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Mauricio Stycer

No "novo normal", Zorra retorna rindo de Bolsonaro e do "espírito reaça"

Tomado pelo "espírito reaça", um homem (Diogo Vilella) é exorcizado pelo professor de história (Fernando Caruso) no "Zorra" - Reprodução
Tomado pelo "espírito reaça", um homem (Diogo Vilella) é exorcizado pelo professor de história (Fernando Caruso) no "Zorra" Imagem: Reprodução
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

16/08/2020 00h39

Com duas novidades de peso, as presenças de Marisa Orth e Diogo Villela, o "Zorra" estreou neste sábado (15) uma nova safra de programas inéditos fazendo o que sabe melhor: rir da realidade.

A nova temporada estreou um dia depois do anúncio de que Marcius Melhem, de comum acordo com a Globo, está deixando a emissora após 17 anos.

Coube a Melhem, entre outras missões espinhosas e realizações notáveis, a tarefa de terminar com o "Zorra Total" (1999-2015) e criar um novo humorístico, rebatizado apenas como "Zorra". Lançado em maio de 2015, ele mostra agora, ao chegar à sexta temporada, que continua com o espírito de sempre, bem-humorado, mas crítico e contundente.

Segundo a Globo, a atual safra mistura quadros gravados no início do ano, pré-pandemia, com novas cenas, realizadas na casa dos atores e em cidades cenográficas, com equipes reduzidas, seguindo os protocolos de segurança.

O "Zorra" já disse a que veio na abertura do primeiro episódio, um número musical parodiando a canção "Do Leme ao Pontal", de Tim Maia. "O novo normal! Não tá mais legal", cantaram os atores. "Presidente tá nervoso. Pegando fogo. Surta. Fala besteira".

Logo em seguida, num esquete sobre a gravação de um filme de guerra, o personagem vivido por Paulo Vieira riu do absurdo de uma situação comum. "Mais um filme em que o preto morre primeiro. Vocês não têm criatividade?", reclamou o figurante ao tombar no set de gravação.

E desabafando com o diretor do filme (Diogo Villela), ele discursou: "Jurassic Park? Quem morre primeiro? O primeiro que o dinossauro abocanha? O preto. E a dinossaura nem enxerga, mas ela acha o preto", diz.

E prosseguiu: "Filme de terror. Primeiro a morrer, pode ter certeza, é o único preto do filme. O cara é atleta e não corre do assassino. A loirinha corre o filme inteiro. Aí eu fico pensando. Até nos Gremlins isso acontece. Já levei facada em prisão, tiro em favela, muito, já morri até de sniper com guarda-chuva na mão. Aí eu fico chateado".

O protesto foi emendado com a entrada em cena do presidente Bolsonaro, na imitação de Fernando Caruso: "Tanto me criticaram porque eu não usei máscara e todo mundo sem máscara na cena, Rede Globo. Patifaria. A máscara que caiu foi a de vocês. E a aglomeração nisso daí. Tá mais cheio que de militar no meu governo. Até o Queiroz em casa e vocês gravando na rua. Hipocrisia isso daí", discursou.

À maneira do "militante revoltado" do "Tá no Ar", que criticava o próprio programa, o "Zorra" estreou um personagem novo, o Espectador, vivido por Antônio Fragoso, que odeia o humorístico. "Vou ver para falar mal", avisa.

No esquete mais provocador, um homem em surto (Diogo Vilella) está na cama, amarrado, gritando coisas como: "Atira na cabecinha! Nunca existiu ditadura! Nunca!". Chega o exorcista. "Padre, ajuda a gente", pede a filha. "Eu não sou padre", ele responde. "Eu sou professor de história".

Na sequência, o Espectador reaparece e explica: "Quando você quiser virar esquerdista, você vem assistir o 'Zorra' comigo. Ô programinha cheio de mensagem subliminar, esquerdista".

Foi, enfim, uma estreia afiada, que deixa no ar a expectativa de que, apesar da saída de Melhem, o programa seguirá com o espírito das cinco temporadas anteriores. Tomara.