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Mauricio Stycer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Amor de Mãe" será lembrada para sempre como a novela de dona Lurdes

Dona Lurdes, vivida brilhantemente por Regina Casé, representou uma mãe brasileira com enorme instinto de sobrevivência  - Reprodução / Internet
Dona Lurdes, vivida brilhantemente por Regina Casé, representou uma mãe brasileira com enorme instinto de sobrevivência Imagem: Reprodução / Internet
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

09/04/2021 23h11

Ao final da terceira semana de "Amor de Mãe", usei uma imagem futebolística ("O Barcelona é Messi e mais dez") para resumir o que estava achando da trama de Manuela Dias: escrevi, então, que "a novela é Lurdes e mais dez". Nesta sexta-feira (09), após a exibição do capítulo final, não tenho receio de dizer que a personagem de Regina Casé sai da novela para entrar na galeria de grandes ícones da teledramaturgia nacional.

Dona Lurdes representou a mulher que entende o tamanho da responsabilidade de comandar uma família de origem humilde num país com características selvagens como o Brasil. É uma Mãe Coragem, com enorme instinto de sobrevivência, capaz até de cometer crimes se isso for necessário para proteger os filhos.

No primeiro capítulo, matou o marido, por acidente, ao saber que ele comercializou Domênico (Chay Suede) com uma traficante de crianças. Mais adiante, quando achava que Sandro (Humberto Carrão) era seu filho, aceitou contrabandear um celular para ele na cadeia, além de levar um chip para o chefe da facção.

Lurdes Danilo - Reprodução / Internet - Reprodução / Internet
Lurdes (Regina Casé) conta para Danilo (Chay Suede) que ele é Domênico
Imagem: Reprodução / Internet

Lurdes comoveu pela lucidez e força do que disse, pela forma como foi mostrada, sem disfarces, e pela potência de seus gestos e expressões. Regina Casé brilhou demais na construção deste tipo, ajudada pelo texto sempre tocante de Manuela Dias, pela direção primorosa de José Luiz Villamarin e pelo apoio de um elenco que deu tudo na criação desta família tão brasileira (Juliano Cazarré, Jessica Ellen, Nanda Costa, Thiago Martins, além de Carrão e Suede).

Numa cena antológica, no leito do hospital, onde Camilla (Ellen) se recuperava de um tiro que levou durante um tiroteio na escola em que dava aulas, Lurdes ouviu a filha dizer que estava cansada de ser forte. "Eu não vou poder ser fraca nenhum dia?", perguntou.

E Lurdes respondeu: "Olha pra mim. Tu vai ter que ser forte. Tu não pode fraquejar. Ainda não dá pra ser fraca. Nesse mundo que a gente vive, não dá. Eu não guento isso: tudo você tem que ser a melhor, passar em primeiro lugar. Isso me dá raiva. Por que tem quer ser assim? Mas é assim. A gente tem que continuar assim, aproveitando cada chance da vida. Por que tem que estar o tempo todo assim? Porque a gente não é gente, não; a gente é sobrevivente. Ainda mais pra nós, pra mulher, é muito mais difícil. Ainda mais tu, da tua cor. Como eu queria que ninguém te julgasse pela cor da tua pele. Mas ainda não dá. A gente tem que continuar empurrando o mundo, mesmo ele sendo muito pesado... Empurrando para ele mudar. Tu virou uma professora. Tá educando um monte de menino. Pra mudar o mundo. E se a gente for bem forte, a filha desse aí que tá na sua barriga vai poder fraquejar. Por enquanto não dá, não, filha".

Lurdes se mostrou uma personagem clássica de novela, uma personagem na medida para quem ama novela. A sua vida se revelou um melodrama pesado, do início ao fim. As histórias em que se enredou foram determinadas por coincidências que só aceitamos porque se trata de um folhetim. As suas emoções foram sempre intensas demais. O seu fôlego para estar em tantos lugares ao mesmo tempo (em casa, no trabalho, no hospital, no restaurante da amiga) só foi possível porque era uma novela.

A entrega de Regina Casé em "Amor de Mãe" foi impressionante. Para quem nos últimos anos construiu uma carreira como apresentadora, esta volta ao lugar do ator mostra não apenas desprendimento como uma paixão mesmo pela arte de interpretar. Há muito tempo a televisão não oferecia uma personagem tão rica vivida com tanta força quanto a Lurdes de Regina Casé.

(este texto recupera trechos de colunas que publiquei durante a exibição da novela: aqui, aqui e aqui).

Em maio do ano passado, entrevistei Regina. Ela estava confinada com o marido, o diretor Estevão Ciavatta, o filho Roque, de 7 anos, e o neto Brás, de 2, em um sítio fora do Rio. Na primeira parte da conversa (acima), Regina fala sobre Lurdes - e como a personagem foi transformadora para a atriz.

"É muito difícil manifestar esse amor nesse momento com tanto ódio. E a Lourdes encontrou um canal e ela me mostrou um canal possível. Eu também estava muito cética, para não dizer niilista. Como é que eu vou expressar, vou mostrar alguma coisa boa? Como é que eu vou dizer para as pessoas 'vamos lá' quando tudo parece tão adverso? E a Lourdes me deu essa possibilidade".

Na segunda parte (abaixo), Regina faz um balanço de sua carreira e mostra o comprometimento com o seu ofício, seja como atriz, seja como apresentadora. Ela tem a clara noção sobre o impacto da televisão em diferentes esferas, do universo educativo ao entretenimento, passando pela dramaturgia:

"Se pensa na Lurdes, acho que é uma correspondência do 'Esquenta'. Como o 'Esquenta' é uma correspondência do 'Central da Periferia', como o 'Central da Periferia' é uma correspondência do 'Brasil Legal', como o 'Brasil Legal' é uma correspondência direta do Asdrubal Trouxe o Trombone. Isso é uma coisa que eu me orgulho na minha trajetória."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL