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Mauricio Stycer

Autora pediu "total liberdade de criação" para fazer série sobre Marielle

A roteirista e diretora Mariana Jaspe - Reprodução / You Tube
A roteirista e diretora Mariana Jaspe Imagem: Reprodução / You Tube
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Mauricio Stycer

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Adeus, Controle Remoto" (editora Arquipélago, 2016), "História do Lance! ? Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo? (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011). Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Colunista do UOL

30/10/2020 18h58

A escolha de duas autoras para comandar a chamada "sala de roteiro" do projeto de série de ficção sobre Marielle Franco (1979-2018) chamou a atenção por um detalhe. Mariana Jaspe, que acaba de assumir a função junto com Maria Camargo, fazia parte do grupo de quatro roteiristas que se demitiu do projeto há duas semanas.

Como noticiado, os quatro roteiristas pediram afastamento por divergências com José Padilha e Antonia Pellegrino, da produtora Antifa, idealizadores do projeto. Nas discussões iniciais de conceituação da história, os autores manifestaram temor que o papel das milícias se sobressaísse demais e tirasse o protagonismo de Marielle.

O projeto tem coprodução do Globoplay e ainda está em fase muito inicial. Nenhum capítulo ainda está completamente escrito

Ao voltar a fazer parte do projeto, mas agora na condição de "liderança criativa", Mariana Jaspe publicou uma carta no site Mundo Negro, na qual detalha o processo.

Maria Camargo - Divulgação / Globo - Divulgação / Globo
A roteirista Maria Camargo, autora das séries "Dois Irmãos" e "Assédio"
Imagem: Divulgação / Globo

"Sobre minha autoria na série sobre Marielle Franco ao lado de Maria Camargo. Fiz parte da sala anterior e meu retorno se deu unicamente por ser junto com Maria - minha mentora, pessoa por quem tenho imenso respeito, amor e, principalmente, por termos uma relação de muita confiança mútua", diz ela, inicialmente.

Mariana trabalhou na equipe de Maria no desenvolvimento para a Globo da série baseada no livro "Um Defeito de Cor", um épico escravagista, com previsão de estreia em 2021.

Em seguida, a roteirista diz claramente qual foi a condição fundamental que exigiu para aceitar o trabalho: "Mas, para além do afeto, é preciso ser pragmática: aceitei o desafio porque nos foi garantida total liberdade de criação e condições reais de autoralidade. Chego para ocupar de fato um lugar de liderança criativa - tão fundamental em um projeto como esse."

Mariana Jaspe diz ainda: "Conversamos também com a Antifa e o Globoplay e combinamos um processo de troca com muito debate e respeito no relacionamento."

E, com muita franqueza, observa: "Acredito que mais importante que poder dizer sim, é poder dizer não e diremos tantos quanto forem necessários para contar a história de Marielle e Anderson - não escreveremos sobre o que não acreditamos. Meu posicionamento em todas as instâncias é de que não estou aqui para cumprir um papel figurativo - Token só o da senha do banco."

Marielle Francos - Reprodução - Reprodução
A vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018
Imagem: Reprodução

Na carta que divulgou sobre a sua volta ao projeto de série sobre Marielle, ela diz ainda: "O que eu e Maria nos dispomos a fazer é colocar a mão na massa, confrontar a folha em branco - que é nosso ofício - e trabalhar duro para escrever uma história que não seja apenas poderosa, mas também esteja a serviço do legado de Marielle".

E ainda: "Sua morte é uma ferida ainda aberta e, uma vez que a série irá acontecer, é preciso que o recorte sobre sua vida faça jus a quem ela foi e seguirá sendo. Sei que não será um trabalho simples, mas qual processo criativo é? Desejo muito e coloco toda minha força, intuição, técnica e disposição para que Dona Marinete, Seu Antônio, Luyara, Anielle, Monica e Agatha se sintam respeitadas. E, por se tratar de uma obra de ficção, que uma senhorinha lá no interior da Bahia assista e diga: Eita, que série massa!"