da metrópole enxergam o mundo. Nessa cabeça desordenada, encontramos provocações a respeito das diferentes formas de repressão, da hipocrisia por trás de certos discursos edificantes que não resistem a uma observação atenta da vida privada e do processo de bestialização ao qual os "cidadãos de bem" se submetem para lidar com alegados monstros.

Ao escarafunchar desejos e sondar o que há de mais íntimo no "europeu educado e seleto no qual brota de repente toda a violência ariana", "Degenerado" toca em pontos que nos fazem refletir sobre os limites e as contradições dos pactos sociais. Num monólogo que ocasionalmente descamba para o esculacho, com o protagonista alternando ponderações razoáveis com ideias avacalhadas, é a moral de cada leitor que acaba confrontada pelo réu desenfreado e cheio de rancor.

"A moral não é meu tema, a moral é um fenômeno de vocês, cuidem para que isso lhes pertença porque vocês a pregam", lemos em certo momento de um texto que às vezes pega pesado na hora de chocar o leitor. "Tudo dura até os catorze anos, essa é a tragédia dos pedófilos, a fatalidade deles, o amor mais radical que se possa imaginar, essa atração inconcebível acaba aí, como uma parada cardíaca, acaba tudo, o filme termina, 360 graus de preto. Aos doze é quando eles estão mais apetitosos, mas depois isso acaba".

Não é com serenidade que acompanhamos um personagem que dispara algo desse tipo. Principalmente pelo modo como nos atormenta é que a literatura de Ariana fascina.

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