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Mauricio Stycer

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Joinville chega a mil mortos por covid e jornal vê "motivos para comemorar"

Capa do jornal "ND", de Joinville, nesta sexta-feira, 2 de abril de 2021 - Reprodução
Capa do jornal "ND", de Joinville, nesta sexta-feira, 2 de abril de 2021 Imagem: Reprodução
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

02/04/2021 19h26Atualizada em 03/04/2021 15h52

O jornal "ND" (Notícias do Dia), de Joinville (SC), publicou nesta sexta-feira (02) uma capa sobre o impacto da covid-19 na cidade, destacando o número de mortes (1.009) e o número de casos recuperados (70.865). Abaixo dos dados, uma mensagem de otimismo, que ignora o tamanho da tragédia: "Temos motivos para comemorar".

A capa do jornal registra o fato de que Joinville alcançou a marca simbólica de mil mortos por covid-19 na última quinta-feira (01). "Contudo, o cenário também pode ser visto de forma positiva, pois mais de 70 mil pessoas contraíram a doença e estão recuperadas", diz o texto, não assinado, na página 3 do tablóide.

O "ND" é uma publicação de um dos principais grupos de mídia da região Sul do país. Ele retransmite em Santa Catarina a Record TV. Esta postura, de amenizar os impactos da pandemia e enxergar os lados "positivos" do drama, também é uma marca da cobertura da televisão do grupo.

Ao lado da foto de um bebê de 7 meses, a vítima mais jovem de covid-19 na cidade, o texto segue defendendo a ideia de que há uma forma positiva de enxergar a tragédia: "O cenário em uma pandemia geralmente é de caos. O número elevado de mortes todos os dias assusta e, muitas vezes, deixa a população em pânico. Mas há formas de enxergar o problema positivamente."

Diz o jornal: "Relatos de superação renovam as esperanças da população e dos profissionais que atuam na linha de frente da covid-19. Já são 70.865 pacientes recuperados em Joinville, ou seja, temos 70.865 motivos para comemorar."

O destaque ao número de recuperados da doença vai ao encontro do desejo do governo federal, que em abril do ano passado criou o "placar da vida", no qual destaca números como esse, ao lado de dados sobre as mortes pela covid.

"Fomos mal interpretados", diz jornal que menosprezou mortos pela covid

Em editorial publicado na edição deste sábado (03), o "ND", de Joinville, trata da péssima repercussão da sua capa de sexta-feira. Em momento algum a publicação reconhece ter cometido um erro. O que houve, na visão do jornal, foi um problema de interpretação dos leitores.

"A citação 'comemorar', que ganhou destaque na capa da edição, foi interpretada de forma equivocada em relação à marca das 1.005 mortes registradas no município. Os dados se misturaram, já que a matéria principal do jornal digital é clara em relação aos casos de pacientes que consideram um milagre sair da UTI", diz o texto.

"Tivemos a intenção de mostrar aos leitores do ND Joinvile que, apesar do número expressivo de óbitos na maior cidade do Estado por causa da covid-19, hoje epicentro da doença, havia também um número significativo de recuperados e que esse dado é motivo para renovar as esperanças de quem ainda não está vacinado e corre risco de vida", prossegue o editorial.

"Infelizmente, a expressão foi mal interpretada. Não tivemos, de forma alguma, intenção de comemorar num cenário de caos e que parece não ter fim. Nos solidarizamos às mais de mil famílias que perderam seus familiares e sofrem os efeitos do coronavírus, que ceifa vidas, priva do convívio familiar e representa sofrimento", diz o texto.

"O que buscamos, caro leitor, é transmitir mensagens verdadeiras e produzir conteúdos que nos permitam olhar para o futuro de maneiras mais condescendente. Em nome das vítimas, pedimos desculpas, se fomos mal interpretados".