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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que alguém viaja milhares de quilômetros por uma partida de futebol?

Caravana da Mancha Verde - Gabriel Uchida
Caravana da Mancha Verde Imagem: Gabriel Uchida
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

24/11/2021 04h00

"Ao torcedor visitante cabe a missão de calar um estádio. É ele que, de peito aberto, encara a multidão que o odeia... É ele que segue um clube não por acreditar que a vitória virá sempre, mas por saber que precisa acompanhá-lo, mesmo quando a derrota parece ser o desfecho mais provável. É ele que viaja para tão longe não pelos onze homens que vão a campo, mas pelas onze camisas que ao campo poderiam ir sozinhas".

A verdadeira razão do futebol ser o que é não está no gramado, mas em seu entorno, sobretudo na arquibancada. Os momentos mais marcantes da literatura boleira de nomes como Marcelo Moutinho, Arthur Dapieve e Sergio Sant'Anna se passam além dos campos, na busca por tocar algo da essência do futebol. Poucos conseguiram chegar tão perto do espírito do esporte quanto o uruguaio Eduardo Galeano. Quando pensamos no que é ser um torcedor, o inglês Nick Hornby e o estadunidense Bill Buford são referências.

Rodrigo Barneschi assume a influência desses três últimos nomes. Com o seu recém-lançado "Forasteiros - Crônicas, Vivências e Reflexões de um Torcedor Visitante" (Grande Área), situa-se num meio-termo entre Hornby e Buford. Seu trabalho não pretende ser um livro-reportagem imersivo como o incontornável "Entre os Vândalos", mas é muito revelador da condição de um torcedor assíduo neste nosso canto do mundo.

Palmeirense que há décadas viaja pela América do Sul para acompanhar todas as partidas possíveis da equipe, vez ou outra Rodrigo também encara pelejas aleatórias em estádios históricos ou de times reconhecidos pela força de suas torcidas. É essa vivência que leva para "Forasteiros", uma mistura de relatos de viagem, memórias e crônicas com reflexões sobre a vida de torcedor.

Similar a Hornby no tom pessoal, o texto fragmentado do escritor brasileiro traz histórias muito mais viscerais do que as contadas pelo inglês no simpático "Febre de Bola". Se muitas vezes as experiências do britânico parecem um tanto assépticas (ao menos na lembrança que tenho do livro), as de Rodrigo tomam um caminho oposto, com momentos que se aproximam da realidade constatada por Buford.

Um dos principais méritos de Rodrigo é conseguir se afastar do clubismo e entregar ao leitor passagens que, sim, partem da passional relação com a camisa de um time, mas extrapolam esse traço para tocar em pontos caros a qualquer torcedor apaixonado que dedica parte importante dos dias, da vida, a acompanhar o seu time. É uma relação difícil de se explicar em poucas palavras, mas possível de ser compreendida por meio dos relatos.

Forasteiros - Divulgação  - Divulgação
Imagem: Divulgação

Ao longo de suas páginas o escritor nos apresenta cenas que servem de símbolo do que encontramos e sentimos nas arquibancadas e nos seus arredores. O sujeito que conseguiu driblar a revista da polícia e, antes de uma decisão por pênaltis, saca de seus pertences uma grande e inesperada imagem de Nossa Senhora Aparecida. As crianças bolivianas que pedem autógrafos para torcedores uniformizados achando que são os próprios jogadores. As onipresentes brigas com adversários e com a polícia (onipresentes mesmo, como o autor nos lembra com resgates históricos e notícias de outros cantos do mundo). O ímpeto singular de ir para uma partida na casa do rival e, como minoria, tentar fazer com que sua festa e seu canto prevaleçam,

A partir da experiência íntima, Rodrigo toca na tal universalidade do que é ser torcedor. Mas não um torcedor qualquer. Um torcedor que cresceu no concreto de estádios pouco vistosos, alguns destroçados ou arruinados. Um torcedor que entende que as arquibancadas têm os seus próprios códigos e que, plurais, são primorosas para a formação do caráter. Um torcedor obcecado, que encontra no time e nos seus pares de torcida elos fundamentais de identidade e pertencimento. Um torcedor que também entende a importância da torcida contrária no estádio, o peso que tem ver e ouvir o outro lado explodir em comemoração quando o adversário marca um gol.

Sobre a atual ausência da torcida visitante em jogos entre grandes equipes de São Paulo, regra estúpida que se repete em outros estados do país, Rodrigo nos lembra que essa é uma decisão que transforma as arquibancadas num "ambiente monocromático que nega a existência do diferente". A respeito do futebol brasileiro pós-arenização dos estádios, fica escancarada diferença entre a maneira de encarar o ato de torcer de apaixonados como o autor e daqueles que ele mesmo define como "geração mil grau". São pessoas mais preocupadas em tirar fotos e fazer filmagens com o celular do que interessadas em arrumar um jeito de ajudar o time a vencer cada partida.

O contraste entre formas de encarar o futebol e o papel do torcedor nas arquibancadas é gigantesco. E esse choque de mundos terá um capítulo importante no próximo sábado. Numa final de Libertadores em partida única, em campo neutro, o que contraria a natureza da cada vez menos mítica competição, Palmeiras e Flamengo disputarão o título no Centenário, talvez o maior símbolo da tradição boleira. No livro, Rodrigo enfatiza o peso da alma do estádio uruguaio, que pode ser notada mesmo quando o gigante está vazio, constatação que endosso.

Há a certeza de que dezenas de milhares de torcedores partirão de São Paulo e do Rio de Janeiro em direção à capital uruguaia. Serão duas torcidas forasteiras, grandes rivais, que dividirão um estádio a ser reverenciado, num país estrangeiro, com a esperança de comemorar nas arquibancadas de cimento o maior título do continente.

Muitos ficarão se perguntando o que leva alguém a fazer tamanho investimento de dinheiro, de tempo, de paciência para lidar com burocracias e truculências para estar num jogo de futebol. Apesar de trechos dispensáveis, que pouco contribuem para o todo, de alguns tropeços em construções batidas (a caravana que "rasga" a estrada) e de opções duras que destoam do tom das crônicas (o "'advento' da torcida única"), "Forasteiros" é uma valiosa porta de entrada para compreender parte fundamental do que faz o futebol ser tudo o que é.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL