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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Nobel para Gurnah: um autor para conhecer (e segue a chacota com Murakami)

Abdulrazak Gurnah - Divulgação
Abdulrazak Gurnah Imagem: Divulgação
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

07/10/2021 09h40

Um bom símbolo da escolha da Academia Sueca para o Nobel de Literatura de 2021 é o tuíte que uma importante escritora brasileira postou logo após o anúncio. Na mensagem, escreveu que na bolha literária dela ninguém conhecia Abdulrazak Gurnah. A escritora não está sozinha.

Estivessem os leitores brasileiros num botecão para acompanhar a divulgação do prêmio, um olharia para a cara do outro e diria: e quem é esse? Alguém aí já leu? Saiu alguma coisa dele aqui no Brasil? A perplexidade provocaria um momento de silêncio. Ainda surpresos, todos se voltariam para os seus copos de cerveja. Daí lembrariam: às vezes o Nobel está aí para nos apresentar alguém que, provavelmente, jamais leríamos se não fosse pelo galardão. E isso é bom.

Abdulrazak Gurnah nasceu em 1948, em Zanzibar, na Tanzânia. No final da década de 1960, como refugiado, deixou a África e foi para a Inglaterra, onde construiu sua trajetória literária e acadêmica. Superficialmente, sem entrar em minúcias biográficas e artísticas, é um caminho que me lembra o traçado por Buchi Emecheta, nigeriana que também foi para a ilha europeia e construiu uma carreira sólida ao escrever sobre temas como o choque entre culturas e o colonialismo britânico.

São características presentes na obra de Gurnah. Autor de livros como "Memory of Depature", que marcou sua estreia em 1987, "Paradise", "By the Sea", "Desertion" e "Afterlives", o mais recente, de 2020, o tanzaniano foi o escolhido da vez pela Academia Sueca pela profundidade ao tratar de assuntos como os "efeitos do colonialismo e o destino de refugiados num precipício entre culturas e continentes".

No boteco, seria legítimo alguém constatar um ponto a ser repensado pelos editores brasileiros. Se um cara de Zanzibar com carreira na Inglaterra, para onde nossos olhos costumam estar voltados, é digno de um Nobel, mas nunca saiu por aqui, imagina quão distantes estamos de eventuais escritores fantásticos que fazem sua literatura na Tanzânia mesmo ou em qualquer outro país minimamente fora do eixo? Rende um engradado de cerveja pensar nas prováveis maravilhas desconhecidas do mundo.

A mesa dos leitores que ainda conhecerão Gurnah é grande. Reflexões e discussões sempre são bem-vindas, enquanto a molecagem azeita o papo. Logo alguém soltaria: e o Murakami, hein!? Vice de novo! Um dia alguém inventou que o autor de "1Q84" era forte candidato ao Nobel, um monte de gente acreditou e há anos o japonês aparece como favoritaço nas casas de apostas. São tantas as expectativas frustradas, tantos os títulos não conquistados, que tem até quem chame Murakami de Vasco da Gama da literatura.

Não sei de onde veio a fama de provável nobelizado do japonês. No entanto, como o Nobel de 2021 foi para Gurnah, uma coisa é certa: em 2022, Haruki Murakami seguirá sendo alvo das brincadeiras nesses bares cheios de leitores.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL