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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Antítese de Bolsonaro, Paulo Gustavo transbordava amor, leveza e vida

Paulo Gustavo - Divulgação
Paulo Gustavo Imagem: Divulgação
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

05/05/2021 10h03

O ator Paulo Gustavo faleceu exatamente um ano depois do escritor e compositor Aldir Blanc também morrer por complicações provocadas pela Covid-19. Seis dias após Aldir, em 10 de maio 2020, seria a vez de Sérgio Sant'Anna, então um de nossos maiores escritores vivos, ter a sua passagem acelerada pelo coronavírus.

O Brasil colhe em 2021 o negacionismo e o desprezo pela vida semeados por Jair Bolsonaro e seus apoiadores (com destaque para o Exército, fiador da estupidez do hoje presidente desde o início da campanha ao planalto). Quando Aldir e Sérgio morreram, ainda não tínhamos imunizantes disponíveis pelo mundo. Bolsonaro, no entanto, menosprezava o impacto do vírus, boicotava ações de prevenção, recusava-se a coordenar estratégias nacionais de combate à peste e insistia na cloroquina como salvação para o caos. Semanas depois, passaria a recusar as vacinas.

Impossível o Brasil passar ileso por uma pandemia global, mas inaceitável a recusa em combatê-la e o incentivo a propagá-la que nos levaram aos 412 mil mortos que temos enquanto escrevo. Mais de um ano depois da chegada da doença por aqui, num mundo em que muitos países já testam a volta à normalidade, a passagem de Paulo Gustavo (e de milhares que se vão pelo mesmo motivo a cada dia) é consequência direta das atitudes do governo federal. Nesta altura, toda morte decorrente do coronavírus é e precisa ser tratada como política.

Independente de gostar da comédia que fazia, difícil encontrar alguém que não tivesse simpatia pela figura de Paulo Gustavo. Homossexual, casado e pai de dois filhos, era um cara cuja imagem transbordava amor, leveza, bom humor e vida. Ou seja, uma espécie de antítese de Jair Bolsonaro, seu principal algoz, que outro dia mesmo tirava sarro daqueles que sufocam nos hospitais.

Mais um naco importante do Brasil se vai. Milhões choram, seguem chorando, choram de novo. E chorarão outra vez hoje, após descobrirmos quem serão os 3 mil e tantos mortos do dia. Se ainda nutrisse alguma esperança, desejaria que a morte de Paulo Gustavo pelo menos servisse de força para uma revolta que tenha a mesma dimensão da nossa tragédia.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL