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Mauricio Stycer

Abatido e pessimista, Bonner lamenta o ódio crescente e a incivilidade

William Bonner dá entrevista ao programa "Conversa com Bial" - Reprodução
William Bonner dá entrevista ao programa "Conversa com Bial" Imagem: Reprodução
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

27/05/2020 02h58Atualizada em 27/05/2020 11h28

Abatido, cansado, triste e sem esperança. Esse foi o surpreendente retrato que aflorou do jornalista William Bonner em entrevista ao programa "Conversa com Bial" na madrugada desta quarta-feira (27).

Muito diferente do apresentador firme e altivo do "Jornal Nacional", o Bonner que conversou com Pedro Bial falou da necessidade de uma "pausa para respirar" diante do noticiário atual.

Reclamou muito da intolerância que viu surgir nas redes sociais e avançou para as ruas. "Eu ainda me assusto com a bile, com o ódio que escorre nas palavras, nas palavras mal escritas, nas palavras cuspidas. É um ódio tão intenso que a gente não sabe onde levará. E aí a gente vai para as ruas e assiste a esta mesma incivilidade".

Bonner contou que em 2018 a sua presença em locais públicos se tornou inviável. "Era motivadora de tensões. Percebi isso de maneira muito ruim, dentro de farmácias, de padarias, no cinema. Verbalmente agredido, insultado..."

Dizendo ser o rosto do "Jornal Nacional", que apresenta desde 1996, e também da Globo e do jornalismo, observou: "Eu tenho consciência de que sou um símbolo. Simbolizo muitas coisas para muitas pessoas, que não me conhecem, não sabem quem eu sou".

O apresentador desceu a detalhes dramáticos sobre a sua vida pessoal e a de seus familiares. Contou que, em 2016, para evitar ser hostilizado dentro de aviões, viajou semanalmente do Rio para São Paulo de carro para visitar o pai, então gravemente doente. "Não dava para pegar avião".

Em 2018, com a mãe doente, a mesma dificuldade ocorreu e Bonner contou que novamente teve que viajar inúmeros finais de semana do Rio para São Paulo de carro. "Não podia pegar um avião com tranquilidade nem para visitar um parente doente", lamentou.

Também relatou, com emoção, os problemas enfrentados pelo filho, Vinicius, que tem sido alvo de ações de estelionato há três anos, desde que uma carteira de habilitação dele caiu na internet. A mais recente foi o uso irregular do nome do filho num pedido do auxílio emergencial dado ao governo para os mais necessitados.

Bonner entende que ações como esta que atingiu seu filho e outras, como a Globo noticiou, visam intimidá-lo. "A sensação que eu tenho é que se criou toda uma situação exatamente pra tornar muito difícil o trabalho, é mais um passo, mais uma ação pra nos dificultar, pra impedir que o trabalho da imprensa seja feito", disse.

Disse que sente orgulho do seu trabalho. Enxerga que o "jornalismo profissional experimentou a reconquista de um público" que estava afastado do noticiário. E que ainda tem um papel civilizatório num ambiente de fake news, negacionismo, preconceito e revanchismo.

Encerrou a entrevista, porém, em tom de pessimismo e desesperança após ver imagens de um "Jornal Nacional" em 2006, que apresentou direto de Juazeiro do Norte. Cercado por uma multidão empolgada e alegre, que o aplaudia, Bonner disse não acreditar que essa situação algum dia possa acontecer de novo. "Hoje seria impossível isso".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL