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Mauricio Stycer

Governante responder a paródia de humorista é muita falta do que fazer

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

08/09/2020 06h01

Vou comentar uma notícia tão surpreendente que parece piada: o governo foi às redes sociais responder a um quadro de humor de um comediante. Sim. O secretário de Cultura e a Secretaria de Comunicação do governo federal reagiram indignados a uma paródia de Marcelo Adnet no quadro Sinta-se Em Casa, que vai ao ar no Globoplay e no Encontro com Fatima Bernardes.

Tudo bem um governante não gostar de ser alvo de piada. Acho compreensivo. Mas passar recibo em público é péssimo. Primeiro, porque é uma demonstração de mau humor, é coisa de gente ranzinza. Segundo, porque pode soar como ameaça, o que é antidemocrático.

Humor é oposição, humor é resistência... E fazer imitações e piadas com os poderosos é meio que obrigatório.

O presidente Bolsonaro tem inspirado todo o tipo de imitação. Algumas até favoráveis a ele, como a feita por Carioca na Record. Outras são críticas, mas suaves, como as de Tom Cavalcanti no Mutlishow e Alexandre Porpetone na Praça é Nossa. E tem as mais cáusticas, como as de Marcelo Adnet no Sinta-se em Casa, Fernando Caruso no Zorra.

A ex-presidente Dilma foi outra que inspirou muitas imitações e piadas. A mais famosa, de Gustavo Mendes, foi ao ar no Casseta & Planeta Vai Fundo. Mas também teve Fabiana Karla no Zorra Total, Carioca no Pânico e Porpetone na Praça.

Lula ganhou uma imitação famosa de Bussunda no Casseta & Planeta. Aliás, o humorístico da Globo, enquanto esteve no ar, sempre fez muita piada com os presidentes. Reinaldo fazia uma imitação impagável de Itamar Franco e Hubert encarnava Fernando Henrique Cardoso.

Durante a ditadura militar, os humoristas não podiam ser tão explícitos, senão iam presos. As piadas tinham que ser mais sutis, com duplo sentido. Mas no final do regime militar, até um presidente que não era exatamente bem-humorado, como o general Figueiredo, achou graça da piada que Chico Anysio fazia com ele por meio da gaúcha Salomé. Muitos anos depois, em 20-11, Chico retomou a personagem Salomé, então telefonando para Dilma.

Quando um governante perde tempo respondendo a humorista é porque parece estar sem foco. Sem dúvida que tem cosias mais importantes com que se preocupar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL