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Lurdes é um oásis de amor em meio a tanta coisa terrível, diz Regina Casé

Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

10/05/2020 05h01

Perto do fim de uma entrevista de 45 minutos com Regina Casé, ela pergunta se pode desejar um feliz Dia das Mães para as espectadoras e espectadores. Respondo que talvez a conversa só vá ao ar na semana seguinte. Ela, então, se dirige a quem nos assiste sem fazer menção à data e diz: "Quando ficar com ódio, com raiva, desespero, pensa na Lourdes e fala: aonde eu vou achar um ponto de amor?" Agradeço e ela acrescenta: "Muito amor de mãe para vocês".

Com pitadas de Lurdes e outras da própria Regina a mensagem é tão poderosa que decidimos, no UOL, publicar esta entrevista justamente neste domingo (10), Dia das Mães (veja no vídeo acima e na transcrição abaixo).

Isolada em um sítio fora do Rio com o marido, o diretor Estevão Ciavatta, o filho Roque, que acaba de completar 7 anos, e o neto Brás, de 2 anos, Regina mantém a serenidade, mas "ensinando para as crianças que a gente está vivendo tempos difíceis".

"Eu aprendi que não dá para guardar a vida no armário trancada, esperando passar aquela coisa ruim para depois a gente continuar vivendo. A gente tem que ir achando atalhos e brechas por dentro do sofrimento e achando áreas possíveis de ser feliz. Meu sentimento de mãe e de avó tem sido esse. É onde eu tenho encontrado felicidade, alegria."

Regina Casé  - João Pedro Januário/Divulgação - João Pedro Januário/Divulgação
A atriz e apresentadora Regina Casé
Imagem: João Pedro Januário/Divulgação
A conversa avança em diferentes direções, mas a todo momento esbarra em "Amor de Mãe". É um marco na carreira de Regina. Depois de décadas, ela deixou de trabalhar com um mesmo grupo de amigos e colaboradores, com os quais fez programas importantes, como "Brasil Legal", "Muvuca", "Central da Periferia" e "Esquenta!", entre muitos outros. E se aventurou como protagonista de uma novela.

Assim como o público, Regina está fascinada pela potência da mensagem de "Amor de Mãe" e, em particular, pela força de Lurdes, esta criação de Manuela Dias, com direção de José Luiz Villamarim. Conta que aceitou o papel na primeira conversa, sem ler nada, apenas ouvindo a autora e o diretor descreverem o papel.

"É muito difícil manifestar esse amor nesse momento com tanto ódio. E a Lourdes encontrou um canal e ela me mostrou um canal possível. Eu também estava muito cética, para não dizer niilista. Como é que eu vou expressar, vou mostrar alguma coisa boa? Como é que eu vou dizer para as pessoas "vamos lá" quando tudo parece tão adverso? E a Lourdes me deu essa possibilidade."

Regina pensa, com frequência, na novela que está suspensa. E tem uma compreensão muito clara sobre a importância que "Amor de Mãe" e Lurdes estão tendo em sua vida:.

"Eu tinha bilhões de haters como apresentadora com questões que a gente colocava e tal. A Lurdes tem 0,01 (hater). Ela é amada. E eu, na carona dela, passei a ser aceita de uma outra maneira. Isso é um milagre num momento onde ninguém, se ouve, ninguém se olha. Passaram a ver também a Regina. E a Regina, além da Lurdes, também tem coisas legais para falar que ela não podia, por tantos ruídos de comunicação."

Abaixo, a segunda parte da entrevista:

Abaixo, a transcrição da primeira parte da conversa:

Eu queria começar dizendo que eu estou sentindo muita falta da Lourdes. Ela é uma voz, eu acho, que poderia nos ajudar neste momento.
Regina Casé:
Demais, demais. Estou sentindo pessoalmente e socialmente demais. Acho que ela tinha um equilíbrio de amor, sabe? Ela conseguia... porque a gente ama quem está perto, a gente ama em geral. Mas é muito difícil manifestar esse amor nesse momento com tanto ódio. E a Lourdes encontrou um canal e ela me mostrou um canal possível. Eu também estava muito cética, para não dizer niilista. Como é que eu vou expressar, vou mostrar alguma coisa boa? Como é que eu vou dizer para as pessoas "vamos lá" quando tudo parece tão adverso? E a Lourdes me deu essa possibilidade.

Lurdes com bolsa - VICTOR POLLAK/Rede Globo - VICTOR POLLAK/Rede Globo
Lurdes (Regina Casé) com sua bolsinha
Imagem: VICTOR POLLAK/Rede Globo
Eu já era apaixonada pela Lurdes como um personagem riquíssimo que a Manuela Dias me deu e me, brindou, e que serei eternamente grata. Mas, mais do que dramaturgicamente, como atriz, eu acho que ela aconteceu num momento onde parecia impossível ser tão amoroso, tão verdadeiro, não ser fake, ser real em todos os sentidos. A cara que eu estou, a minha cara, meu corpo, a minha voz. Quando eu vejo a Lurdes, eu acho que é um milagre nesse momento. Estou morrendo de saudades também. Sinto muito não ter trazido a minha bolsinha, porque ficaria com ela andando dentro de casa de Lurdes.

Quando você viu no papel a Lurdes, o que você pensou? Imagino que Manuela e o José Luiz Villamarim te deram indicações. Mas o que você pensou quando viu essa personagem?
Eu tive uma única conversa com o Villamarim e com a Manuela. Eu aceitei já na primeira conversa. Eu não li a sinopse, nem nada. Eu não conhecia a Manuela, nem o Villamarim Isso para mim também foi uma grande novidade porque eu trabalho há 30, 40 anos com as mesmas pessoas. Hermano Vianna, Estevão Ciavatta, Alberto Renault, Sandra Kogut, Mônica Almeida, com todas aquelas mesmas pessoas e os mesmos roteiristas e os mesmos câmeras. O mesmo maquiador há 30 anos, a mesma figurinista, Cláudia Kopke. Então eu me sentia muito protegida. Quando eu fui para a novela, sai da (área de variedade) tive que fazer um contrato novo. Tudo mudou. Parece que eu troquei de pele inteira. Me deu um medinho, mas eu não tive um segundo de dúvida.

A sensação que eu tinha é que esses anos todos viajando pelo Brasil me prepararam para isso. Volta e meia as pessoas falam: "Puxa, é tão mais legal você como atriz, você tem muito mais reconhecimento". Eu tinha bilhões de haters como apresentadora com questões que a gente colocava e tal. A Lurdes tem 0,01 (hater). Ela é amada. E eu, na carona dela, passei a ser aceita de uma outra maneira. As pessoas puderam me ouvir, me olhar. Isso é um milagre num momento onde ninguém, se ouve, ninguém se olha. Passaram a ver também a Regina. E a Regina, além da Lurdes, também tem coisas legais para falar que ela não podia, por tantos ruídos de comunicação.

Vamos falar também sobre a Regina apresentadora também...
Quando a Manuela me chamou e disse que Lurdes era uma mãe que tinha uma filha por adoção, que tinha cinco filhos, que era nordestina, que trabalhava como babá etc. eu novamente vi a oportunidade de botar para fora e expressar coisas que eu colecionei e que eu inventariei - sentimentos, gestos, sotaque - durante 30, 40 anos viajando pelo Brasil. Nesses lugares eu conheci tantas mulheres como a Lurdes, que me despertaram tamanha admiração, que a oportunidade de falar "gente, vou poder fazer isso, isso, isso..." Imediatamente, aceitei.

A crítica de que você está se repetindo tem um fundo preconceituoso?
Não é nem no fundo, tá na cara que é. Nem eu dimensionava esse preconceito. Eu nunca pensei que eu ia ter que me explicar. "Mas vai ficar igualzinho". Isso é o que pegava mais pra mim. Era como se todas as mulheres de classe média e ricas, todas as madames de todas as novelas, elas eram indivíduos, eram diferentes entre si. E todas as empregadas domésticas, todas as pessoas pobres ou todas as nordestinas são uma coisa só, uma massa gigantesca de pessoas idênticas que estão aí para servir em outras pessoas ou para entrar na novela, dizendo "Doutor Antenor, chegou o seu café" ou qualquer coisa assim. Mas dramaturgicamente elas não existiam, não tinha papel legal para elas, como socialmente também.

Essa interrupção do trabalho está sendo dolorosa? E a quarentena, como você está vivendo essa experiência de ficar longe de tudo, isolada?
Pra você ter uma ideia, saí do estúdio no dia 15 de março, um sábado. Eu saí do estúdio e vim direto aqui para o sítio. Vinha nos finais de semana. Acho que nunca fiquei aqui tanto tempo. E está sendo um aprendizado, lidar com todos os morcegos, os gambás... E com duas crianças, uma de dois anos e uma de seis. Se eu dava valor a uma trabalhadora doméstica, principalmente uma que toma conta de crianças. Não tem nenhuma preparação pedagógica, técnica, psicológica... E educar uma criança, ficar com aquela criança mais tempo do que a mãe dela... A gente viu isso no "Que Horas Ela Volta?", com a Val, né? E o Fabinho e a Jessica, e o que resultou. Mas eu também não tinha crianças pequenas em casa há muito tempo, vinte e tantos anos. Ficar com duas crianças muito pequenas e estar fazendo este trabalho de babá... Porque eu, como mãe, via de manhã, e via de noite, passado o dia dentro do estúdio, gravando "Amor de Mãe".

Regina Casé com Roque e Brás - Reprodução/Instagram - Reprodução/Instagram
Regina Casé como filho Roque e o neto Brás
Imagem: Reprodução/Instagram
Tenho visto as fotos que você posta no Instagram. Você está feliz como mãe ali.
Assim como eu disse que a Lurdes é um oásis de amor no meio de tanta coisa terrível, as crianças têm sido isso para nós. A gente se joga ali pensando quando é que vamos ter a oportunidade de ter duas crianças dentro de casa dessa idade? Demorei. Minha filha tem 30 anos. Demorei vinte e tantos anos para que isso acontecesse de novo. Então, a gente, por mais que os tempos sejam tão tenebrosos, a gente não está abrindo mão de viver isso com maior intensidade e a maior felicidade. Mas, ao mesmo tempo, ensinando para as crianças que a gente está vivendo tempos difíceis, mostrando e conversando com elas sobre isso. Não é uma bolha de realidade de que está tudo ótimo.

Isso eu apreendi com situações muito difíceis que a gente teve na vida. Algumas publicamente foram acompanhadas, como acidente do Estevão. Ficou muito tempo tetraplégico. Eu aprendi que não dá para guardar a vida no armário trancada, esperando passar aquela coisa ruim para depois a gente continuar vivendo. A gente tem que ir achando atalhos e brechas por dentro do sofrimento e achando áreas possíveis de ser feliz. Meu sentimento de mãe e de avó tem sido esse. É onde eu tenho encontrado felicidade, alegria.

Você já tinha a Lurdes dentro de você, né?
Eu acho que sim. Ela me pegou num momento que estou vivendo emoções que não conhecia, como ser a avó e mãe mais madura. Dizem que a natureza é sábia. Acho que a natureza é burra, em muitos aspectos. Brincadeira. Mas nesse aspecto eu sou uma mãe muito melhor para o Roque do que eu fui para Benedita. Era muito mais medrosa, muito mais insegura, muito mais desesperada. Não consegui aproveitar aquilo ali. Eu agora que sou mais velha, acho que sou uma mãe melhor. É diferente. Eu sou mãe do Roque e avó do Brás.

Vocês têm notícias sobre a volta aos trabalhos?
Houve um plano inicial de junho, mas que já foi adiado para julho. Eu acho que agora trabalham com uma data possível de agosto, mas nada oficial. São conversas que eu tenho. Todo mundo está dizendo, também já vi na imprensa, que a novela vai ganhar mais alguns capítulos. Porque também não tinha sentido voltar para fazer uma segunda temporada tão mais curta. Estou morrendo de saudade.

lurdes e família - João Cotta/Rede Globo - João Cotta/Rede Globo
Lurdes (Regina Casé) cercada pela família em "Amor de Mãe"
Imagem: João Cotta/Rede Globo


As pessoas têm falado, e faz sentido, que também vai mudar um pouco certos tipos de cenas, diminuindo contato físico, por medida de segurança.
Isso no meu núcleo vai ser difícil. Todas as cenas que eu fiz eu estava beijando e abraçando todo mundo naquele sofá.

Vai ser difícil.
Como na vida. Vai ser difícil a gente aprender: como é que faz isso? Eu não sei, eu acho cada dia a gente vai entendendo um pouquinho como é... Mas você perguntou a diferença da coisa profissional e da coisa pessoal. Muita gente acha que eu sou workhaholic, que eu muito animada e eu trabalho muito desde muito cedo. Trabalho desde garota. Gosto de trabalhar. Mas eu sei ficar de bobeira ou sei aproveitar. Sei meditar, rezar, ler, cuidar... Eu sou louca por planta, por árvores. A gente tinha um programa, "Um Pé de Quê?", que durou 20 anos no canal Futura. E então eu também tenho esse lado bem equilibrado. Então eu sinto saudade, sinto falta, mas não sou workhaholic. Eu tento aproveitar.

O que eu tenho feito aqui? Tem quase o organograma de doação, quero aproveitar para dizer isso aqui. Todo mundo tinha que doar. A gente não tem essa cultura, tem que passar a ter. A gente não pode esperar que o Brasil vai fazer assim e virar um país que não é mais tão desigual nos abismos. Então a gente tem que ir criando alternativas, não só financeiras, mas como dar mais educação para crianças que não estão tendo acesso? Como melhorar a ação... de como melhorar a higiene? Como melhorar o mar de gente que não tem saneamento básico? Como você passar isso mesmo que você não tenha dinheiro? Tem que dar. Se você tem R$ 5, se você tem R$ 5 milhões, R$ 500 mil, tem que dar. E e aí é difícil selecionar. Porque eu acho que não são só instituições, que eu tenho contribuído. Inclusive não contribui logo com uma quantia enorme. Mas também muita gente, pessoa física e amigos... Você imagina para atores que não são famosos, que não tem um contrato, músicos e, principalmente, com as pessoas que eu fui ficando próxima, através do "Esquenta". Pessoas que estão uma instabilidade muito grande. Então eu quase que tenho um mapinha, um organograma para tentar distribuir e também para ligar e saber como é que estão: atores mais velhos, pessoas que devem estar muito sozinhas. Eu conclamo a todos que estão ouvindo a gente façam isso. Mesmo que não tenha grana, tem muitos jeitos de ajudar.

E possivelmente vai permitir que, quando você retomar, vai retomar com mais força. Certamente.
Incrível porque a gente conviveu um ano, apesar da novela ter ficado menos, mas na preparação. Não é que ninguém se indispôs, não teve uma briga... Foi uma coisa tão apaixonante e bacana de respeito às diferenças e tudo.

Regina Casé, Adriana Esteves e Taís Araujo - João Cotta/Rede Globo - João Cotta/Rede Globo
Regina Casé (Lurdes), Adriana Esteves (Thelma) e Taís Araujo (Vitória), as três protagonistas de "Amor de Mãe"
Imagem: João Cotta/Rede Globo


Outra coisa que todo mundo dizia: "Nossa, três protagonistas mulheres". Aí também vem uma enxurrada de preconceito. "Muita competição". "E como é que vai ser?" "Quem é a protagonista mesmo?" A gente, Taís, Adriana, eu, nunca tínhamos trabalhado juntos, nada, nada, nem um curta, um comercial, nada. Em menos de uma semana, no dia que a gente gravou a primeira chamada, nós três andando.. Quando acabou aquela andada, as três estavam aos prantos. De mãos dadas, chorando mesmo. Felizes de estarem trabalhando juntas e de serem três mulheres, de idades diferentes, de histórias de vida muito diferentes e de juntas estarem fazendo três mães. A gente se emocionou já no primeiro dia.

E o resto do elenco também foi impressionante. Foi um encontro de trabalho... O Zé (Luiz Villamarim) ajuda muito nisso. O Zé é maravilhoso. Ele é o topo da cadeia alimentar. Não é o cara que dá esporro, quer se impor. Ele é suave, preciso, sabe o que que. Então isso vai indo que não tem uma camareira que brigue com a outra.

Ele é mineiro, militante, no bom sentido.
Foi uma surpresa. Eu já disse que ele vai ter que me aturar pro resto da vida. E a Manuela também... nunca tinha trabalhado com ela. É muito legal trabalhar assim, torcendo para chegar a hora de fazer aquela cena.

Muita gente não tem essa dimensão do lugar que a televisão ocupa no Brasil, da TV aberta no Brasil. Regina, queria encerrar pedindo para você falar alguma coisa para o público que está morrendo de saudade da Lurdes. O que a gente pode esperar nestes tempos que a gente está passando e no que vem por aí?
A Lourdes, se você foi juntar tudo o que ela disse, a maneira como ela agiu com todas as pessoas que ela cruzou neste ano... Eu aprendi à beça com ela. Eu acho que a gente não pode agora procurar só falar com quem é amigo da gente, com quem a gente concorda plenamente. A gente tem que achar caminhos e possibilidades de desanuviar isso e de achar pontos e denominadores comuns impensados e insuspeitos. E deixar se surpreender por isso. Também desmontar os seus preconceitos em relação a outras pessoas.

Por mais que você ache que você é mais legal, que os seus amigos são mais legais, que o que você está falando é mais verdade do que aquilo.... Eu também não consigo achar que não é (risos). E acho que os meus amigos são mais legais, mas você tem que se permitir ouvir para conseguir achar alguma brecha pra gente poder se entender melhor. Porque a gente está num momento muito difícil. E a gente não pode perder tempo e energia com ódio, com briga, com raiva. A gente tem que encontrar pontos de amor, por mais obscurecidos que eles estejam e ir com tudo, que nem a Lurdes faz.

Super obrigado, Regina. Foi um prazer enorme te ouvir. Muito obrigado mesmo.
Eu vou me despedir mandando um beijo. E isso: quando ficar com ódio, com raiva, desespero, pensa na Lourdes e fala: aonde eu vou achar um ponto de amor?

Obrigado, tá?
Muito amor de mãe para vocês.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL