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Caetano: "Eu sou menos liberaloide do que era há dois anos"

Caetano Veloso fala sobre o filme "Narciso em Férias" no "Conversa com Bial" - Reprodução
Caetano Veloso fala sobre o filme "Narciso em Férias" no "Conversa com Bial" Imagem: Reprodução
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

05/09/2020 12h36

Caetano Veloso deu uma longa e instrutiva entrevista ao programa "Conversa com Bial" nesta sexta-feira (04). O tema foi o lançamento do documentário "Narciso em Férias", no qual se recorda dos 54 dias que passou preso entre 27 de dezembro de 1968 e 19 de fevereiro de 1969, por obra da ditadura militar.

Gravado pelos cineastas Renato Terra e Ricardo Calil antes do segundo turno da eleição presidencial de 2018, ao longo de dois dias, o depoimento de Caetano acabou dando corpo ao filme, que será exibido nesta segunda-feira (07) no Festival de Veneza e, em seguida, na Globoplay.

A experiência na prisão está relatada com bastante detalhes em um capítulo do livro "Verdade Tropical", intitulado justamente "Narciso em Férias", publicado em 1997. A editora Companhia das Letras vai relançar em outubro, em forma de livro, este capítulo das memórias de Caetano.

O "Conversa com Bial" teve três números musicais emocionantes, nos quais Caetano cantou músicas relacionadas à experiência que viveu na prisão: "Hey Jude", dos Beatles, "Terra" e "Irene", de sua autoria.

Bial quis saber se "o momento político" teve peso na decisão de falar aos cineastas sobre a experiência na prisão. Caetano disse que não. E explicou:

"Acho que é uma conversa oportuna. Inclusive para muita gente jovem, que não viveu o período da ditadura e que às vezes pode ser conquistada por esse mito de que era melhor", disse.

"Esse aspecto mais conservador e reacionário da população brasileira que está se manifestando muito agora, numericamente e também em intensidade, não se inclina tanto a elogiar o período da ditadura ou dizer que sente saudades, mas há gente que faz isso", prosseguiu.

"E uma minoria faz demonstrações públicas, pedindo a volta do AI-5. Aquilo me dói muito. O AI-5 saiu, com assinatura de Delfim Netto e todo mundo mais, e duas semanas depois fomos presos. Foi uma consequência imediata do AI-5", concluiu.

Na passagem mais quente da entrevista, o programa exibiu um trecho do filme de Terra e Calil no qual Caetano lê e comenta o que o prontuário militar dizia sobre ele em 1968. Ele era acusado de ser "cantor de músicas de protesto, de cunho subversivo, e desvirilizante". Dizia ainda o texto que "ataca o regime e exalta os sistemas socialistas".

Caetano comenta no filme: "Olha, desvirilizante, legal. Gostei. Subversivo e desvirilizante é uma combinação que tem a ver comigo. Eu sou essa pessoa. Tá certo. Agora 'exalta os sistemas socialistas', não. Nunca exaltei. Nem quando tinha 15, nem 17, nem 23 nem 34. Nunca exaltei. Sempre odiei."

Ao voltar para a entrevista com Bial, Caetano, então, observa que não concorda mais com aquele comentário feito dois anos atrás.

"Achei engraçado eu me ouvindo, isso foi gravado há pouco tempo. E eu digo que nunca louvei em nenhuma medida nenhum Estado socialista, o que é verdade. Hoje eu tendo mais a respeitá-los, pelo menos. Eu mudei quanto a isso. Eu sou menos liberaloide do que eu era até dois anos atrás."

Bial pergunta: "Não seria apenas uma formação reativa ao atual estado de coisas?"

Caetano responde: "Poderia ser, mas não foi isso. Foi uma revisão da história do liberalismo, que me atraia muito mais antes de eu encontrar essa revisão, que me foi muito convincente", diz.

"Tive contato com essas críticas, com essas leituras da história do liberalismo através de um moço de Pernambuco, que se chama Jones Manoel. Ele cita um autor italiano, chamado Domenico Losurdo, autor de uma contra-história do liberalismo, e tem um livro sobre as visões modernas da crítica ao liberalismo. É muito inteligente", prossegue.

"Eu sou outra pessoa. Não sou mais aquele rapaz que há dois anos falou 'eu sou liberal, não admito nada de país socialista'. São dois anos, eu tenho 78 anos, mas houve uma mudança deste tamanho. Eu não atribuo apenas como uma reação ao mundo muito reacionário, uma reação à reação que se instaurou no Brasil. É uma questão de desenvolvimento intelectual mesmo".

Animado, Caetano avança fazendo uma crítica a Bial: "Vou ser mil por cento sincero com você. Quando ouço pessoas como você e outras dizendo: 'o comunismo e o nazismo são igualmente horríveis, são autoritarismo'. Essa equalização das experiências socialistas com o nazismo eu não engulo mais. Não gosto mais. 'A extrema esquerda é igual à extrema direita'. Não acho mais. Não consigo", diz.

E explica: "Mas não é por causa de como o Brasil ficou. Já fui preso, já vivi a ditadura militar e não pensei isso. Eu saí da ditadura militar pensando: 'eu sou liberal'. Mesmo sendo preso, exilado. Mas, agora não. Eu li Losurdo..".

Neste momento, Caetano olha para o lado e comenta: "Pessoal tá mandando eu ficar mais calmo aqui. Eu tô calmo".

E conclui: "Mas deu para você entender que é um passo intelectual da minha vida. Darei outros. Pode ser até que as coisas que eu mais admiro no liberalismo voltem com mais força tendo eu passado por isso. Vamos ser um pouco dialéticos. Mas, no momento, eu vou dizer: eu sou diferente do que eu era há dois anos."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL