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Mauricio Stycer

Em nome da pluralidade e do debate de ideias, TVs propagam desinformação

Geraldo Alckmin e Osmar Terra debatem sobre a pandemia de coronavírus na CNN Brasil - Reprodução
Geraldo Alckmin e Osmar Terra debatem sobre a pandemia de coronavírus na CNN Brasil Imagem: Reprodução
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Mauricio Stycer

Jornalista, nascido no Rio de Janeiro em 1961, mora em São Paulo há 29 anos. É repórter especial e crítico do UOL. Assina, aos domingos, uma coluna sobre televisão na "Folha de S.Paulo". Começou a carreira no "Jornal do Brasil", em 1986, passou pelo "Estadão", ficou dez anos na "Folha" (onde foi editor, repórter especial e correspondente internacional), participou das equipes que criaram o "Lance!" e a "Época", foi redator-chefe da "CartaCapital", diretor editorial da Glamurama Editora e repórter especial do iG. É autor dos livros "Adeus, Controle Remoto" (editora Arquipélago, 2016), "História do Lance! ? Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo? (Alameda, 2009) e "O Dia em que Me Tornei Botafoguense" (Panda Books, 2011). Contato: mauriciostycer@uol.com.br

Colunista do UOL

13/05/2020 13h20

O bom jornalismo recomenda ouvir sempre os dois lados de uma história e dar espaço para a maior variedade de ideias. Isso se reflete no esforço de representar da forma mais plural possível as diferentes posições sobre questões significativas, que dizem respeito ao cidadão, em todas as áreas.

Este é um exercício diário, ainda que nem sempre alcançado, mas que os profissionais corretos e os veículos de comunicação sérios encaram como um objetivo fundamental.

Dito isto, gostaria de voltar a abordar uma distorção deste mantra que tenho visto em alguns debates promovidos por programas de televisão.

Tratei deste assunto no final de março, dias depois de Gabriela Prioli pedir afastamento do quadro "O Grande Debate", exibido pela CNN Brasil desde a estreia. Registrei que o quadro é uma caricatura de debate por não conseguir encontrar defensores de posições extremadas que consigam argumentar com alguma lucidez.

O programa não valoriza o que é dito, mas sim a capacidade de argumentar, de expressar melhor os seus pontos de vista numa embalagem mais clara do que os do adversário. É um duelo retórico, que muito dificilmente vai mudar a opinião de algum espectador, mas que gera polêmica e vídeos com memes na internet - o que parece ser o principal interesse do canal.

Com o "Grande Debate", a CNN Brasil posa de pluralista, mas acaba ajudando na difusão de ofensas e na desinformação.

O mesmo tem ocorrido em debates destinados a discutir as políticas de enfrentamento da pandemia de coronavírus. Na condição de quase único defensor das ideias do presidente Jair Bolsonaro, o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) tem participado de programas em todos os canais.

Nos últimos dias esteve na GloboNews, CNN Brasil e Band reproduzindo argumentos discutíveis, números errados e negando dados científicos. Como de hábito, suas falas "viralizaram" nas redes sociais.

Como mostrou a Folha esta semana, Terra integra um time de deputados "que têm ampliado a onda de desinformação e ataques motivada pela pandemia de coronavírus e o consequente acirramento político entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e seus adversários por conta das medidas contra a Covid-19".

Divulgado em abril, um levantamento do Radar Aos Fatos, agência de checagem de fatos, mostrou que Terra, que é médico e aliado do presidente, foi quem mais divulgou notícias falsas sobre o tema.