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JN critica Bolsonaro e questiona se ele cumpriu a Constituição sobre saúde

William Bonner e Renata Vasconcellos na edição do JN que registrou as 100 mil mortes por covid no Brasil - Reprodução
William Bonner e Renata Vasconcellos na edição do JN que registrou as 100 mil mortes por covid no Brasil Imagem: Reprodução
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

08/08/2020 21h27

Após algumas edições sem dedicar maior destaque à pandemia de coronavírus, o "Jornal Nacional" voltou a dar prioridade ao assunto neste sábado (08), dia em que o Brasil totalizou mais de 100 mil mortos pela covid-19.

Mais que o espaço generoso, o JN chamou a atenção pelo tom crítico em relação ao presidente Jair Bolsonaro. Já nas chamadas iniciais, os apresentadores William Bonner e Renata Vasconcellos fizeram um rápido jogral com o objetivo de sublinhar a omissão do governo:

"Os registros oficiais da pandemia totalizam mais de 100 mil mortes no Brasil".
"Mais de 100 mil vidas perdidas no intervalo de 20 semanas".
"O Congresso Nacional decreta luto oficial".
"O Supremo Tribunal Federal decreta luto oficial".
"O Palácio do Planalto não adota medida".

Na abertura do primeiro bloco, por mais de quatro minutos, o JN adotou um tom editorial para criticar a inação governamental.

Começou Bonner: "Todo cidadão brasileiro tem direito à saúde. E todos os governantes brasileiros têm a obrigação de proporcionar para os cidadãos esse direito. As ações dos governantes precisam ter como objetivo diminuir o risco de a população ficar doente. E não somos nós que estamos dizendo isso. É a Constituição brasileira que todas as autoridades juraram respeitar. Está registrado no artigo 196."

JN Constituição - Reprodução - Reprodução
Tela do JN que destacou o conteúdo do artigo 196 da Constituição
Imagem: Reprodução

Disse Renata: "Mas o Brasil está há 12 semanas sem um ministro da saúde titular. São 85 dias desde 15 de maio. Dois médicos de formação deixaram o cargo porque pretendiam seguir a orientação da ciência. E o presidente Bolsonaro não concordou com essa postura."

Criticou Bonner: "Primeiro, o presidente menosprezou a covid. Chamou de 'gripezinha'. Depois, quando um repórter pediu que ele falasse sobre o número alto de mortes, Bolsonaro disse que não era coveiro. Disse duas vezes: 'não sou coveiro'. Quando os óbitos chegaram a 5 mil, a resposta dele a um repórter foi: 'E daí?' Agora o presidente repete que a pandemia é uma chuva e que todos vão se molhar. Ou que a morte é o destino de todos nós e que temos que enfrentar. Como se fosse uma questão de coragem, como se nada pudesse ter sido feito".

O telejornal criticou, então, Bolsonaro por se colocar contra as medidas de isolamento social. "Os brasileiros viam o presidente criticar essa iniciativa diariamente, na contramão do bom senso daqueles governadores que a defendiam. O resultado disso foram a confusão e a perplexidade de muitos cidadãos que ficaram sem saber em que acreditar. E o isolamento capenga, insuficiente para atingir plenamente o seu objetivo".

Foi, então, que Renata questionou se o presidente cumpriu o que diz a Constituição: "Nós já mostramos o que diz o artigo 196: é dever das autoridades que governam o país implementar políticas que visem a reduzir riscos de doenças. E a pergunta que se impõe é: o presidente da República cumpriu esse dever? Entre governadores e prefeitos, quem cumpriu? Quem não cumpriu? Mais cedo ou mais tarde o Brasil vai precisar de respostas pra essas perguntas. É assim nas democracias e nas repúblicas: todos temos direitos e deveres. E onde ninguém está acima da lei."

Ao final do longo editorial, Bonner disse: "Nós não podemos nos anestesiar". E Renata completou: "Cem mil pessoas. Nós reconhecemos a dor de todos que perderam alguém querido na pandemia. Nós respeitamos essa dor. E manifestamos a nossa solidariedade irrestrita com cada um."

Desde a última segunda-feira (03), houve uma redução abrupta no destaque e no espaço que o JN vinha dando à cobertura da pandemia. De 30 minutos diários de reportagens, o espaço caiu para 10 minutos. Em alguns dias, não houve menção ao assunto na abertura do telejornal.

Neste sábado, tendo a marca dos 100 mil mortos como assunto principal, o JN voltou a tratar a pandemia como principal assunto. Ela foi tema de reportagens em todos os blocos e totalizou 38 minutos do telejornal.

Abaixo, o editorial do JN:

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL