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REPORTAGEM

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Conto perdido de Lygia Fagundes Telles é resgatado; leia um trecho

Lygia Fagundes Telles - Divulgação/Flima
Lygia Fagundes Telles Imagem: Divulgação/Flima
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

10/03/2021 09h56

Lygia Fagundes Telles já era um dos grandes nomes da literatura brasileira quando a MS, revista criada pelo fotógrafo Luiz Tripoli, encomendou-lhe um conto para uma edição dedicada à Grécia. Provavelmente lançada em 1981, a narrativa de poucas páginas se chamava "A Espera" e, com o passar dos anos e o final do periódico, acabou sendo esquecida. Em 2018, porém, a antiga editora da MS deu os originais de Lygia de presente de aniversário para um amigo de Santo Antonio do Pinhal, cidade na porção paulista da Serra da Mantiqueira. Começava ali o resgate desse trabalho perdido da escritora.

"A Espera" é uma história doída, bonita, sobre amores idealizados, expectativas, nostalgia, solidão, incertezas e desejo de "enrolar o fio do tempo". Nela, um casal se encontra dez anos após a inesperada separação, quando o rapaz largara a companheira pouco antes da Missa do Galo. Depois de sair de barco pelo mundo, ele retorna para visitar a antiga amante na véspera do Natal, após atracar na cidade grega onde viveram juntos. Apesar do amor declarado, as expectativas dos dois para o reencontro se mostram bem diferentes (leia um trecho exclusivo abaixo).

Agora "A Espera" será lançado pela primeira vez em livro. O conto ganhará uma edição feita pela e-galáxia em parceria com o Selo Flima, vinculado à Festa Literária Internacional da Mantiqueira, que neste ano chega à terceira edição e homenageia justamente Lygia Fagundes Telles. A partir do dia 11 deste mês, a versão digital será disponibilizada de graça por dez dias em livrarias digitais e no site da Flima. Uma edição comemorativa impressa também será enviada para os apoiadores da Festa. O volume contará com introdução de Nilton Resende, especialista na obra da escritora.

Autora de livros como "Ciranda de Pedra", "As Meninas" e "Seminário dos Ratos", Lygia estará no centro de boa parte da programação da Flima deste ano, que acontecerá virtualmente entre os dias 18 e 21 de março. Temas como sua influência em gerações que a sucederam, a atualidade de sua ficção e a recepção de sua literatura em países como França, Estados Unidos e Sérvia estarão na pauta. No site da festa há mais informações sobre Flima de 2021, que também contará com nomes como Afonso Cruz, Márcia Kambeba e Sara Bertrand.

Leia um trecho de "A Espera", o conto resgatado de Lygia Fagundes Telles:

A Espera - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

"A Espera"

"Irei, pois, deitar-me nesse meu leito ao

qual tenho confiado tantos suspiros e que

continuamente umedeço de lágrimas desde

que Ulisses se foi."

(Homero, Odisseia)

Dez anos tinham se passado e ele ainda se lembrava do quarto nos seus menores detalhes, como se o tivesse ali na frente: a cama de ferro dourado, a poltrona aconchegante, as paredes pintadas de rosa. E a pequena Vitória de Samotrácia que lhe dera no Natal, abertas as asas de mármore, prontas para voar da prateleira da estante, tremente o panejamento da roupagem, um pouco mais de vento e sairia num voo desatinado, rasgando a cortina da janela, adeus, adeus! "Comprei em Atenas", ele dissera. E ela fechou a estatueta na gruta das mãos e riu, "meu Deus, parece que tem um coração palpitando aqui dentro!" Quis saber como era Atenas e ele apertou os olhos e sorriu porque o coração que ela sentiu palpitar era o dele, inquieto, ansioso, sonhando com o mar. Com a montanha, desferindo o grito, a estrada! A Aventura. Atenas? Ah, sim era tão luminosa, um dia iriam fazer juntos essa viagem, ô Grécia! tão austera e ao mesmo tempo tão risonha. Um dia passeariam por aquelas terras e cantariam a linda amané, canção que fala do mais ardente amor, hein, Marghí?! Margarida então ficou séria, um pressentimento? Adivinhava que aquele seria o último Natal assim juntos, com a ceia posta na pequenina mesa redonda, isolada no centro do quarto como uma ilha vermelha e verde. A garrafa de vinho com o ingênuo laçarote no gargalo. As rosas vermelhas e a música no toca-discos, o ritmo leve, rodopiante. Dançaram fortemente enlaçados, ele ajudou a quebrar as nozes para o bolo e prometeu antes de sair: "Virei te buscar para a Missa." Ela ficou esperando enquanto ele fugia sem dizer uma só palavra, sem deixar nenhuma explicação. Atenas, sim, mas sozinho. Depois, Creta. E depois. E depois ainda, o dementado coração sem sossego e sem parada, a vida de asas plenas no ar, "mas o que você procura, Nikos?! Algum alvo, algum objetivo?"

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