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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Saramago em golpe milionário: está difícil para a ficção

José Saramago - Juan Ramón Ibarra/FJS
José Saramago Imagem: Juan Ramón Ibarra/FJS
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

14/07/2021 09h53

Em conversas com escritores e leitores, vira e mexe um assunto aparece: como a realidade brasileira afronta a lógica da boa ficção. São tantas reviravoltas, situação absurdas, atos estúpidos que flertam com o humor involuntário, personagens toscos, coadjuvantes canastrões, vilões caricatos, atuações enfadonhas e ações inacreditáveis que, fosse um romance, nossa história recente jamais passaria pelo crivo de um editor sério.

Tenho meu próprio causo de como esse caos político influenciou diretamente no consumo de arte. Já fui um fã de "House Of Cards". Em tempos mais ou menos normais, adorava acompanhar as intrigas ambientadas na Casa Branca e arredores (de verdade, tenho vontade de provar aquela costelinha do Freddy).

Minha relação com a série esfriou quando o vislumbre de realidade a que temos acesso mostrava, nas entrelinhas, que em Brasília havia tramoias muito mais sofisticadas do que aquelas ficcionalizadas no drama norte-americano. Ao saber da carta de Temer para Dilma (a do vice decorativo, do verba volant scripta manent) tive a certeza de que vivemos tempos, digamos, singulares.

Diferente de qualquer ficção que se preze, a história que estamos vendo ser escrita (e ajudando a escrever, importante lembrar) despreza a verossimilhança. Larguei as sacanagens políticas cheias de sentido do casal Underwood pela metade e passei a acompanhar ainda mais de perto a nossa saga destrambelhada.

Agora um gigante da ficção foi parar na engrenagem de um golpe monumental. No Paraná, uma quadrilha formada por milhares de pessoas investia pesado na criação de um cenário para oferecer falsos empréstimos. Envolveram até o nome do escritor José Saramago no rolo milionário. Num documento falso, utilizaram a assinatura do autor de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" e "Ensaio Sobre a Cegueira" de ponta-cabeça para dar fé à palavra de um tal José "Samargo". Uma reportagem do Fantástico revelou o esquema.

Inacreditável, penso pela décima vez nos últimos cinco dias. Também tenho lembrado muito de Cartola: é rir pra não chorar.

Desde que a pandemia chegou por aqui e os mortos começaram a se avolumar de uma maneira criminosa e imperdoável, vez ou outra leitores me procuram para dizer que não estão dando conta de se dedicar à literatura. Entendo, amigos, entendo. O Brasil virou um trambolho gigantesco que ocupa boa parte da nossa mente. É difícil arrumar concentração para decifrar outros mundos enquanto a tensão aumenta e tudo desaba ao nosso redor - ou sobre nós.

Mas, óbvio, a arte é necessária. A ficção é necessária. Ainda mais num momento como esse. Escrevi sobre isso após ler "Damas da Lua", da omanesa Jokha Alharthi. Precisamos imaginar um outro país e dividir esse vislumbre (sonho? utopia? projeto?) com outros para que consigamos reconstruir um lugar menos deprimente para se viver.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL