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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O que você precisa saber sobre Shakespeare antes do fim do mundo

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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

11/06/2021 08h34

Na 83ª edição do podcast da Página Cinco:

- Entrevista com Fernanda Medeiros e Liana de Camargo Leão, organizadoras de "O Que Você Precisa Saber Sobre Shakespeare Antes que o Mundo Acabe" (Nova Fronteira).

Alguns destaques da entrevista:

Mundo que se acaba

Fernanda: Algum tipo de mundo já acabou. Um tipo de mundo em que a gente se sentia muito garantido com toda tecnologia, saber, ciência. Acho que esse mundo acabou em março de 2020, quando a gente se viu confinado pela pandemia.

Saber antes que o mundo acabe

Liana: A grande fala do Hamlet pra mim é "o estar pronto é tudo". Você tem que estar pronto para o inesperado da vida, porque a vida vai te atropelando. O Hamlet, no final, ele que ao longo da peça se depara com vários obstáculos, tem essa frase: o estar pronto é tudo. Acho que a pandemia tem um pouco disso. Mesmo que você não esteja, é obrigado a estar pronto.

Fernanda: Tem que conhecer um Shakespeare menos canônico. Lembrar que não é só aquele conjunto de obras-primas normalmente lidas. É sempre bom lembrar de que a obra de Shakespeare é maior do que essas que a gente tem mais contato, que são incríveis. Mas poderia ser muito interessante a gente ler mais as comédias. Tem todo um enquadramento de vida ali nas comédias que desfoca um pouco dos grandes indivíduos para uma possibilidade de a gente se relacionar mais por meio de comunidades e coletivos.

Tito Andrônico

Fernanda: O jogo que se coloca é: o que a nossa civilização faz com a cultura, a tradição, o saber? A gente não consegue ultrapassar o nível de barbárie a despeito do acúmulo de saber e informação. A gente precisa dos livros, a gente consome os livros, mas eles não nos salvam da nossa barbárie. O "Tito Andrônico" expõe essa condição absolutamente paradoxal nossa de maneira muito contundente.

A Tempestade

Liana: Um dos temas sérios de "A Tempestade" é a questão do aprendizado: por que uns aprendem e outros não aprendem? Por que nessa pandemia alguns começaram negando ou propondo remédios miraculosos e no meio do caminho aprenderam que não era assim e mudaram? E outros não, continuam insistindo. Não estou falando do Brasil, mas estou também... Tem pessoas que são absolutamente impermeáveis à civilização, à mudança, a tudo. Shakespeare sempre mostra essas gradações. Que o ser humano é múltiplo, e há sim alguns que são impermeáveis a qualquer sentimento humano... É importante que a gente perceba isso: admitir o mal no outro.

Comédia

Fernanda: A gente perde na comédia aqueles personagens de alta espessura psicológica, aqueles mergulhos na subjetividade que a gente ama ler nas tragédias, para entrar mais no jogo com o outro, na dança com o outro. Na comédia, os personagens são muito mais adaptáveis, as diferenças hierárquicas são menos pronunciadas. A gente vê que a sociedade só consegue sobreviver porque as pessoas conseguem entrar numa coreografia, aí eu cedo um pouco da minha individualidade para poder estar com você. Tem um jogo aí que é prazeroso, mas é de concessão: abrir mão um pouco desse individualismo que se tornou uma marca do mundo Ocidental.

Nossos vilões

Liana: Esses vilões não sabem nem falar direito. Quando estou lendo "Ricardo III", pelo menos tem uma sedução de quem é bom ator, sabe falar, é irônico, domina aquele mundo do teatro e da palavra. Os nossos violões de hoje em dia beiram o grotesco. São muito pobres como personagens. Talvez Shakespeare tentasse melhorá-los. Eles parecem mais com bufões trágicos... Agora, impressionante que eles conseguem prosperar. O que está faltando para a civilização? O que está faltando para o mundo? Será que é livro, leitura, sentido de comunidade, generosidade? O que está faltando pra gente?

Fernanda: Acho que esses vilões hoje são pós-shakespeareanos, pois eles perderam a humanidade. Eles estão para além do que Shakespeare pôde imaginar, porque, bem ou mal, Shakespeare imaginou humanos. Parece que a gente lida com pessoas que decaíram dessa categoria que a gente quer acreditar que seja a humanidade. Sobre a vilania, tem uma coisa que me admira muito no Shakespeare, que parece que ele entende que existem pessoas que querem chegar ao poder não para governar, mas apenas para ter poder. E essa coroa oca que alguns monarcas vestem, Shakespeare entende que o lugar ali, a posição de governo, pode ser usada para atender a fins absolutamente narcísicos e pontuais. Isso define a tirania.

Hierarquia desmantelada

Liana: A democracia é uma coisa muito importante hoje pra gente. A questão de uma certa igualdade de direitos das pessoas, e isso tem nas comédias. Há mais hierarquia e ordem na tragédia, apesar de que ela é desmantelada. Se você pensar no "Rei Lear", a hierarquia é desmantelada. No final, o Lear está junto de quem? Do bobo... O pessoal tem que realmente mergulhar em Shakespeare. Tem muita coisa para gente aprender com Shakespeare sobre comportamento humano, também sobre como instituições funcionam. Não é fazer aproximações rápidas, isso não sei se funciona muito, mas esses mecanismos que movem tanto as pessoas quanto as instituições, até o egoísmo de cada um, isso vai ver perfeitamente retratado em Shakespeare. É bom para quem está no mundo.

Sem redenção

Fernanda: Não há garantias. Isso a obra do Shakespeare deixa muito claro: não tem redenção, não tem garantia. A nossa razão não nos salva, a nossa racionalidade não nos salva. Mas o que a gente tem é isso: alguma capacidade de pensamento, alguma capacidade de formar textos e talvez de se expandir como seres através da linguagem. É o material que a gente tem e é o material que o Shakespeare usa bem pra caramba.

Ilustração: Mariana Bozano.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL