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"Senti o vírus dentro de mim", diz médico que é consultor de Sob Pressão

O médico Marcio Maranhão (à dir.) orienta o ator Julio Andrade durante a gravação de uma cena de "Sob Pressão"  - Mauricio Fidalgo/ Rede Globo
O médico Marcio Maranhão (à dir.) orienta o ator Julio Andrade durante a gravação de uma cena de "Sob Pressão" Imagem: Mauricio Fidalgo/ Rede Globo
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

24/08/2020 05h00

No primeiro episódio de "Sob Pressão", exibido em 2017, o médico Evandro (Julio Andrade) se vê sem drenos para colocar em uma paciente na mesa de cirurgia. Ele então recorre a um pedaço da mangueira utilizada para limpeza. Na definição bem-humorada dos próprios roteiristas, o protagonista é uma espécie de "MacGyver do SUS".

O episódio foi vivido na realidade pelo cirurgião torácico Marcio Maranhão e está descrito em "Sob Pressão - A Rotina de Guerra de Um Médico Brasileiro" (Globo Livros, 136 págs.). O livro condensa sua experiência de 15 anos em hospitais públicos no Rio e deu origem, inicialmente, a um filme, dirigido por Andrucha Waddington em 2016 e, em seguida à série da Globo em parceria com a Conspiração.

Desde o início, Maranhão atua como consultor da série, tanto da equipe de roteiristas quanto da produção. Ajuda os autores a descreveram corretamente situações médicas e orienta o diretor e os atores a encenarem procedimentos e a utilizarem corretamente equipamentos hospitalares.

Durante a pandemia de coronavírus, Maranhão tem se desdobrado entre a atuação em um hospital de campanha no Parque dos Atletas, no Rio, e o apoio à equipe que está escrevendo e gravando o especial "Sob Pressão - Plantão Covid".

O médico contraiu a covid-19 e se recuperou. Mas ainda sente os efeitos da doença. No depoimento abaixo, que deu ao UOL, Maranhão fala da sua paixão pela medicina, da importância do SUS, da experiência na pandemia e da série da Globo:

"Estou vivendo no front. Fazendo uma ponte. A pandemia está acontecendo e a gente está retratando histórias que estão acontecendo. E estou vivendo essas histórias diariamente. E trouxe isso para o roteiro e estou trazendo para as filmagens.

Estou no enfrentamento dessa pandemia há mais de cinco meses, desde o início de março. Estou num hospital de campanha da iniciativa privada, da Rede D´Or com parceria público-privada.

Eu me voluntariei para o trabalho. Porque a pandemia trouxe para os profissionais de saúde essa oportunidade de se sentir mais relevante no front. A pandemia revelou muitas coisas, entre elas o significado maior da profissão, que é você cuidar, atenuar, tratar, amparar, toda a dimensão do cuidado potencializado de uma forma que eu nunca tinha experimentado na minha profissão.

A primeira fase foi de muita perplexidade, medo, frente ao desconhecido, frente a um vírus que a gente não conhecia, não dominava, altamente contagioso. E você sendo o soldado.

Minha primeira experiência com o vírus foi dentro de uma roupa de astronauta... Você viu aquele filme 'Contágio'? Entrei num CTI para fazer uma traqueostomia num paciente e eu escutava a minha respiração dentro daquela roupa. Eu tinha a visão obnubilada, uma visão turva. Não escutava direito, porque era o som da minha própria voz bloqueando o som externo. Eu tinha duas luvas. Minha primeira percepção foi que eu estava enfrentando o inimigo com os meus sentidos todos bloqueados: a visão, o olfato, a audição, o tato, o rosto. Impressionante você ir para a guerra, enfrentar o inimigo, usando uma armadura que serve para te proteger, mas ao mesmo tempo te coloca privado dos sentidos, das suas percepções. Foi a minha primeira experiência de encarar o vírus de frente.

O segundo momento é o enfrentamento. Dar plantão. O desconforto permanente que é trabalhar privado das relações familiares, do contato físico, com esses equipamentos de proteção individual, que cobram um preço muito alto. Porque te protegem, mas ao mesmo tempo te extenuam. É muito desconforto. Para ir ao banheiro você tem que se desparamentar, se paramentar e o medo de se contaminar...

Adoeci, tive covid. A terceira fase seria a do adoecimento, das consequências disso. Você está tão próximo do vírus, tão próximo daquelas histórias, que você fica íntimo da doença. E você baixa a sua guarda, não só pelo fato de estar extenuado, mas por achar que, de certa forma, a sua função é nobre e você é onipotente. É aí que o vírus te derruba. A gente não tem essa onipotência toda. Eu sou um profissional de saúde como outro qualquer. E adoeci. Quando eu negligenciei um pouco a minha própria segurança, dado o meu cansaço, dado o meu contato íntimo com o vírus diariamente, adoeci.

Fiquei 14 dias doente, sendo dez dias não gravemente doente. Eu tive 25% de comprometimento pulmonar. Tive cansaço, tosse, febre, fadiga, febre, fiquei acamado sem conseguir sair da cama. E senti o vírus dentro de mim.

Fui para a Emergência duas vezes hidratar, fazer angiotomografia, porque havia preocupação com comprometimento pulmonar, mas não precisei ser internado. Tive uma forma branda.

Fiquei isolado dez dias num hotel. Perdi a capacidade de cuidar de mim mesmo. E continuei com uma síndrome pós-covid que é muito comum, que é a síndrome de fadiga. Você volta ao trabalho após 14 dias, mas o seu corpo ainda está com o coronavírus, Emagreci seis quilos. Vivi a doença, assustado, não por mim, mas pelo fato de poder adoecer alguém.

Acho que a pandemia foi o ápice da minha carreira como cirurgião torácico. Porque me vi ali como profissional da saúde na nona potência.

A gente aprendeu o manejo, aprendeu a cuidar melhor. Trouxe para a série elementos do começo, deste medo, e também alguns conhecimentos, que a gente foi aprendendo ao longo da pandemia. Uma das coisas é colocar o paciente de barriga para baixo.

Gostaria de dizer que, apesar de a gente ter um SUS com enorme deficiência, da corrupção na saúde pública, que mata tanto quanto o vírus, queremos trazer alguma esperança. Como dizia Ariano Suassuna, não sou otimista nem pessimista: sou um realista com esperança. Vivo a realidade sempre com esperança.

Vi muitos doutores Evandro, Carolina, Décio, comprometidos com os doentes, totalmente dissociados da corrupção, da falta de comprometimento com a vida.

Essa banalização das mortes é uma falta de compromisso com a vida. Fui muito privilegiado de poder estar exercendo a minha profissão junto com outros colegas que lutam para defender e valorizar a vida e a saúde pública. Me emociona estar falando disso. Porque "Sob Pressão" tem os nossos personagens, mas tem a saúde pública como protagonista.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL