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ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Uma nova categoria de filme: ricaço sendo feito de trouxa

Fake Art - Divulgação
Fake Art Imagem: Divulgação
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

14/04/2021 10h08

"Nada Se Vê", do crítico de arte argelino Daniel Arasse, publicado no Brasil pela 34, é um livro delicioso. Em textos leves e com diferentes formatos (carta, diálogo?), Daniel faz com que o leitor mergulhe em quadros famosos, preste atenção em detalhes que muitas vezes passam despercebidos e se questione sobre cada elemento presente naquelas composições.

Na obra, Daniel passeia pela sensualidade enigmática de Maria Madalena e esmiúça "Marte e Vênus Surpreendidos por Vulcano", de Tintoretto, "Anunciação", de Francesco del Cossa, "Adoração dos Magos", de Pieter Bruegel, o Velho, "As Meninas", de Velázquez, e "Vênus de Urbino", de Ticiano. São análises que expandem a compreensão e a sensibilidade do leitor, que sai do livro com recursos para dedicar um olhar mais aguçado à arte.

Escrevi sobre "Nada Se Vê" há dois anos e pensei muito nele enquanto assistia ao documentário "Fake Art: Uma História Real", dirigido por Barry Avrich e disponível na Netflix. Em meados da década de 1990, a centenária Knoedler, então uma das galerias de arte mais famosas do mundo, se meteu (ou foi envolvida) num gigantesco esquema de falsificação de quadros de nomes como Mark Rothko e Jackson Pollock.

Quadros falsos desses artistas eram comprados pela galeria nova-iorquina, avalizados por grandes especialistas e revendidos em leilões que alcançavam alguns (ou muitos) milhões de dólares. Em certo momento, alguém considera uma pechincha pagar meros oito milhões em uma das pinturas.

Chama a atenção menos as fraudes e as cifras gigantescas e mais a forma como esses milionários ludibriados aparentam se relacionar com a arte. Durante todo o tempo, o que temos são pessoas falando sobre nomes em ascensão, oportunidades de negócios, histórias pitorescas e provas e mais provas de que as telas possuiriam lastro.

Nada se Vê - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Há o fetiche, o esnobismo e a busca por pinturas que escancarem certo status. Não temos os compradores comentando como aquelas representações lhe tocam, quais elementos das pinturas lhes chamam atenção, de que forma interpretam aquilo que têm na sua frente e, indo além da grana e das aparências, como isso faz sentido na sua vida. Cercam-se de supostas garantias porque não só não saberiam diferenciar muito bem um Pollock de algum artista aqui da esquina, me parece. A grife Pollock lhes é mais importante do que a arte de Pollock.

Por mais que a Receita Federal duvide da nossa existência, sou um dos tantos leitores que amam os livros e outras formas de arte, mas que provavelmente nunca poderão ter um quadro desses na sala de casa. Assim, o prazer de se apreciar uma pintura atropela qualquer pretensão pelo status que a obra pode conferir. É uma vantagem de ter a conta no banco tão desfalcada como a minha. E a leitura de um livro como o de Arasse faria bem para esses ricos enganados.

Aliás, quando vocês aí forem milionários, prestem atenção em como torrarão a grana. Está pronto para ser passado para trás quem tem apenas o dinheiro como métrica para avaliar a qualidade de algo.

"Fake Arte" faz par com "Sour Grapes" numa linha de documentários que poderíamos chamar de "filme sobre ricaço sendo feito de trouxa". Neste, o que temos é a história de Rudy Kurniawan, mestre da alquimia capaz de, a partir de algumas garrafas ordinárias, falsificar vinhos que custam algumas dezenas ou centenas de milhares de dólares. No longa, uma vez mais, temos um desfile de abonados que parecem estabelecer relação e conferir a qualidade do produto em questão mais pelo seu rótulo do que pelo conteúdo que oferece.

Antes de torrar alguns bons milhares de dólares (ou um milhãozinho do nosso real tão desvalorizado, quem sabe) num francês ou italiano, recomendo outras duas leituras: "A História do Romanée-Conti - E a Trama Para Destruir o Melhor Vinho do Mundo", de Maximillian Potter (Zahar), e, sobretudo, o excelente "Cork Dork - Loucos Por Vinho", de Bianca Bosker (Sesi-SP Editora). Porque se muitos ricos realmente lessem, talvez passassem a encarar de outra forma o valor de certas coisas.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL