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O caldo de ressentimento e violência que leva um carniceiro ao poder

Berlim - Reprodução
Berlim Imagem: Reprodução
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Rodrigo Casarin é jornalista e especialista em Jornalismo Literário. Escrevendo sobre livros, já colaborou com veículos como Valor Econômico, Aventuras na História, Carta Capital, Revista Continente, Suplemento Literário Pernambuco, Jornal Rascunho e Cândido. Integrou o júri do Oceanos ? Prêmio de Literatura em Língua Portuguesa em 2018, 2019 e 2020 e o júri do Prêmio Jabuti em 2019, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem. Vive em São Paulo, em meio às estantes com as obras que já leu e às pilhas com os livros dos quais ainda não passou da página 5.

Colunista do UOL

27/01/2021 09h53

Ao comparar alguma situação atual ao fascismo de Benito Mussolini ou ao nazismo de Adolf Hitler, muita gente toma como parâmetro a fase mais aguda dos regimes totalitários ou o resultado das carnificinas promovidas pelos desprezíveis. Parece-me cada vez mais um equívoco. Se a ideia é olhar o passado para tirar algum alerta ou aprendizado, seria melhor focarmos no processo de ascensão e consolidação dos governos autoritários e assassinos, o que nos daria chance de tentar frear o crescimento de similares em nossos dias. Isso considerando que informação e discernimento continuam servindo para alguma coisa, claro.

"Berlim" é o trabalho da vida do norte-americano Jason Lutes, que levou mais de 20 anos para concluir as quase 600 páginas do tijolo publicado no Brasil pela Veneta em tradução de Alexandre Boide. O principal mérito da HQ é justamente tratar de Hitler e do nazismo não a partir da tragédia consumada, mas de sua ascensão, fruto de crescente deterioração social, ruptura de pactos de convívio e perda da capacidade ou possibilidade de diálogo.

Na cosmopolita Berlim dos anos 1920, a pujança cultural contrasta com feridas deixadas pela Primeira Guerra Mundial. No centro da narrativa encontramos Kurt Severing, jornalista que busca se colocar como estrito observador dos fatos, e Marthe Müller, artista que se distancia da família e muda para a cidade com o pretexto de estudar. Por meio do encontro desses personagens e da relação que se estabelece - e das relações derivadas a partir daí - que perambulamos por uma metrópole que paulatinamente se fragmenta.

A vanguarda da capital alemã nos mostra uma capital que serve de farol: homossexuais batalham por seus espaços, mulheres lutam pelo controle da própria vida, a arte é discutida com fervor e intelectuais debatem ideias que visam um mundo mais justo. Só que a realidade das ruas é diferente. O caldo de ressentimento deixado pela Primeira Guerra e fomentado ao longo dos anos serve de base para o fortalecimento da extrema-direita, que encontra apoio da polícia (esta logo se transforma numa milícia) e é abraçada por - ou se vê refletida em - políticos que ascendem enquanto a decepcionante República, que permaneceu nas mãos dos mesmos poderosos de outrora, se desmancha num cenário de descrença com o sistema político.

Berlim, de Jason Lutes - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução

O resiliente movimento comunista alemão aparece como antagonista ideal para os brucutus que se articulam e começam a espalhar o horror pelas esquinas. É aos poucos que as instituições vão sendo cooptadas, aparelhadas ou desmanteladas e nomes como Joseph Goebbels, propagandista do Partido Nazista, começam a ganhar força. Enquanto isso, uma elite aparvalhada, conivente ou cúmplice segue com suas festas e pompas. A estupidez que galopa diante de seus salões bem ornados não causa preocupação. Sim, o trabalho do quadrinista norte-americano nos oferece uma boa gama de perspectivas daquele momento.

"Berlim" é uma HQ que caminha devagar. Aos poucos que o leitor capta os conflitos, os crimes, as articulações escusas, o contexto histórico europeu, o ódio e a lama na qual a sociedade alemã começava a se afundar. É um acerto esta escolha de Jason. O ritmo cadenciado nos lembra que a ascensão de um líder como Adolf Hitler não acontece de uma hora para a outra, não se resume a alguns eventos fundamentais, como temos a sensação ao encontrar a história extremamente condensada em algum material didático. É um processo longo, moroso, ardiloso e contínuo de corrosão. E um processo que conta com a colaboração decisiva daqueles que insistem em fingir que não há nada de grave acontecendo.

Por focar na ascensão do nazismo e nos apoios que levaram Hitler ao poder e o mantiveram por lá, confiante para fazer tudo o que fez, a HQ "Berlim" forma um bom com "A Ordem do Dia" (Tusquets, tradução de Sandra Stroparo). Neste romance, o francês Éric Vuillard narra como a benção de dezenas grandes empresários foi fundamental para o que o principal nome do nazismo tivesse sucesso em sua empreitada funesta. São livros que nos fazem, uma vez mais, pensar sobre o momento em que estamos metidos.

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