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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Quando a sombra da bandeira deixa um país inteiro na escuridão

Desenho de Maria Lídia Magliani - Reprodução
Desenho de Maria Lídia Magliani Imagem: Reprodução
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

07/07/2021 10h52

Há alguns anos que autoras do Chile aparecem entre lançamentos do nosso mercado editorial. São nomes como a ótima Lina Meruane, de "Contra a Maternidade" (Todavia) e "Tornar-se Palestina" (Relicário), e Diamela Eltit, que esteve na Flip de 2017 e agora vê um novo romance chegar por essas bandas: "Forças Especiais" (também sai pela Relicário em tradução de Julián Fuks).

Nesse trabalho com as chilenas, uma editora que merece destaque é a Moinhos. Há pouco publicaram por aqui dois livros da badalada Alejandra Costamagna, o romance "Sistema do Tato" e "Impossível Sair da Terra", de contos. Como não sei se voltarei a este em algum momento, deixo o registro: o livro é muito bom, com destaque para a novela "Naturezas Mortas", que encerra a coleção traduzida por Mariana Sanchez.

No começo do ano, escrevi sobre diferentes momentos da ditadura militar chilena a partir da leitura de "O Dia Em que a Poesia Derrotou um Ditador", de Antonio Skármeta (Record), e de dois outros romances recentemente trazidos pela Moinhos: "A Subtração", de Alia Trabucco Zerán, e "Kramp", de María José Ferrada (este, uma preciosidade).

Um outro título da editora que chega agora às livrarias poderia compor aquele artigo sobre a truculência de Pinochet e seus comparsas encarada pela perspectiva de jovens e crianças. Falo de "Space Invaders", de Nona Fernández (tradução de Silvia Massimini Felix). É uma história que, exceto pelo final, quando tudo fica mais escancarado, retrata a ditadura à meia-luz, utilizando-se de imagens e metáforas que impressionam e surpreendem, como as retiradas do antigo jogo de videogame que dá nome ao livro:

"As balas verdes fosforescentes dos canhões terrícolas avançavam rápidas pela tela até atingir algum alienígena. Os marcianinhos desciam em bloco, num quadrado perfeito, lançando seus projéteis, movendo seus tentáculos de polvo ou lula, mas o poder de Gonzáles e Riquelme era enorme e eles sempre terminavam explodindo. Dez pontos por cada marciano da primeira fila, vinte pelos da segunda e quarenta pelos da última fila. E quando o último morria, quando a tela ficava vazia, outro exército de alienígenas aparecia do céu, disposto a continuar batalhando. Entregavam ao combate uma vida, outra e mais outra, numa matança cíclica sem possibilidade de terminar".

Numa narrativa fragmentada sobre garotos e garotas que começam a deixar a infância e buscam compreender a complexidade do momento em que estão metidos, com seus pais ocupando diferentes papéis no combate ou no apoio ao regime totalitário, chama a atenção as questões retratadas dentro do ambiente escolar.

Space Invaders - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

"Professor, antes de começar, queremos fazer uma pergunta. Que pergunta vocês querem fazer? O que é estar metido com política? Que idade precisa ter pra se meter em política? Silêncio. [?] Crianças, responde o professor de matemática, essa aqui é a aula de matemática e no colégio vocês vêm estudar, e não falar besteiras", lemos num momento. "A bandeira finalmente acima da haste, tremulando sobre nossa cabeça, ao compasso de nossa voz, e todos nós olhando para ela protegidos por sua sombra escura", temos em outro.

O contraste é claro. Conversar sobre política na sala de aula, conversar a respeito do horror no qual o país está mergulhado, é, nas palavras do professor talvez intimidado pelos seus superiores, "falar besteira". Por outro lado, quem ousaria apontar ou questionar a clara "doutrinação ideológica", para usar um termo da moda, que é martelar o patriotismo abobalhado, a devoção à bandeira que tremula sobre as cabeças e finge proteger a todos enquanto espalha a sua "sombra escura"?

Essa sombra que se alastra a partir de símbolos pátrios apropriados por trogloditas toca diversos pontos nos quais a obra resvala. A demagogia de religiosos que pedem para que algum deus proteja pessoas que eles mesmo ajudam a massacrar, os exílios forçados pelas perseguições e a Guerra do Pacífico, que envolveu Chile, Peru e Bolívia, são elementos presentes em "Space Invaders".

A retração dessa sombra e a conquista de alguma justiça após a queda de Pinochet e de seus capachos também têm seu espaço no livro de Nona. Importante para lembrarmos que a história caminha, a política não é imutável e nenhuma desgraça dura pra sempre.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL