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Mauricio Stycer

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Novas reprises da Globo, "Ti Ti Ti" e "A Vida da Gente" se complementam

Alexandre Borges, Murilo Benício e Claudia Raia em "Ti Ti Ti", que voltará a ser exibida em março - Globo / Divulgação
Alexandre Borges, Murilo Benício e Claudia Raia em "Ti Ti Ti", que voltará a ser exibida em março Imagem: Globo / Divulgação
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

03/02/2021 14h45

Com a capacidade de produção limitada pela pandemia de coronavírus, a Globo segue apostando em reprises para preencher a sua grade formada por cinco novelas diárias. Conforme a emissora anunciou recentemente, dois títulos voltam ao ar em março: "Ti Ti Ti" (2010-11) no Vale a Pena Ver de Novo, em substituição a "Laços de Família", e "A Vida da Gente" (2011-12) na faixa das 18h, no lugar de "Flor do Caribe".

Com pouquíssimas novelas novas para ver, ao crítico de TV resta a tarefa de avaliar as razões que embasam as escolhas das reprises. Gosto das duas "novidades" e acho que, de alguma forma, elas se complementam.

No horário vespertino, sai um drama clássico, de Manoel Carlos, e entra uma comédia divertidíssima.

Assinado por Maria Adelaide Amaral, "Ti Ti Ti" foi um remake corajoso e criativo da novela de muito sucesso de Cassiano Gabus Mendes, exibida pela própria Globo em 1985. Como escrevi na época, mais do que um remake foi um "mashup", termo usado para designar um produto criado como resultado da soma de múltiplas fontes.

Maria Adelaide pegou a novela de Gabus Mendes, incorporou elementos de outra obra do autor, "Plumas e Paetês", de 1980, e ainda "roubou" ideias e personagens de outros trabalhos, como o Mario Fofoca, de "Elas por Elas" (1982).

Sem cerimônia, a autora mudou várias características dos personagens das tramas originais, criou outros tipos e deu destinos diferentes a vários deles. Corajosa, tratou de forma madura de um tema polêmico - os relacionamentos amorosos de um personagem gay - e não teve medo, igualmente, de radicalizar o escracho em torno do núcleo de Jacques Leclair (Alexandre Borges) e Jaqueline (Claudia Raia).

Com a ajuda do diretor Jorge Fernando, não acomodado no papel de mestre das comédias da Globo, "Ti-Ti-Ti" foi entretenimento de ótima qualidade, com os altos e baixos, naturalmente, que uma produção desta natureza sempre tem.

No início da noite, sai uma típica história de Walter Negrão, um triângulo amoroso fundado na disputa de dois amigos de infância (o herói e o vilão) ambientado num cenário paradisíaco, entre dunas, salinas e belas praias. E entra um drama que ousou colocar em primeiro plano diálogos em vez de ação em torno da amizade e da rivalidade de duas irmãs.

A Vida da Gente   - Divulgação/TV Globo - Divulgação/TV Globo
Manuela (Marjorie Estiano), Rodrigo (Rafael Cardoso) e Ana (Fernanda Vasconcellos) em "A Vida da Gente"
Imagem: Divulgação/TV Globo

"A Vida da Gente" é a primeira novela assinada por Licia Manzo, que depois fez "Sete Vidas" (2015) e atualmente escreve "Um Lugar ao Sol", programada para substituir "Amor de Mãe" ainda este ano.

Um resumo da trama seria o seguinte: Ana (Fernanda Vasconcelos) amava o irmão de criação Rodrigo (Rafael Cardoso), engravidou dele, mas entrou em coma e ficou anos em estado vegetativo. Neste meio tempo, Julia nasceu, Manuela (Marjorie Estiano), irmã de Ana, se apaixonou por Rodrigo e os dois criaram a menina. Ana voltou do coma e, junto, reviveu seu amor por Rodrigo. Julia ficou com duas mães. Manu se separou e Ana, culpada, rejeitou o amado.

Com um texto de tirar o chapéu, Licia Manzo não deixa esta história descambar no melodrama. Com muita maestria, ela transforma as conversas entre as irmãs e todas as demais em cenas fortes, e magnéticas.

É uma novela que faz pensar, chorar e, também divertir, mas exige grande atenção do espectador. Não é trama para você deixar a TV ligada enquanto faz outra coisa. É, por isso, uma aposta ousada da nova turma que está assumindo o entretenimento (Ricardo Waddington) e a teledramaturgia (José Luiz Villamarim) da Globo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL