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REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Uma vida ao lado de Gabo, Cortázar e Galeano: papo com Eric Nepomuceno

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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

23/04/2021 09h58

Na 76ª edição do podcast da Página Cinco:

- Entrevista com o tradutor, jornalista e escritor Eric Nepomuceno - aqui o caminho para a Nepomuceno Filmes.

- O Projeto Migra.

- "Terra Fresca da Sua Tumba", de Giovanna Rivero (Jandaíra e Incompleta), "Agora Posso Acreditar em Unicórnios", de André Balbo (Reformatório), e "A Tragédia da Cultura", de Georg Simmel (Iluminuras e Observatório Itaú Cultural), nos lançamentos. Aqui o caminho para o papo de lançamento de "A Tragédia da Cultura".

Alguns destaques da entrevista:

Saída do Brasil durante a ditadura

Percebi que tudo o que escrevia, por exemplo, sobre o Chico Buarque era censurado. Então fiz um teste. Comecei uma matéria dizendo que o Chico era um esquerdista que adorava ganhar milhões, que usava roupas caríssimas, que trocava de carro todo ano. Acabei com a raça do Chico. E fui censurado. Porque na lauda tinha meu nome e o título: "O verdadeiro Chico Buarque". O cara nem leu. Proibiu. Daí eu falei: vou embora.

Encontros em Buenos Aires

O primeiro grande amigo que fiz, que me adotou como irmão mais novo, foi justamente o Eduardo Galeano. O Galeano me chamava em final de tarde e dizia: vem aqui pra tomar um café com o Mario. Aí era o Mario Benedetti. Lembro do dia em que ele me chamou para tomar um uísque com um amigo que tinha chegado da França. Era o Cortázar.

Amizade e afeto

Comecei a traduzir para que os amigos que tinha aqui conhecessem os amigos que estava fazendo lá. Por isso que sempre digo e vou dizer enquanto for vivo: eu comecei a traduzir por razões afetivas.

Almodóvar

O livro era péssimo. Eu me diverti muito traduzindo. Chama "Fogo nas Entranhas". É péssimo. Mas era o Almodóvar, era engraçado.

Cortázar

Quando morava em Madrid, surgiu uma coisa moderníssima chamada secretária eletrônica. E o Cortázar um dia ligou para minha casa e deixou um recado na secretária eletrônica. Quando cheguei, liguei para a casa dele e deixei um recado na secretária eletrônica. E assim foi durante três dias. A gente conversou por gravação. E ele tinha umas obsessões raras. Acreditava que na vida não havia coincidências. Acreditava que tudo na vida era predeterminado.

Gabo, o mentiroso

O García Márquez gostava de pregar peça. Ele tinha uma escala hierárquica: o amigo, o grande amigo, o amigo del alma e a máfia. E ele me nomeou o mais jovem integrante da máfia. Quando ele estava escrevendo "O Amor nos Tempos do Cólera", uma vez, duas vezes por semana, ou ele ia lá em casa, no México, ou me chamava pra tomar um uísque na casa dele, e me contava o que tinha escrito. Quando o livro saiu, não tinha nada lá. Era tudo mentira.

Tradução de Gabo

Quando estava traduzindo "Doze Contos Peregrinos", mandei cinco perguntas específicas de palavras que em castelhano têm duplo sentido. Ele me respondeu por fax: veja no dicionário, veja no dicionário... Aí eu mandei um fax de volta pra ele: Gabo, vete a la mierda. E traduzi da forma como achava que deveria traduzir.

Desequilibrado, psicopata e boçal

Tenho certeza, e isso me dói muito, que a indignação dos brasileiros está muito debilitada. A capacidade de indignação. Eu não tive surpresa nenhuma com o Jair Messias. Nenhuma. Sempre que lembro desse camarada como deputado, é como um desequilibrado, um psicopata e um boçal. E, no entanto, ele foi eleito. E tão responsável quanto quem votou nele é quem se absteve, votou em branco ou anulou o voto. É impossível acreditar que alguém se surpreendeu com o Bolsonaro.

Mulheres e o boom

O famoso boom foi um movimento editorial, não um movimento literário. Foi uma coincidência, igual aconteceu aqui no Brasil com a música popular. Isso acontece uma vez na vida e nunca mais. Por que não havia mulheres no grupo? Não sei. Não tenho a menor ideia.

Juan Rulfo

"Pedro Páramo" e "Chão em Chamas", pra mim, são uma divisão de águas na literatura latino-americana. A literatura latino-americana tem uma antes e depois do Rulfo. Ele é conhecido no Brasil, mas não ocupa um décimo do espaço que ocupa em qualquer país. Ele é idolatrado na França, na Espanha, na Itália, na Alemanha?

Capelas diferentes

A literatura, no Brasil também, é de capelas e igrejas. No Brasil eu não pertenço a nenhuma delas. A capela a que eu pertencia na América hispânica é uma, e a do Vargas Llosa, Octavio Paz, é outra. Não tem nada a ver.

As fotos de Eric Nepomuceno foram feitas por Paula Johas.

O podcast do Página Cinco está disponível no Spotify, na Apple Podcasts, no Deezer, no SoundCloud e no Youtube.

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