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Marco Pigossi conta como virou espião inglês em série espanhola da Netflix

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

05/08/2020 05h01

O ator Marco Pigossi é um dos protagonistas da terceira temporada de "Alto Mar", série espanhola que estreia nesta sexta-feira (7) na Netflix. É o segundo trabalho dele para o serviço de streaming desde que, no final de 2017, deixou a Globo, onde atuou por mais de uma década como galã de novelas.

Vivendo atualmente em Los Angeles, o ator aparecerá este ano ainda em "Cidade Invisível", uma outra série da Netflix. Em entrevista exclusiva ao UOL, Pigossi fala da carreira internacional. Ele atuou na série australiana "Tidelands" (2018), falando em inglês, e agora está em "Alto Mar" falando em espanhol.

Não tenho a menor vontade de perder o meu sotaque. Acho que sempre vou ser um ator brasileiro, né? E a gente vê muitos atores interessantes aí fazendo isso. Antonio Banderas, Javier Bardem, o próprio Wagner Moura, mas tem alguns testes que pedem personagens americanos

Pigossi guarda boas lembranças do papel de Zeca, um dos protagonistas de "A Força do Querer", que a Globo voltará a exibir este ano. Mas explica por que, apesar do carinho por sua trajetória em novelas, hoje prefere atuar em séries.

Estou sempre buscando personagens interessantes. O que acontece nesse momento, é que estou mais interessado no formato séries, ou longas e filmes. Pra mim, foi essencial na minha carreira ter passado por esses anos de novela, eu admiro muito novela, eu amo novela, mas esse momento eu estou mais interessado em focar em outras coisas.

A entrevista pode ser vista no vídeo acima ou na transcrição dos principais trechos abaixo:

Pigossi em Alto Mar - Reprodução - Reprodução
Jon Kortajarena, Ivana Baquero e Marco Pigossi nas gravações da terceira temporada de "Alto Mar"
Imagem: Reprodução


Conte um pouco como você foi parar em "Alto Mar" (em espanhol "Alta Mar"). É a terceira temporada.
Marco Pigossi:
Isso vem totalmente ao encontro do que eu estava buscando, né? De buscar o mercado internacional nesse sentido, de ter novas experiências em outras línguas e outras coisas. Quando acabou o meu contrato com a Globo e comecei a minha parceria com a Netflix, a gente conversou sobre o espanhol. Que o espanhol seria uma língua interessante que eu falasse, dominasse, em função do mercado. É o segundo maior mercado, a segunda língua mais falada. E o português acaba sendo meio restrito em algumas situações, né? Porque a gente tem pouquíssimos países que realmente falam português. Então comecei a me dedicar ao espanhol, há uns três anos.

Quando fui para Austrália fazer "Tidelands", já estava estudando o espanhol. E a gente tinha essa conversa com a Netflix, até que surgiu essa oportunidade. Eles me mandaram um e-mail, perguntando o que eu pensava da série. Eu gosto muito da série. Acho ela muito interessante. A proposta é muito interessante, né? De tudo se passar dentro de um navio. Então fiquei super-interessado, claro. Acabei fazendo uns testes, algumas reuniões com os produtores, e fui convidado para fazer essa terceira temporada. A terceira temporada é o encerramento da história. Então a série foi renovada para a segunda, e agora para terceira, e a gente encerra a história. Então o meu personagem entra para dar esse fechamento. Encerrar a história da série, né?

$escape.getH()uolbr_geraModulos('embed-foto','/2020/pigossi-em-alto-mar-1596568903902.vm') Cada temporada é uma viagem do navio, né?
Cada temporada é uma rota.

Acontecem crimes dentro do navio, né?
Exatamente. Eu falo que é uma mescla de "Titanic", porque é de época, né? A série se passa nos anos 40. Agora nos anos 50, essa terceira temporada. E é uma mescla de "Titanic" com Agatha Christie. Que aí a primeira temporada tem um assassinato no navio, né? Uma pessoa é jogada fora do barco, e eles vão investigar o que aconteceu. A segunda temporada é ao contrário, algumas pessoas entram no barco e trazem um monte de mistério.

E a minha, que é a terceira e última temporada, um cientista maluco entra com um vírus mortal, que coincidentemente estamos vivendo uma coisa semelhante nesse lugar, temos um vírus aí espalhado. Isso é uma coincidência completamente maluca. Ninguém nunca pensou que a gente ia chegar nesse lugar, na vida real. E aí o meu personagem é um espião. Ele trabalha para o serviço de inteligência do governo britânico, e ele entra para buscar esse cientista, e tentar capturar esse vírus. E aí muita coisa vai acontecer.

E o que você chama de barco, na verdade é um navio de cruzeiro, gigante, de luxo.
É, é que a gente fala espanhol 'La barca', né? É um navio! É um cruzeiro como era o Titanic, né? E a experiência de gravar foi incrível, porque na verdade é um set completamente controlado, né? Todo o navio é construído em um estúdio, cerca de uma hora de Madri, que é um espetáculo, assim de ver e de conhecer o estúdio. É incrível! E eles tem um navio inteiro lá, tudo. As cenas externas, claro a gente grava na parte externa do estúdio. Tem a proa, tem tudo do navio, e o fundo verde do croma que eles aplicam depois. Mas é uma estrutura assim impecável de trabalhar e conhecer! Eu amei a experiência!

Pigossi em Tidelands  - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Marco Pigossi em cena da série australiana "Tidelands"
Imagem: Reprodução/Instagram
Então, só para quem não está acompanhando a carreira internacional do Marco Pigossi, ele estreou em "Tidelands", que foi a primeira série da Netflix feita na Austrália. Foi só uma temporada. Uma coisa que chamou muita atenção é que você atuou falando em inglês.
Exatamente. Esse para mim tem sido o grande desafio da minha carreira internacional, né? Porque são duas etapas, né? Além de você dominar a língua, e trabalhar a língua, e ser compreendido mesmo que você tenha um sotaque, né? Ainda depois, você tem que criar um personagem em cima e fazer um personagem. Então esse tem sido a grande coisa que tem me deixado extremamente animado com esse desafio, né?

Aí você fez "Cidade Invisível", que é uma série brasileira, né? Você pode falar um pouquinho o que é?
Claro! A "Cidade Invisível", isso também foi desde que comecei a conversar com a Netflix, sempre tive muita vontade de fazer uma coisa que fosse nossa. Da nossa história, que fosse brasileira e que a gente conseguisse levar isso para mais de 190 países, né? E eles me colocaram em contato com o Carlos Saldanha. Calos Saldanha é o diretor de todas essas animações indicadas ao Oscar, como "Rio", "A Era do Gelo", "O Touro Ferdinando". É um cara brilhante! É um ser humano espetacular assim. É um cara que virou meu amigo pessoal para vida. E ele tinha esse projeto, que a gente vai falar de folclore brasileiro. Não é uma série de animação. É uma série de live action, normal, tudo real.

Só que chama "Cidade Invisível" e a história é mais ou menos essa: é um detetive, que ele começa a enxergar essas criaturas dessa cidade invisível, onde essas criaturas do folclore vivem. E elas vão ajudar essa pessoa a salvar, ajudar a natureza. A preservar a natureza e uma área especial. Então é uma história muito bacana. Acho que é uma coisa que tem tudo a ver com a gente né, para levar um pouco da nossa história, do nosso folclore para o mundo. E comecei a gravar o ano passado.

Gravei antes de "Alta Mar", mas ela vai estrear um pouquinho depois, porque é uma série que tem mais efeito especial. É uma série que precisa de uma pós-produção um pouco mais longa, nesse sentido. E ela vai estrear em outubro. A gente ainda não tem a data definida, mas outubro estreamos "Cidade Invisível", a minha primeira série brasileira da Netflix.

Vamos voltar então um pouco a "Alto Mar", que está estreando daqui a pouquinho, dia 7 de agosto. Como foi a tua interação com os atores? O elenco é formado basicamente por atores espanhóis, ou que falam a língua espanhola, né?
Eles são todos espanhóis, acredito. Ah não, tem um ator argentino maravilhoso, que faz o capitão. Mas é tudo em espanhol. É um desafio assim.

Como foi para você, um brasileiro ali?
Super bem. Super bem. Tenho que agradecer muito ao elenco e à direção. Eles foram muito parceiros nesse lugar. Porque claro, por mais que você domine a língua sempre tem uma barreira, não só linguística como cultural, né? Que é interessante saber. Então muitas coisas eu não conhecia como funcionava em um set. Ou uns termos específicos também, né? A gente acaba ficando assim. Então tive um apoio muito grande de todo o elenco. Principalmente da Ivana.

Ivana Baquero, que é a atriz que fez "O Labirinto do Fauno", que ela era pequenininha. E ela é protagonista agora da "Alta Mar". Ela é uma grande atriz, e a gente tem uma parceria na série, né? Os personagens se tornam parceiros, e parceiros românticos nesse sentido. E ela foi de uma gentileza sem tamanho. Me ajudou muito, me colocou a par de tudo, de como funcionava, de como tinham sido as primeiras temporadas, e etc.

Então foi uma troca muito bacana assim. É super interessante você chegar, e trazendo uma bagagem de outro lugar. Então muitos deles conheciam novelas brasileiras, e também eles têm uma curiosidade de como funciona, né? O nosso mercado, o mercado no Brasil, os filmes que eles conhecem brasileiros. A gente como consome as novas séries espanholas, né? Então isso tudo é muito bacana, gera muita troca, né? Gera muito crescimento. Isso que é legal!

E você atualmente morando em Los Angeles, o que você está fazendo? Como é a vida de um ator brasileiro, batalhando pela sua carreira em Los Angeles? O que você conta? Como é?
Isso tudo foi mais ou menos por acidente assim! Que a coisa aconteceu! Venho para cá todo ano, para a "pilot season", que é a temporada de testes que eles fazem. Tem uma temporada de pilotos, né? Então mais ou menos nessa época do ano, em fevereiro, eles começam todos os testes, e as pré-produções de todas as séries que vão rolar durante o ano. Então é uma coisa que fiz nos últimos três anos. Quando comecei "Tidelands" vim para cá, fiz uma porção de testes, conheci algumas pessoas, peguei um agent, manager, fechei... Ano passado vim para cá, fiz uns testes, algumas coisas rolaram, mas eu não tinha agenda. Porque eu já tinha "Alta Mar" e "A Cidade Invisível", então não tinha tempo para gravar.

E esse ano, pela primeira vez vim para pilot season, para ficar 30 dias com agenda. Tinha o resto de ano livre. E de repente a gente sofre um golpe desse né, essa pandemia maluca. Esse momento super complexo e complicado que a gente está vivendo, e de alguma maneira fui ficando. Tenho visto aqui de trabalho como ator, e fui ficando. As coisas em Madri... Eu ia voltar para Madri, as coisas começaram a ficar mais complicadas, e decidi ficar aqui mais um pouco. Aí as coisas começaram a ficar mais complicadas no Brasil, decidi ficar mais um pouco. Aí as coisas agora estão complicadas aqui. Então assim, é... Estou meio nessa! E por enquanto estou ficando.

Los Angeles é uma cidade que... A Califórnia tem um governo um pouco mais atento a essa questão do vírus, né? Um pouco mais assim cuidadosa. Então é uma cidade muito espaçosa. É uma cidade que tem muita natureza. Então consigo dar um mergulho no mar, que moro há duas quadras do mar. Então boto minha máscara, vou e dou um mergulho no mar e volto. Então essas coisas têm me feito bem assim, nesse sentido. E tudo que eu ia fazer pessoalmente, virou virtual.

Tenho feito testes 'self tapes', que eles chamam aqui, que a gente se grava para fazer o próprio teste. Tenho feito cursos. Faço um "dialect coach", que alguns testes eles pedem para que seja um personagem americano, né? E aí eu nunca iria perder essa oportunidade. Não tenho a menor vontade de perder o meu sotaque. Acho que sempre vou ser um ator brasileiro, né? E a gente vê muitos atores interessantes aí fazendo isso. Antonio Banderas, Javier Bardem, o próprio Wagner Moura, mas tem alguns testes que pedem personagens americanos.

Então faço aula de "dialect coach". Faço uma aula com uma coach que conheço aqui, que amo, que chama Sharon Chatten, e é uma pessoa incrível, até para o mercado americano, e para conhecer e para entender bem como funcionam as coisas. E tenho feito meus testes por aqui. Então a minha rotina tem sido mais ou menos essa. Montei esse quarto de hóspede meio escritoriozinho, e é aqui que faço as minhas coisas.

E tem alguma coisa que frutificou disso, que você pode contar?
Por enquanto não. São coisas que estão ou paradas esperando, né? Está tudo meio em 'hold' aqui, que eles falam né? Está tudo meio em suspenso. E algumas coisas estão paradas literalmente. Então muitos dos testes pararam. Muitas produções pararam. Agora eles estão voltando com algumas das maiores. Voltaram a rodar o James Bond, algumas produções assim. Algumas produções fora, que não são rodadas em Los Angeles, né? Então são rodadas em outros países. Eles estão rodando muito em Vancouver, no Canadá. Eles rodam muito na Austrália também. Então algumas coisas estão voltando, mas em geral o mercado está parado também. Completamente parado, esperando esse momento, ver o que vai acontecer.

Pigossi e Charlotte em Fina Estampa - Divulgação - Divulgação
Sophie Charlotte (Amália) e Pigossi (Rafael) em "Fina Estampa"
Imagem: Divulgação
A propósito, no Brasil a Globo está sendo obrigada a exibir reprises, já há um tempão, por causa da pandemia. (Marco: Exato!) Você está no ar em Fina Estampa, né? E vai voltar agora como protagonista em "A Força do Querer". Quer dizer, você saiu e continua em cartaz. Como é que está batendo isso para você?
Continuo no ar durante dois anos! (risos) É interessante. "Fina Estampa" foi uma novela de 2011, ou seja, é uma novela que tem nove anos. Foi a minha terceira novela. Começo de carreira, né? É muito aflitivo para mim! Para eu me ver assim, para eu me ver com aquela idade, com aquela experiência que tinha ali naquele momento, com os meus recursos de ator naquela época. Mas é super interessante ver, e saber que a novela está passando de novo.

E agora vem "A Força do Querer", que é uma novela que foi a minha última novela lá na Globo, que fiz, mas que foi uma das que fui mais feliz na vida. Tanto em todos os sentidos, a direção e elenco. Fui muito feliz nessa novela! A possibilidade de explorar um personagem que era diferente, saía do lugar comum do mocinho. Um personagem que briguei tanto para colocar humor, para colocar quase um estereótipo do que era, do que poderia ser e um estereótipo no bom sentido, um tipo. E sempre quis brincar com isso.

O meu primeiro personagem na Globo foi o Rosa Chiclete em Caras e Bocas, em 2009. Que era... Eu como ator gosto de brincar disso. Eu saio da minha zona de conforto, saio do que conheço. Então estou muito feliz que essa novela vai repassar. É super recente na verdade, a novela passou há pouquíssimo tempo, mas foi um sucesso de audiência e tudo. Então é uma coincidência feliz! É uma coincidência feliz, essa novela voltar!

Pigossi em A Força do Querer - Reprodução/TV Globo - Reprodução/TV Globo
Pigossi (Zeca) e Isis Valverde (Ritinha) em "A Força do Querer"
Imagem: Reprodução/TV Globo
Zeca, né? Zeca que é apaixonado pela Ritinha. A Ritinha dava mil voltas no Zeca.
Mil voltas nele. O mocinho sempre se dá mal, né? O mocinho sempre é o último a saber das coisas, é o último a perceber. Esse sempre foi o meu desafio, né? Como você faz um mocinho que passa oito meses na novela, porque são oito meses de conteúdo, né? Uma linguagem muito fixada nesse sentido. Como é que você faz um mocinho que é o último a saber de tudo, que só é enganado, que não consegue ver a verdade, que não consegue reagir durante oito meses, e como que as pessoas ainda queiram vê-lo, né?

Sempre falo que fazer o vilão é muito mais fácil! Fazer o mocinho é muito mais difícil, porque é muito difícil você manter um personagem, manter a atenção do público em um personagem passivo nesse sentido. E o vilão é divertido, a gente adora fazer coisas, né? Maldades em novelas, e coisas assim. Dá para brincar, tem mais espaço para explorar.

Você cogita voltar a fazer novelas? Ou você acha que isso é um capitulo encerrado? Agora que você está fazendo séries, o teu negócio é fazer série mesmo, ir por aí?
Eu nunca digo nunca, Mauricio! Acho que isso é um erro, né? Acho que nenhum capítulo é nunca encerrado. Estou sempre buscando personagens interessantes. O que acontece nesse momento, é que estou mais interessado no formato séries, ou longas e filmes, né? Porque acho que a gente consegue ter uma atenção maior.

Quando falo do formato da telenovela, ele é muito complexo. Quando explico uma telenovela, por exemplo para os atores na Espanha, quando estava gravando o "Alta Mar", explico o que é uma novela brasileira, nem eles acreditam! (Mauricio ri) Porque é uma hora de material bruto por dia, durante oito meses. De oito a dez meses. É muita coisa! É muita coisa! Então assim, existe um tempo hábil para você fazer aquilo, né? E existe uma certa profundidade. Até que ponto você consegue ir em tudo. Na direção, na luz, na profundidade dos personagens, no que você quer falar.

Então a série querendo ou não são oito episódios de uma hora, onde a gente tem quatro meses para gravar. Então assim, a gente tem tempo para fazer uma luz que ajuda a contar a história, uma direção que ajuda a contar a história. A gente consegue aprofundar no personagem, a gente consegue ensaiar, a gente consegue... É um trabalho um pouco mais gratificante para o ator nesse sentido, né?

A novela é muito, também, ao mesmo tempo é uma escola maravilhosa, eles sempre me perguntavam, a equipe em "Alto Mar", sempre me perguntava: 'Como é que você sabe tanto de set?'. Eu falei: 'cara eu passei 10, 12 anos em um set, eu fiz 12 novelas seguidas, eu acabo conhecendo de lente, de luz, de câmera, de posição, de movimentação, de linguagem mesmo né'. Então, pra mim, foi essencial na minha carreira ter passado por esses anos de novela, eu admiro muito novela, eu amo novela, mas esse momento eu estou mais interessado em focar em outras coisas.

Se ainda não aconteceu com a volta do Rafael de "Fina Estampa", com a volta do Zeca de "A Força do Querer", certamente vai ter um fã-clube que vai pedir para você voltar né?
As pessoas sempre falam no Instagram: 'volta pra novela, por favor', mas é porque também o que acontece com a série é que acaba sendo um intervalo maior de trabalhos né, então eu lancei a "Tidelands"' em 2018 e 2019 eu não tive nada pra lançar nesse sentido né.. Ficou, fica um hiato, foi o ano que eu mais trabalhei mas fica um hiato nisso, então as pessoas sentem falta, porque a novela você está lá oito, dez meses presente, as séries têm um hiato entre uma e outra, mas agora esse ano eu lançando as duas séries, as outras pessoas vão ficar felizes.

Você citou Javier Bardem, Wagner Moura e o Antonio Banderas como atores que atuam em produções internacionais, mas todo mundo sabe que eles são atores não americanos, eles trazem a sua marca pessoal e eles são vistos dessa forma pelo mercado. Você ambiciona um pouco isso então, ser visto como um ator estrangeiro atuando num grande mercado como o americano, com as suas características?
O que eu mais admiro na verdade nisso, não sei nem se é ambição, a minha ambição é fazer o que eles fizeram mas no sentido de que o público sabe que eles não são americanos, mas isso não é importante. Então a minha ambição é fazer o meu trabalho como ator ser muito mais interessante do que como eu sou, se eu sou americano, se eu sou brasileiro, ou espanhol, ou como for.

Acho que são atores que conseguiram chegar em um momento em que o trabalho deles é muito mais interessante e muito mais...e as pessoas prestam muito mais atenção no conteúdo do personagem, do que de como ele soa, qual o sotaque dele. E tem uma coisa que é a gente não tem como não trazer o nosso DNA né?

Sou brasileiro com muito orgulho, apesar de não ter orgulho nesse momento, do que está acontecendo com o nosso país, mas sou brasileiro, acho que é interessante trazer a minha cultura, trazer o meu histórico, a minha bagagem do que eu fiz e de como eu sou, então não é uma coisa que eu quero apagar e entrar num mercado americano e ser como os atores de Hollywood, acho que cada um tem a sua coisa que te faz único.

Então acho que é muito interessante não perder isso, a sua essência tanto como pessoa tanto como ator né. Então a minha ideia é trazer isso e esses atores são atores com personalidades, são atores que trazem esse...eles são com sotaque, mas isso não é importante, importante é o trabalho que eles fazem e todo mundo compra, assiste e adora. Acho que essa seria a minha ambição. Quem sou eu para dizer que a minha ambição é ser um Javier Bardem, um Antonio Banderas, Wagner Moura..

Sei que Los Angeles é um lugar privilegiado por ter muitos estrangeiros, ser mais progressista, mas como você vê esse momento aí nos Estados Unidos, com um presidente que fala muito em "América em primeiro lugar"? Há alguma hostilidade com estrangeiros?
A Califórnia é superprogressista, a Califórnia tem muito imigrante, 90% da população quase, todo mundo fala espanhol praticamente, é uma língua super corrente nesse sentido, então eu não sinto muito isso. Eu sinto mais uma mistura, assim como Madri, que é uma cidade super internacional, tem gente do mundo inteiro, então eu acabo não sentindo na pele essa questão né, a Califórnia é bem progressista nesse sentido.

Não me sinto um estrangeiro, ou sendo recusado, ou algum tipo de preconceito, alguma coisa nesse sentido. Mas eu sei que é um país difícil nessa questão, é um país que tem uma questão com a imigração e com uma política muito forte americana. Não concordo com muito da política que acontece aqui, concordo um pouco mais com a política da Califórnia que é muito diferente. (31:50)

Retomando ao que me levou a te fazer essa pergunta, você falou um pouco dessa situação hoje no Brasil, que você vê, pelo que eu entendi, com alguma preocupação. Queria que você falasse um pouco mais, se você puder, como é que você está vendo esse momento no Brasil.
É difícil né? Porque na verdade eu estou vendo de fora, não estou vivendo. Tenho falado bastante com a minha família e vejo como estão as coisas por aí. Aqui também está complicado, não tá simples. Mas eu acho que no Brasil a gente demorou para entender o que era a gravidade da situação, e levado a sério a ciência. Apesar do jogo político sempre existir, mas em função dessa pandemia, em função de tentar entender como segurar, eu vi como eles levaram a sério na Europa e como a coisa regrediu de uma maneira positiva, apesar de ter sido muito grave no começo e como hoje eles já estão em um lugar muito melhor do que a gente nesse sentido.

Então eu acho que virou um circo nesse sentido, a política começou a usar o vírus e a pandemia como um jogo político, quando na verdade é um jogo de sobrevivência humana. Então isso para mim é o grande problema, a maneira como foi lidado essa questão. Isso não é um jogo político, isso é um jogo humano e a gente não pode brincar com essas coisas. E agora a gente está pagando as consequências de como foi lidado desde o começo e como as pessoas lidaram com isso desde o começo, então é difícil e ver de longe também as coisas acontecendo também é difícil mas vamos torcer por dias melhores.

Vamos falar de coisa boa então para encerrar. Convide o brasileiro, o público que vai nos assistir, a assistir "Alto Mar" a partir de 7 agosto, por que a gente deve assistir essa série? Além de ter você, é claro.
Tem que assistir só porque eu estou lá (risos), mentira. Gente, queria convidar todo mundo para assistir a terceira temporada de "Alto Mar". Quem ainda não viu a primeira e a segunda assistam porque é muito interessante, é uma série que traz um universo completamente diferente, novo. É a terceira temporada que eu entro, meu personagem é o Fábio, queria convidar todo mundo para assistir a minha primeira série, produção espanhola, as séries espanholas têm feito muito sucesso no Brasil e isso é muito legal, a gente uma consciência mais aberta para consumir produtos internacionais e isso é muito interessante, então se puder não deixe de assistir "Alto Mar" temporada 3.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL