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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Mortos como heróis, canto com rancor... O que sobrará desta terra?

"The Temptation of Saint Anthony", de Joos van Craesbeeck - Reprodução
"The Temptation of Saint Anthony", de Joos van Craesbeeck Imagem: Reprodução
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

08/03/2021 09h51

"Desta Terra Nada Vai Sobrar, a Não Ser o Vento que Sopra Sobre Ela". Olho para o livro mais recente de Ignácio de Loyola Brandão e lembro do papo que batemos quando a distopia agarrada ao presente saiu. Pouco depois, o defensor de milicano seria eleito presidente da República graças a 49.276.990 de votos no primeiro turno, quando tínhamos outras 12 opções de candidatos, e 57.797.847 de votos no segundo.

"Os alemães achavam que tudo estava normal enquanto o nazismo acontecia. Hoje estamos vivendo assim", falou Ignácio na conversa. Na história que criou, comboios circulam pela cidade carregando pessoas mortas. Não há mais Ministério da Saúde ou pastas para Educação, Cultura, Direitos Humanos, Meio Ambiente? Tudo é um caos.

Volto ao título de Ignácio. "Desta Terra Nada Vai Sobrar, a Não Ser o Vento que Sopra Sobre Ela". Me soa até um tanto esperançoso. Penso em outras possibilidades.

"Desta Terra Nada Vai Sobrar, a Não Ser o Ódio".

"Desta Terra Nada Vai Sobrar, a Não Ser o Cinismo".

"Desta Terra Nada Vai Sobrar, a Não Ser o Sadismo".

"Desta Terra Nada Vai Sobrar, a Não Ser um Talquei Armado".

Perambulo pela estante. Tiro alguns livros de poesia que costumo revisitar, hábito frequente entre leitores. "Poesia", de Bertold Brecht, é um deles. Não é raro me encontrar em Brecht. Foi de Brecht, aliás, que Ignácio tirou o título do romance. Releio a queima de livros.

Nicanor Parra - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

Passo para Nicanor Parra, grande chileno. "Só Para Maiores de Cem Anos". Saiu aqui pela 34, tradução de Joana Barossi e Cide Piquet. Parra sempre tem algo a me dizer.

Paro no poema "Ritos":

Cada vez que regresso

A meu país

depois de uma longa viagem

A primeira coisa que faço

É perguntar pelos que morreram:

Todo homem é um herói

Pelo simples fato de morrer

E os heróis são nossos mestres.

.

E em segundo lugar

pelos feridos.

.

Só depois

não antes de cumprir

Este pequeno rito funerário

Me considero com direito à vida:

Fecho os olhos para ver melhor

E canto com rancor

Uma canção do começo do século.

Mortos. Mortos para tudo que é lado. Heróis? Povo com frescura e mimimi, nas palavras do presidente da República levado ao segundo turno por 49.276.990 de brasileiros e, depois, eleito com 57.797.847 de votos. Penso em Parra. Que cantemos com rancor. A obra de Ignácio já soa como romance realista. Desta terra nada vai sobrar, me parece.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL