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Mauricio Stycer

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Série sobre Karol mostra desculpas, confissões e treino para entrevista

Karol chora ao falar do pai em documentário do Globoplay - Reprodução/Globoplay
Karol chora ao falar do pai em documentário do Globoplay Imagem: Reprodução/Globoplay
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

29/04/2021 03h12

"A Vida Depois do Tombo" tem o mérito de demonstrar que a passagem de Karol Conká pelo "BBB" foi realmente extraordinária, um episódio sem paralelo na história do programa. "Uma catástrofe", diz a própria cantora, que vai se dando conta do tamanho da "tragédia" (também palavras dela) ao longo do documentário, em quatro episódios.

O clímax da série do Globoplay é o encontro programado, mas que acaba não ocorrendo com Lucas Penteado. O ator desistiu na véspera e mandou um vídeo dizendo que Karol deveria se acertar não com ele, mas com Deus.

"Não tô preparado pra te encontrar. Não tô pronto. Acredito firmemente em Deus. E ele inventou que todas as pessoas merecem perdão. Se você tem alguma coisa a falar, não é comigo. É com Deus", diz ele.

Após ver e rever as cenas mais pesadas que protagonizou com Lucas, em especial o momento em que expulsa o rapaz da mesa do almoço, Karol pede as desculpas mais sentidas entre todas que pediu ao longo do filme:

"Seria um alívio muito grande poder te encontrar, a sua mãe. Pedir perdão. Tenho um filho também, e não ia gostar nem um pouco que tratassem meu filho assim. Fui muito dura, muito feia, não me orgulho do que eu fiz, peço desculpas. Desculpa pelo que eu fiz com seu filho. Andreia, me perdoe", diz Karol.

A cantora pede desculpas ainda a Bil e Carla Diaz, que também se recusaram a encontrá-la. E a Lumena, única que topou falar cara a cara. Sobre a atriz, ela diz: "Magoei muito ela. Fico desconfortável. Entendo ela nunca mais querer olhar na minha cara, nunca mais falar comigo. Sinto muito. Peço desculpas".

E reconhece que inventou uma história envolvendo Carla e Bil. "Inventei que a Carla estava a fim do Bil. Inventei isso. Espalhei isso. E acabei estragando muitas coisas no jogo e nas relações".

"A Vida Depois do Tombo" tem bons momentos ao mostrar o acolhimento de Karol por sua mãe, seu filho e seu irmão. E, sobretudo, por Eliane Dias, empresária dos Racionais, que diz no documentário:

"Estando ela certa ou errada, só consegui ver o ódio que as pessoas têm das pretas que resolveram colocar seu cabelo pra cima, o ódio que essas pessoas tem das mulheres que exigiram seu lugar de fala. E resolveram colocar tudo em cima da Karol. Porque eu sei o que é o racismo estrutural, eu sei o que é ser uma mulher preta".

Outro bom momento é a exposição do constrangimento de Daniela Mignani, diretora do GNT. Assustada com as falas de Karol no "BBB 21", ela tomou a decisão de suspender a exibição de "Prazer Feminino", um programa da cantora apresentado originalmente no YouTube e que entraria na grade do canal.

"Decidi não exibir no GNT o programa. Não colocá-lo por uma dimensão humana", diz Daniela. "As famílias de outras pessoas que ela magoou poderiam se sentir ofendidas. Não tem certo e errado neste momento".

"A Vida Depois do Tombo" registra poucos flagrantes não autorizados por Karol. Um desses momentos é uma reunião com sua assessora de imprensa, preparando-se para a ida ao "Domingão do Faustão". A câmera capta a voz de Isabel Rezende instruindo a cantora: "Fala que você surtou".

O documentário resgata alguns problemas de Karol com antigos produtores e dá espaço para a versão de que a cantora seria uma pessoa "difícil" de lidar. Sua mãe, Ana, confirma esta hipótese: "Ela é bem brava, ela é explosiva".

E na passagem mais delicada, o documentário discute a relação conflituosa de Karol com o pai, alcoólatra, que morreu quando ela tinha 14 anos. E deixa a cantora estabelecer um paralelo com Lucas, citando momentos em que o ator bebeu no "BBB 21".

"Meu pai nunca me viu cantar no palco. Morreu quando eu tinha 14 anos. Lucas me lembrou muito ele. Lucas não tem nada a ver com isso. Quando ele ficava agressivo, quando ele bebia, quando ele falava coisas desconexas, quando ele aparecia com o semblante mais doce no outro dia pedindo 'desculpa, família', 'bom dia, família'."

E acrescenta: "Fiquei muito irritada. Mas não era com o Lucas que eu tava irritada. Era com essa lembrança que eu odeio. Eu tinha essa coisa do meu pai estar sempre bêbado".

Falta um contraponto do próprio Lucas a este depoimento de Karol. Sem a voz do ator, "A Vida Depois do Tombo" acaba reiterando uma agressão a ele.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL