PUBLICIDADE
Topo

Página Cinco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Carta ao Menino Maluquinho (pode ser lida pelo Ziraldo)

Maluquinho - Reprodução
Maluquinho Imagem: Reprodução
Página Cinco

Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

01/03/2021 10h06

Maluquinho do céu! Não irei reclamar se der com a panela na minha cabeça. Você comemorou 40 anos no final do ano passado e até agora não te mandei os parabéns. Vou nem falar que esqueci. Perdi o dia, depois a vida saiu me atropelando. Acontece, você sabe. Desculpa, camarada.

Me peguei aqui pensando naquele tempo em que vivíamos grudados. Você era mesmo um companheirão. Lembro de como ri quando você me mostrou o desenho do Pedro Alvares Cabral de touca. Sempre admirei sua leveza e seu humor, Maluquinho, um jeito bonito de levar a vida. Não é por acaso que você virou o cara mais legal do mundo.

Vou te confessar: às vezes sentia alguma inveja. O olho maior do que a barriga eu sempre tive, mas não o vento nos pés. Até por correr bem devagarinho que acabei virando goleiro também. Aliás, adoro rever aquelas suas pontes. Tentava copiá-las jogando na rua, no asfalto. Mesmo depois de velho, ainda vivo me esborrachando por aí. Sempre estou com algum machucado, parceiro. E hoje sei bem como é ser chamado de subversivo ou algo do tipo - lembra de quando o seu avô veio com essa pra cima de você?

Que doideira, né, Maluquinho!? Hoje tem um povo que fala em terra plana, não acredita em vacina e aplaude defensor de tortura e ditadura. Tem um cara aí com faixa de presidente que tripudia de pandemia, ignora mais de 250 mil mortos e acha que os milicos (sim, aqueles mesmos) têm a solução para tudo. Bons tempos em que maluco era só um moleque gente boa que andava com uma panela na cabeça.

O Menino Maluquinho - Divulgação - Divulgação
Imagem: Divulgação

São dias difíceis, meu amigo, bem difíceis. Mas, enquanto te escrevo, ecoa na minha cabeça uma música que ouvíamos bastante juntos. Aquela do Milton que fala: "Há um menino/ há um moleque/ morando sempre no meu coração/ Toda vez que o adulto balança/ ele vem pra me dar a mão". Lembrar disso dá uma força, viu!? E estamos muito precisando de força. Acho, Maluquinho, que a gente não sabe mais enganar a chuva criando o nosso próprio sol.

Não vou ficar de melosidades. Nada de alma ou coração. Mas saiba que você segue num lugar muito especial aqui dentro.

Se o Ziraldo estiver por perto, por favor, mande um beijão e diga que ele também está guardado num dos meus melhores cantos.

Ah, quarentão, e aproveito também para te parabenizar pelos números, não só pelo aniversário. Chegar a 129 edições e vender mais de 4 milhões de exemplares é mesmo para poucos. E você merece muito mais!

Um abraço maior do que essas pernas que podem abraçar o mundo, Maluquinho.

RC

Você pode me acompanhar também pelas redes sociais: Twitter, Facebook, Instagram, YouTube e Spotify.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL