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Mauricio Stycer

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Drama da Globo segue médica que mergulha no terror da dependência de crack

Mariana Lima, Leticia Colin e Fabio Assunção em cena de "Onde Está Meu Coração" - Globo/ Fábio Rocha
Mariana Lima, Leticia Colin e Fabio Assunção em cena de "Onde Está Meu Coração" Imagem: Globo/ Fábio Rocha
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

03/05/2021 09h13

Realizada em 2019, para lançamento em 2020, "Onde Está Meu Coração" chega finalmente ao alcance do espectador nestes primeiros dias de maio de 2021. Nesta segunda-feira (03), às 23h45, a Globo exibe o episódio de estreia na sessão Tela Quente. A partir de terça (04), os dez episódios da série estarão disponíveis aos assinantes do Globoplay.

Trata-se, assim, da principal estreia da plataforma de streaming num momento estratégico. Com o fim do "BBB 21" neste mesmo dia, a empresa busca convencer milhões de pessoas que assinaram o serviço por causa do reality show a continuar como clientes.

"Onde Está Meu Coração" é um biscoito fino. Escrita por George Moura e Sergio Goldenberg, a mesma dupla responsável por "O Canto da Sereia", "O Rebu" e "Onde Nascem os Fortes", a série traz Letícia Colin em altíssimo nível no papel de Amanda, uma médica que vai ao fundo do poço após se tornar viciada em crack.

O ótimo elenco conta ainda com Fabio Assunção (o médico David), Mariana Lima (a executiva Sofia), que vivem os pais de Amanda, Daniel Oliveira, (o arquiteto Miguel), marido da médica, e Manu Morelli (Julia) como a irmã mais nova.

Goldenber, Luisa e Moura - Globo/ Fábio Rocha - Globo/ Fábio Rocha
A diretora Luisa Lima entre os autores Sergio Goldenberg e George Moura
Imagem: Globo/ Fábio Rocha

A série marca a estreia de Luísa Lima na posição de diretora artística. Na Globo desde 2003, ela foi assistente de José Luiz Villamarin em alguns dos projetos mais marcantes do hoje diretor de teledramaturgia da Globo, como "O Rebu", "Justiça", "Nada Será Como Antes" e "Onde Nascem os Fortes".

Moura e Goldenberg tratam "Onde Está Meu Coração" como a segunda obra de uma "trilogia da busca", iniciada com "Onde Nascem os Fortes". Segundo eles, a terceira parte do projeto, ainda não escrita, vai se chamar "Para Onde Vamos".

O lançamento do drama da médica Amanda no meio de uma pandemia de coronavírus não preocupa os autores. "Não é porque estamos numa crise sanitária que outras questões sucumbiram. Elas estão presentes e, às vezes, até mais agravadas. É nessa crença que a gente acredita que possa tocar o coração das pessoas", diz Moura em entrevista ao UOL.

"Ficamos surpresos, ao pesquisar, com a presença do crack na classe média e na classe média alta. Pensamos: 'então vamos por aí, é um caminho novo'. O crack sempre entra nas estatísticas como uma droga barata e popular, mas o que está em questão é o efeito do crack, o que faz o usuário gostar do crack", conta Goldenberg.

O autor cita o livro "A Noite da Arma" (editora Record) como uma referência importante. Trata-se de uma investigação do jornalista David Carr (1956-2015) sobre o período em que foi viciado em drogas. Como não se lembra de nada, Caar busca prontuários e entrevista médicos e policiais para recontar a própria história.

Moura também realça este aspecto em "Onde Está Meu Coração" - o impacto do vício em drogas sobre o núcleo familiar. "Em geral, no Brasil, quando se trata da questão da dependência química, se associa muito a criminalidade. E o nosso viés não era esse. Era o adoecimento da família", diz. "Não é uma série sobre a droga, mas sobre as consequências que a dependência química pode criar nas relações do núcleo central da sociedade, que é a família".

"Essa questão, de alguma forma, bate na porta de todo mundo, de qualquer classe social. Quem vive ou já viveu isso, pode ter um olhar mais afetuoso para essa questão, e não estigmatizar e não criminalizar o dependente químico", acrescenta Goldenberg. "A gente quer mostrar que é preciso ter perseverança, paciência. Ainda mais com filho. Espero que ajude as pessoas a se verem e pensarem: como eu vou lidar com isso".

Leticia Colin - Reprodução / Internet - Reprodução / Internet
Amanda (Letícia Colin) em "Onde Está Meu Coração"
Imagem: Reprodução / Internet

Filmada inteiramente em locações, em São Paulo, "Onde Está Meu Coração" trata a cidade praticamente como uma personagem. Com a câmera na mão, a diretora Luisa Lima acompanha o drama da médica Amanda com compaixão, sentindo a pulsação dela. Numa cena do primeiro episódio, a médica deixa a sala de cirurgia, após um trabalho bem-sucedido, e corre para se drogar no banheiro.

"A gente mergulha nas trevas para descobrir possibilidades de cura. Atravessando esses estados de sofrimento tão profundos, que a gente pudesse resgatar aquilo que está faltando para as pessoas: nosso senso de alteridade", diz Luísa ao UOL.

"Mesmo que a gente não consiga se colocar no lugar do outro, que a gente respeite o que o outro vive e ofereça ajuda. Isso é uma função de toda sociedade. No campo da arte, do entretenimento, teve esse senso de responsabilidade também", prossegue a diretora.

"Não nos bastava simplesmente colocar o dedo na ferida. 'Olha como o mundo tá horroroso, olha como as pessoas estão sofrendo, olha como o crack é um sintoma deste mundo contemporâneo'. Acho que o desejo era, sim, escancarar isso".

E conclui: "Não podemos negar que estamos na pandemia, num momento terrível, num governo terrível. Mas vamos falar disso justamente para apontar caminhos. Que a nossa humanidade se sinta potente, que a nossa solidariedade se faça presente. Esse é o nosso propósito com a série".