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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Sacaneado pela vida: o que pensei ao ficar preso na marcha bolsonarista

Fragmento de Juízo Final, de Jan van Eyck - Reprodução
Fragmento de Juízo Final, de Jan van Eyck Imagem: Reprodução
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

16/06/2021 09h56

Por uma sacanagem da vida, no último sábado empaquei na marginal Tietê enquanto fanáticos por Bolsonaro desfilavam em suas motocas. Iam enfeitados com bandeiras, coletes, jaquetas, símbolos com facas, caveiras. Celebravam o presidente que enalteceu a morte durante toda a sua vida pública e a entregou aos milhares após ser eleito. Nenhum brasileiro pode se dizer surpreso.

Enquanto seguiam, lembrava de alguns livros. Não é de hoje que digo: o passo a passo do governo Bolsonaro guarda muitas semelhanças com o crescimento de Benito Mussolini na Itália. Aliás, nosso paranoico adora copiar as demonstrações simbólicas de força do nanico italiano. Algumas palavras sobre a Marcha Sobre Roma e as exibições de Bolsonaro estão aqui.

Insisto: a chance que temos de evitar uma desgraça ainda maior para o país é compreendermos como as tragédias históricas se constroem para tentar frear pandemônios do nosso tempo enquanto eles ainda estão em curso. Esperar a óbvia hecatombe se confirmar para só depois dizer "poxa, olha só, ele era um monstro mesmo" é uma mistura de covardia e cinismo.

Sim, no trânsito lembrei de "O Fascismo Eterno", de Umberto Eco (Record), sobre o qual escrevi em janeiro de 2019. Sei que centenas de milhares já morreram, que no meio ambiente a boiada passa em ritmo nunca antes visto e que as instituições estão aparelhadas. Mas, acreditem, ainda pode piorar.

Dois outros livros que vieram à mente enquanto assistia à marcha fúnebre foram "A Ordem do Dia", de Éric Vuillard (Tusquets), e "Berlim", de Jason Lutes (Veneta). Este é uma HQ sobre o caldo de ódio, burrice e ressentimento que levou parte importante da sociedade alemã a ver Hitler como uma solução. Já "A Ordem do Dia" é um primor de romance histórico que reconstitui momentos decisivos nos acirramentos autoritários do líder nazista, como a decisão de grandes empresas alemãs de apoiar o seu projeto sanguinário.

Preocupa ver a pasmaceira que há no lido com Bolsonaro. Se o apoio ao presidente é minoritário, a maior parte da sociedade parece seguir um tanto indiferente a tudo o que acontece, esperando que dias melhores brotem a partir de sabe-se lá onde.

Enquanto isso, cabeças da oposição pensam nas eleições de 2022. Comportam-se como se o bolsonarismo não estivesse pronto para dar um golpe, ou consolidar o golpe em curso, usando como capachos as polícias e as Forças Armadas, sócias desse governo desde que a candidatura do então deputado federal de baixo clero começou a ser gestada.

Ainda naquele triste momento, recordei outros dois títulos importantes que nos ajudam a entender como chegamos a este buraco e na mão de quem nós estamos. Falo de "A República das Milícias - Dos Esquadrões da Morte à Era Bolsonaro", livro-reportagem de Bruno Paes Manso (Todavia), e "Guerra Cultural e a Retórica do Ódio - Crônicas de um Brasil Pós-Político", ensaio de João Cezar de Castro Rocha (Caminhos).

No final, consegui deixar a marginal Tietê, o cortejo sinistro ficou para trás e segui meu rumo. Já o Brasil... Sigo sem saber como o país sairá dessa história macabra na qual se meteu.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL