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Mauricio Stycer

Xuxa dá um curso a candidatos à fama ao assumir em público erros do passado

Xuxa. (Foto: Reprodução/Twitter) - Reprodução / Internet
Xuxa. (Foto: Reprodução/Twitter) Imagem: Reprodução / Internet
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

22/01/2021 16h26

Desde a revelação ao "Fantástico", em 2012, de que sofreu abusos sexuais na infância, Xuxa vem divulgando aos fãs uma série de fatos e opiniões que escondeu no período que viveu o auge da exposição pública, entre o final dos anos 1970 e meados dos anos 2000.

Esse processo de revisão existencial e profissional foi coroado em 2020 com o lançamento, em setembro, da autobiografia "Memórias" (GloboLivros) e, em dezembro, do fim de seu contrato de cinco anos com a Record.

Nestes últimos cinco meses, Xuxa deu dezenas de entrevistas a programas de TV, sites, jornais, canais no YouTube, podcasts etc. Em todas, chamou a atenção pelo mesmo motivo: a sinceridade com que reviu fatos do seu passado e se penitenciou por erros.

Neste processo de passar o passado a limpo, me chama muito a atenção o reconhecimento da violência que cometeu ao tirar de circulação o filme "Amor Estranho Amor". Lançado em 1982, o longa-metragem de Walter Hugo Khoury (1929-2003) traz Xuxa no papel de uma jovem prostituta. Em uma cena, nua, ela abraça Hugo (Marcelo Ribeiro), um menino de 12 anos, filho da dona do bordel, Anna (Vera Fischer).

Xuxa cartaz - Reprodução - Reprodução
Cartaz do filme "Amor Estranho Amor", de Walter Hugo Khoury
Imagem: Reprodução

Realizado antes que começasse a trabalhar com crianças na TV, em 1983, Xuxa entendeu que o filme prejudicava a sua imagem. Em um dos cartazes de divulgação, ela aparecia nua, entre Tarcisio Meira e Mauro Mendonça, ambos vestidos de black-tie.

Por mais de duas décadas, Xuxa pagou US$ 60 mil (cerca de R$ R$ 328 mil) anualmente ao produtor, Anibal Massaini, para garantir a não exibição do filme. Foi uma forma de censura à produção. Só em 2018, ela cessou o esforço de impedir a veiculação de "Amor Estranho Amor".

Em julho de 2020, em entrevista a Otaviano Costa, no UOL, ela disse: "Quem não viu, veja o filme. Aquilo é uma ficção, não é a minha realidade." Esta semana, em entrevista à "Veja", Xuxa elaborou melhor.

A revista perguntou: "A senhora conseguiu durante anos evitar a exibição do filme 'Amor Estranho Amor', em que sua personagem seduz um menino de 12 anos. Foi um erro tentar esconder as cenas?"

E ela disse: "As pessoas resumem essa história em uma frase: 'Xuxa é pedófila'. Mas me arrependo, sim, de ter dificultado a exibição, atendendo às recomendações dos meus assessores. Ninguém presta atenção ao fato de que minha personagem, que tinha 15 anos na tela, dois a menos do que eu na época, havia sido comprada pelo dono do prostíbulo e também era vítima. Inclusive, incentivei a Sasha a assistir."

Como se vê, Xuxa coloca parte da responsabilidade pelo seu erro na conta dos seus "assessores". E eu acredito. Ela fala mais sobre as pessoas que trabalhavam para ela - e a orientavam - na entrevista à revista. Primeiro, em resposta a uma questão sobre Marlene Mattos, ela diz:

"Se eu falasse que não fui manipulada, estaria mentindo. Mas preciso deixar claro que eu permiti. Era cômodo ter alguém organizando tudo da minha vida profissional, pessoal e até afetiva. Chegou a um ponto em que ela decidia como eu deveria falar, vestir e até namorar. 'Entre ele e o trabalho, tem que escolher o segundo', dizia. E eu obedecia. Nem eu sei como me sujeitei a tudo isso e por tanto tempo."

Em seguida, o repórter pergunta: "Antes de assumir o controle de sua carreira e negócios, levou muitos golpes?"

Responde Xuxa: "Olha, eu poderia ser duas ou três vezes mais rica. Fui tudo o que as pessoas imaginam: enganada, usada, manipulada, roubada. Quando falo disso, vem logo a imagem da Marlene, mas não foi só ela. Insisto em dizer que confiei demais em todas as pessoas próximas a mim. Fui passada para trás por coreógrafo, maquiador, fotógrafo. Digo, sem vergonha, que fui inocente, boba, burra mesmo."

É fácil colocar a culpa nos assessores - muitos dirão. Mas quem é mais velho e acompanhou Xuxa desde os anos 1980, lembra como ela era tutelada, protegida. Foi uma posição que a apresentadora aceitou, sim, mas talvez não tivesse preparo ou conhecimento para fazer de outra forma.

Em todo caso, esta Xuxa atual, revendo o seu passado em público, funciona como um curso aberto para celebridades. Vale a pena escutá-la para entender os riscos e dificuldades envolvidos na vida de famoso e eventualmente evitar as cascas de banana que aparecem no caminho.