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Regina Casé: "Digo aos jovens atores: televisão não é um quebra-galhos"

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

11/05/2020 05h01

Na segunda parte da entrevista com Regina Casé, ela fala de sua trajetória profissional, iniciada no teatro, no grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone. Regina observa que a novela "Amor de Mãe" é parte de algo maior, que é a sua fé no poder de comunicação e transformação da televisão. A atriz enxerga a TV aberta como um território importante, verdadeiro, e não um ponto de passagem para chegar em algum outro lugar.

Regina Casé - João Pedro Januário/Divulgação - João Pedro Januário/Divulgação
A atriz e apresentadora Regina Casé
Imagem: João Pedro Januário/Divulgação
É uma visão muito rica e interessante, que mostra o comprometimento de Regina com o seu ofício, seja como atriz, seja como apresentadora. Ela tem a clara noção sobre o impacto da televisão em diferentes esferas, do universo educativo ao entretenimento, passando pela dramaturgia.

"A gente rompeu quando era novinho adolescente com uma coisa que era: 'Eu vou fazer uma novela para poder fazer minha peça experimental, para poder fazer o meu filme'. Eu rompi com isso quando tinha 20 anos. Eu falei: eu só vou fazer uma coisa na televisão se aquilo eu achar tão legal quanto o Asdrubal", diz ela. "Eu faço a televisão o meu primeiro trabalho" (veja no vídeo acima e na transcrição dos principais trechos abaixo).

Se pensa na Lurdes, acho que é uma correspondência do "Esquenta". Como o "Esquenta" é uma correspondência do "Central da Periferia", como o "Central da Periferia" é uma correspondência do "Brasil Legal", como o "Brasil Legal" é uma correspondência direta do Asdrubal Trouxe o Trombone. Isso é uma coisa que eu me orgulho na minha trajetória.

A atriz fala com carinho da turma com quem vem trabalhando há algumas décadas na TV. Conta que tinha um novo programa, sobre inteligência artificial, já pronto para ir ao ar quando recebeu o convite para fazer a novela e adiou o projeto. Cercada de jovens, Regina se sente jovem.

Então o que faz eu ser moderna, eu tenho 66 anos e um filho de 7. Eu acho que consigo fazer esses programas e ter tantos amigos tão mais jovens do que eu e conversar com tanta gente mais jovem do que eu porque eu não me agarro nas minhas ideias. Eu vou catando.

Abaixo, a primeira parte da entrevista.

Abaixo, a transcrição dos principais trechos desta segunda parte. A certa altura, Regina faz algumas perguntas e eu respondo. Depois retomamos o fluxo normal da entrevista:

Regina Casé: Eu fiz questão de conversar com você... você imagina a quantidade de "lives" que chovem e pipocam atualmente na vida de uma pessoa. Eu gosto muito de quem gosta de televisão e quem leva a televisão a sério. Quem dimensiona a importância da televisão para o Brasil. Eu acho que você faz isso. A gente nunca conviveu, enfim, não tem nenhum relacionamento, acho que é a primeira vez que a gente vai conversar de fato, mas acompanho você em todos os lugares. O único problema é que eu tenho uma deformação profissional. Você vai tentar me entrevistar, eu vou ficar te entrevistando.

Você tem planos de voltar a fazer programa de não ficção, de variedades, como o "Esquenta"?
Eu tinha um plano bem já concreto. Eu e Hermano (Vianna) trabalhamos quase um ano, fazendo um programa sobre inteligência artificial, sobre internet, sobre tudo isso, que provavelmente seria ao vivo. Ele estava indo muito bem. Ele teria estreado em outubro. Foi muito difícil abandonar uma ideia tão trabalhada e amadurecida. Mas o próprio Hermano e os meus colegas que estava trabalhando comigo disseram: "Vai!" "Você agora vai ser muito mais possível, viável, e vai poder muito mais plenamente se expressar, se você tiver na dramaturgia."

Porque quando alguém não quer te ver, não quer te ouvir, se você faz ela chorar, se você faz essa pessoa dar uma risada, você faz essa pessoa se emocionar, você faz ela se identificar... Se você parece com a mãe dela mesmo que seja muito diferente e, portanto, ela não devia te dar atenção, você consegue quebrar isso de alguma maneira. E esse milagre aconteceu com a Lourdes. Eu acho que ele pode ainda continuar acontecendo. Então pretendo morar um pouquinho aqui nesse lugar que não é de mentirinha.

Esquenta - João Januário/Globo - João Januário/Globo
Regina Casé apresentou o "Esquenta!" entre 2011 e 2017
Imagem: João Januário/Globo

Na verdade, eu acho que há uma correspondência. Se pensa na Lurdes, acho que é uma correspondência do "Esquenta". Como o "Esquenta" é uma correspondência do "Central da Periferia", como o "Central da Periferia" é uma correspondência do "Brasil Legal", como o "Brasil Legal" é uma correspondência direta do Asdrubal Trouxe o Trombone. Isso é uma coisa que eu me orgulho na minha trajetória

Muito legal. Tem tudo a ver você ter estabelecido esse fio. Faz todo sentido.
Eu acho que o que me traz para a frente o tempo todo e que me faz... tem uma expressão muito boa no Nordeste para dizer jovem, que eu adoro. Eu demorei para entender: fulano é moderno. Moderno quer dizer jovem. Então o que faz eu ser moderna, eu tenho 66 anos e um filho de 7. Eu acho que consigo fazer esses programas e ter tantos amigos tão mais jovens do que eu e conversar com tanta gente mais jovem do que eu porque eu não me agarro nas minhas ideias. Eu vou catando. "Isso agora seria o quê?" Porque eu acho que eu sou bem porta voz de um grupo e de algumas ideias. E aí eu acho que agora a dramaturgia se presta mais a isso do que as variedades.

Regina: Eu quero agora fazer uma micro-entrevista com você. Você acha que esse formato imposto pela pandemia de ter uma segunda temporada, que estão chamando de segunda fase, de alguma maneira vai aproximar a novela das séries?

Eu: Boa pergunta. Acho que vai ser um teste importante mesmo. Eu acho que a Globo vai ter que preparar um pouco o espectador. Não vai dar para continuar do ponto que parou imediatamente. Porque terá sido um longo período. Vai precisar haver uma pequena lembrança. A gente discutiu isso no podcast UOL Vê TV, junto com Flávio Ricco, Chico Barney e Débora Miranda, no UOL. Imaginamos essa situação. Uma novela, digamos, que tenha 80 capítulos e volte um ano depois com mais 50. Depois pode até ter uma terceira temporada com mais 50. Eu acho que tem um problema de grana, que sairia muito caro. Manter o elenco, o que é difícil. Mas em tese eu acho legal, seria uma coisa interessante

Sob Pressão - Divulgação/Globo - Divulgação/Globo
Marjorie Estiano (Carolina) e Evandro (Julio Andrade) em "Sob Pressão": série terá mais duas temporadas
Imagem: Divulgação/Globo
Regina: Mas esse elenco é quase todo contratado. Numa série, como "Sob Pressão", acontece mais ou menos a mesma coisa. Mesmo que seja um núcleo reduzido e vão entrando outros personagens. Eu achei interessante porque é bacana esse negócio de série. Mas, na verdade, não acho tão diferente de uma novela. A novela é um produto, por mais que tenha existido novelas mexicanas, é um produto muito brasileiro e que a gente aprendeu a fazer muito bem e que educou, audiovisualmente, as pessoas. É muito bacana você ver uma pessoa que nunca leu nada sobre televisão e ela entende da luz, do som, percebe mudanças de linguagem. Eu acho que o brasileiro tem uma educação audiovisual pela novela, muito superior a um francês.

Eu: Todo mundo tem repertório.
Regina: Então, isso eu acho que seria bacana, se a gente conseguisse fazer uma coisa híbrida, talvez, mas que fizesse frente às séries. Não jogar fora a criança com a água da bacia. Novela e série.

Eu: Acho que, de certa forma, a Globo tem essa visão. Ela está fazendo algumas séries e mandando direto para a Globoplay. Pode até passar depois na televisão, mas tem uma compreensão que tem um lugar da novela e o lugar da série. Acho que eles estão até tendo uma visão interessante sobre isso. Veja "Todas as Mulheres do Mundo". Estreou e foi direto para a Globoplay. Pode ser que passe algum dia passe na televisão...
Regina: Sou louca para fazer um produto em inglês. Eu até fiz uma proposta. Silvio (de Abreu) adorou, mas era uma coisa muito cara, porque eu queria fazer em várias comunidades de vários países fora do Brasil. Era uma coisa caríssima, um delírio. Mas eu continuo pensando a ser uma solução para isso. A gente merece ganhar o mundo porque a gente faz isso muito bem.

Regina: Eu queria saber, quando a gente sair dessa pandemia, a TV aberta estará fortalecida ou enfraquecida?
Eu: Acho que está fortalecida. Se ela soube aproveitar bem a situação. Você vê a importância que o jornalismo ganhou neste momento. A audiência aumentou, o que é óbvio, porque as pessoas estão em casa, mas a TV está mostrando a utilidade dela, sobretudo com prestação de serviço e jornalismo, que é um produto de primeira necessidade. Se ela souber usar isso bem, avança, eu acho. A televisão aberta no Brasil, até por uma questão econômica, que as pessoas não têm dinheiro para ter TV paga...

Regina: Infelizmente vão ter cada vez menos dinheiro. Por isso eu penso que ela vai voltar. Mas eu digo como uma ágora, um lugar, um ponto de encontro para tantas redes e informações. Você acha que ela ainda legitima o que você vê nas redes?
Eu: A experiência de assistir novela nas redes sociais é um negócio único.
Regina: Eu não usava o Twitter há 200 anos. Com "Amor de Mãe" eu, às vezes, não conseguia nem olhar para a televisão porque eu ficava apaixonada pelo que eu estava vendo no Twitter.
Eu: É essa ágora que você falou, O Twitter virou um pouco isso em relação à TV.
Regina: A ágora da TV aberta é formada por gente que nem tem Twitter. Eu acho que é nesse lugar, não sei se sou muito otimista, a TV aberta consegue manter um lugar ainda, um território, um pequeno oásis. Um lugar de encontro mais diverso.

amor de mãe - Reprodução - Reprodução
Regina Casé e Jessica Ellen em cena comovente de "Amor de Mãe"
Imagem: Reprodução

Nem sempre com coisas legais, mas eventualmente com coisas muito boas, você quase sempre à frente de coisas muito boas, para dar um exemplo. Os programas que você já fez e essa novela também! Mas que "Amor de Mãe" não representa a média das produções. Acho que uma novela fora da curva pela qualidade do texto, da direção, do elenco, de tudo.
Acho que você e toda a sua turma de pessoas que pensam televisão podem contribuir muito nesse sentido, porque eu acho que essas coisas que eu venho fazendo com essa turma e você elogiou é porque a gente rompeu quando era novinho adolescente com uma coisa que era: "Eu vou fazer uma novela para poder fazer minha peça experimental, para poder fazer o meu filme". Eu rompi com isso quando tinha 20 anos. Eu falei: eu só vou fazer uma coisa na televisão se aquilo eu achar tão legal quanto o Asdrubal. Ou tudo que eu já fiz.

tv pirata - Divulgação - Divulgação
Louise Cardoso, Regina Casé e Ney Latorraca, parte do elenco do humorístico 'TV Pirata'
Imagem: Divulgação
Para quem não sabe, deixa eu enumerar: "Programa Legal", "Brasil Legal", "Central da Periferia", "Esquenta"...
"Muvuca"... Na verdade, vem do "TV Pirata" porque ali já começou essa turma com o Guel (Arraes). E "Minha Periferia É um Mundo" (exibido no Fantástico), que a gente viajou o mundo todo. Fora aquelas pequenas séries; fiz várias com o Estevão Ciavatta. Tenho um orgulho tremendo. " "Lan House" (dentro do "Fantástico"), que é a gênese de tudo isso que veio acontecer depois em termos de internet.38:18

Com o Estevam, com "É um Pé de Quê?", criamos um braço mais educativo, mas sem ser chato, dentro da variedade. Com Hermano (Vianna), um caminho mais antropológico. Com o Guel (Arres), um trabalho que era a dramaturgia se misturando com isso o tempo todo, e viabilizando isso dentro da Globo. E tantas outras pessoas, não quero esquecer nenhum, vêm da minha escola, que é: "eu vou fazer disso o meu primeiro trabalho". É o meu trabalho mesmo. Não estou quebrando um galho aqui para escrever meu livro. Essa que é a diferença. E é isso que eu digo para todos os jovens atores. Por isso eu gosto tanto de televisão. Porque ainda hoje persiste isso. Veja os jovens atores fazendo uma coisa que eles nem gostam na televisão para poder fazer um filme, ou para poder fazer uma peça. É isso que ferra. Tem que todo mundo, autor, diretor, iluminador, achar que aquilo ali tem que ser muito legal.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL