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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A dispensável Round 6 e as obras que seguem crescendo dentro de nós

Cena de Round 6 - Reprodução
Cena de Round 6 Imagem: Reprodução
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

18/10/2021 04h00

Quando terminei a leitura de "Butcher's Crossing", de John Williams, pensei que havia lido um bom livro. Talvez abaixo de "Stoner", é verdade, mas, ainda assim, um romance de qualidade.

Com o passar de semanas, meses, anos, a minha avaliação mudou. A saga do jovem aventureiro que se mete num grupo de caçadores de búfalos e protagoniza enormes matanças pelo interior dos Estados Unidos cresceu e ainda cresce no meu imaginário. A selvageria, o embate do homem com a natureza e os conflitos entre os próprios humanos impregnaram na minha memória. Já pro final do livro, a cena da travessia de um rio aos poucos se consolidou como uma das mais marcantes da minha vida de leitor.

Escrevi outro dia: grandes leituras não costumam se encerrar quando fechamos o livro. Elas seguem nos acompanhando, revelando nuances, desdobrando-se em novas possibilidades de interpretação. A fome em "Quarto de Despejo", de Carolina Maria de Jesus, ecoa para muito além das páginas escritas pela autora. Podemos ler um livro em, sei lá, dez horas, ver um filme em duas, e depois passar a vida para assimilá-los e elaborá-los. É uma característica da arte.

Digo isso porque fiquei impressionado com "Round 6", série coreana criada por Hwang Dong-hyuk. No centro da história que anda fazendo sucesso em boa parte do mundo, centenas de pessoas cheias de dívidas e ambições. Elas se submetem a um jogo cruel e mortal para tentar embolsar o prêmio bilionário. Nada de novo na forma de criticar o capitalismo e a concentração das riquezas ou de escancarar o que muita gente pode fazer para conseguir grana e, quem sabe, resolver problemas, atender desejos.

"Round 6" lida com a questão de forma brutal. Há cenas feitas sob medida para quem regozija ao receber no WhatsApp vídeos de gente estraçalhada. Sangue para todos os lados, miolos e vísceras humanas são comuns nos episódios desnecessariamente longos.

As sacanagens entre os participantes do jogo também são tão frequentes quanto as explicações em excesso, sublinhadas demais, que subestimam a inteligência do espectador. Na cabeça do diretor, talvez o público-alvo da série seja aquele tipo que dispensa sutilezas e urra com reviravoltas e soluções canastronas.

Personagens razoáveis, uma boa companhia e a morosidade do feriado fizeram com que eu fosse adiante na série. Fazia tempo que não assistia a nenhuma. Até pelo trabalho, é uma boa estar mais ou menos por dentro do que anda fazendo barulho. Não reclamo de ter dedicado mais de oito horas aos nove episódios do dramalhão sanguinolento.

O que mais chamou a minha atenção, na verdade, veio depois. Diferente das grandes obras que seguem crescendo em importância e nos acompanhando ao longo da vida, logo notei que "Round 6" se encerrava mais ou menos junto com a sua última cena.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL