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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Tensão sexual entre mãe e filho marca final da 'trilogia da paixão'

Precoce - Reprodução
Precoce Imagem: Reprodução

Colunista do UOL

30/06/2021 09h57

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"O último halo do sol faz uma espécie de giro, dá uma espécie de salto e quica entre os arbustos, o céu rebrilha na água e tudo volta a ser assombroso. Isso é amar, digo a mim mesma, e ele vem e me arranca a cabeça".

Ariana Harwicz é uma escritora que exige atenção, dedicação e disposição ao incômodo, ao desconforto, a seguir adiante mesmo quando a sensação é de completo desnorteio. Sua prosa turbulenta oscila entre o delírio, a fantasia e o plano real da narrativa. Em suas histórias encontramos personagens que vivem numa condição em que a moral está suspensa ou sendo a todo momento sufocada. Tormento, angústia e amor se misturam e colidem em pessoas cindidas entre a razão imposta e o desejo próprio. Desejo que atropela grandes tabus. O incesto é tema que ronda com frequência as páginas da escritora argentina.

Esses elementos já compunham "Morra, Amor" e "A Débil Mental", os dois primeiros volumes da chamada "trilogia da paixão". Estão presentes também em "Precoce", romance que encerra a série. O título foi lançado originalmente em 2016 e chega agora ao Brasil pela Instante (tradução de Francesca Angiolillo), mesma casa que publicou os outros livros de Ariana por aqui, ambos, com justiça, bem recebidos por crítica e público. (Aqui está o que escrevi sobre "Morra, Amor" e aqui está o que escrevi sobre "A Débil Mental").

Em um vilarejo um tanto distante dos grandes centros, uma mãe busca, de alguma forma, criar o filho já adolescente. Numa narrativa que viaja pelo tempo, o leitor acompanha diferentes momentos dessa relação conturbada, marcada pela miséria, pelas variações de humor e por um afeto que alterna entre o acolhedor, o possessivo e o destrutivo.

"Pode ser que eu lhe esteja provocando um retardo. Que haja lesões severas ou moderadas, me disseram senhora, senhora, está escutando, deixou-o cair do alto, do trocador, não da cadeirinha, dá no mesmo, nesta idade a moleira não está fechada", lemos num momento. "Somos dois a odiar tudo", temos em outro.

Precoce - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

De cara, dois pássaros se alçam de uma árvore e, ao se estatelarem, se matam entre si. Linhas depois, quatro patas se lançam em queda livre e "o filho desce despencando pelos degraus. Tem sangue nos joelhos e me chama. Mamãe. Mamãe". São baques que dão o tom da relação que segue com amor, tropeços e ruínas, perturbada por uma tensão sexual crescente e resistindo às chateações da guarda local, da assistência social, dos profissionais da escola. Num outro plano, questões como a imigração, o trabalho ilegal, a crueldade do campo e o racismo que há numa Europa mais profunda também aparecem em "Precoce".

Os livros da trilogia da paixão compartilham estética semelhante, são ambientados em cenários parecidos e apresentam conflitos que dialogam entre si. Mas são histórias independentes, com personagens distintos, que se sustentam sozinhas e podem ser lidas em qualquer ordem.

Desde que recomendo enfaticamente Ariana, leitores me procuram para compartilhar suas experiências com a autora. Há quem, após iniciar a leitura, tenha preferido evitá-la neste momento de caos completo em nossas vidas. Compreendo, só torço para que deem uma outra oportunidade à argentina quando - e se - alguma calmaria mental voltar a existir. Ariana Harwicz merece ser lida com muita calma, atenção e disposição.

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