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Mauricio Stycer

"O racismo não existe só verbalizado", diz Babu ao lembrar do "BBB 20"

Babu Santana dá entrevista a Tatá Werneck no "Lady Night" - Reprodução/vídeo
Babu Santana dá entrevista a Tatá Werneck no "Lady Night" Imagem: Reprodução/vídeo
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

20/11/2020 15h25

Talvez não tenha sido dada a devida atenção à entrevista de Babu Santana a Tata Werneck no "Lady Night". Exibida há dez dias, a conversa foi destaque mais pelas piadas do que pelos comentários rascantes do ator sobre a sua participação no "BBB 20".

Em diferentes momentos da conversa, Babu deixou claro que guardou lembranças fortes e negativas da convivência com alguns participantes. "Eu moro na favela. Na favela nasceu o samba, na favela nasceu o funk. Não é porque a gente está ali apertado, oprimido que não tenha felicidade", disse, antes de mencionar um desentendimento com a cantora Manu Gavassi.

"Eu lembro que a gente, uma vez discutindo, eu fui dar um chega pra lá no Pyong e ela tava no meio. E eu falei: 'Desculpe, eu tava falando com o Pyong.' E ela: 'Não, Babu, você não vai me botar contra o Pyong. Porque o Pyong é um homem amável e gentil'. E eu falei: 'Mas eu também sou um homem amável e gentil'. Ao meu modo."

Indicado dez vezes ao paredão, um recorde na história do programa, Babu também comentou ter sentido hostilidade em relação a ele. Lembrou que era criticado por se isolar, mas quando se aproximava percebia que alguns colegas se afastavam dele.

"O racismo não existe só verbalizado. O olho fala muita coisa. Lembro que cobravam muito assim (no BBB): 'Ah, Babu, você se isola'. Ai, eu falei: então vou sentar. Eu sentava e dava cinco minutos (e todo mundo se levantava). 'Ah, vou no banheiro'. 'Ah, vou não sei o quê'. Nunca vi. A gente ali confinado e arrumarem tanta coisa pra fazer".

Questionado sobre Ivy, que votou seguidamente nele, Babu apenas riu. Mas falou com mágoa de Pyong, a quem derrotou num paredão.

"O Pyong eu comecei melhor amigo e depois falei: 'ô, ô, não'. É uma filosofia, um entendimento de vida que não me completa, não me interessa", disse. "Foi o único rancor que eu guardei daquela casa. Eu falava: 'O Prior tá louco. O cara não me chamou de fraco em rede nacional'. Aí quando eu vi, aqui fora, pensei: que (palavrão). Tô falando do jogo, Pyong. Beijo pra você."

O ator também demonstrou conhecimento sobre o que aconteceu no "BBB 19", uma edição marcada por comentários de cunho racista e intolerância religiosa, que foi vencida por Paula Sperling: "Quando começou o 20, o público já começou com uma dívida. E que bom que essa dívida foi paga com a vitória da Thelminha".

Disse ainda Babu: "Quem é preto periférico está sempre falando sobre isso. Porque a todo momento a gente tá deparando com alguma desvantagem. A todo momento a gente está esbarrando com essa palavra, a tal da meritocracia. Você nasceu preto fora da África. Você está fadado a fazer uma série de discussões sociais, raciais, culturais".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL