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Os 4 tipos de espectadores do BBB e como eles explicam o recorde de votos

Num paredão com recorde de 1,5 bilhão de votos, Manu Gavassi superou Prior  - Reprodução/Montagem UOL
Num paredão com recorde de 1,5 bilhão de votos, Manu Gavassi superou Prior Imagem: Reprodução/Montagem UOL
Mauricio Stycer

Mauricio Stycer é jornalista desde 1985. Repórter e crítico do UOL, colunista da Folha de S.Paulo, passou por Jornal do Brasil, Estadão, Folha, Lance!, Época, CartaCapital, Glamurama Editora e iG. É autor de "Topa Tudo por Dinheiro - As muitas faces do empresário Silvio Santos" (editora Todavia, 2018).

Colunista do UOL

03/04/2020 06h01

O "BBB" está há quase 20 anos no ar porque agrada a diferentes perfis de públicos e é compreendido de múltiplas maneiras. Mesmo assim, é difícil entender como um paredão aparentemente comum bateu recorde mundial e registrou mais de 1,5 bilhão de votos.

Quem votou? É arriscado cravar como se chegou a este número extraordinário, surreal mesmo. Vou arriscar algumas hipóteses. Para começar, consigo ver quatro tipos comuns de espectadores que acompanham o programa.

1. Em nome da alegria: Um tipo comum de fã do reality show da Globo é o que privilegia a diversão. Quer ver confusão, briga, interações inesperadas, erros, acidentes, conversas sem pé nem cabeça. Participantes que acreditam cegamente nas próprias verdades costumam render bons momentos para este tipo de fã do BBB.

2. Casos de família: Outro tipo comum é o que entende o programa como uma fonte de lições e de alertas sobre relacionamentos. Este espectador aprecia ver as amizades que se constroem ou destroem, a falta de habilidade de uns e o talento de outros na arte de fazer amigos e conquistar corações. Também gosta de ver os "brothers" demonstrarem o melhor e o pior do caráter de cada um. As longas conversas da madrugada são uma fonte infinita de prazer para este tipo.

Tanto tipo 1 quanto o 2 vai formando sua rede de simpatias e antipatias. Estes espectadores têm algo em comum: demoram a fechar questão em torno de um preferido. Tanto aquele que vê o reality pela diversão quanto aquele que assiste em nome, digamos, do enriquecimento espiritual costumam ter mais de um favorito.

3. Sócio de fã-clube: Um terceiro tipo é o que elege rapidamente o seu preferido. Como isso ocorre às vezes é um mistério. Pode ser uma característica do perfil do participante, um sentimento de afinidade ou uma identificação. Este tipo, claro, logo localiza os que escolheram o mesmo objeto de torcida. E juntos eles se tornam o tipo mais barulhento de espectador.

4. Militante com causa: Por fim, um quarto tipo muito nítido, com presença maior nos últimos anos, é o que enxerga o reality show da Globo como uma arena política. É um balaio com gente de diferentes visões e tendências, que luta para associar determinados participantes a certas causas.

As redes sociais ajudaram tanto o terceiro quanto o quarto tipo de espectador a localizar os seus iguais. Houve uma época em que o BBB era acompanhado com afinco por comunidades do Orkut (e foi lá que Marcelo Dourado encontrou o apoio inicial para vencer o BBB 10). Foi substituído pelo reality que é debatido no Twitter - e tem sido ali que o programa acontece de verdade.

O arquiteto Prior, desde o início, agradou ao primeiro tipo e com o tempo conquistou, também, o terceiro tipo (ganhou um fã-clube). Tão arrojado quanto desastrado, grosseiro com as mulheres, Prior se meteu nas mais variadas confusões. Mostrou um excesso de confiança na medida ideal para cometer erros.

Já a cantora Manu começou com o apoio do terceiro tipo de espectador, os amigos famosos e o grande fã-clube que já tinha antes de entrar no programa. E foi para eles que Manu jogou por mais de um mês - com vídeos diários no Instagram, venda de ingressos para shows no segundo semestre e comentários irônicos dentro do BBB.

No momento em que se definiu a disputa contra Prior, Manu agregou espectadores do quarto tipo, que enxergaram na cantora o instrumento perfeito para expressar revolta contra o machismo, encarnado no arquiteto. Não eram, necessariamente, fãs de Manu. Mas ela foi útil para reverberar valores importantes ao feminismo.

E houve ainda uma novidade que, acho, ajuda a explicar este volume sobrenatural de votos. O isolamento social forçado, por causa da pandemia de coronavírus, transformou o "BBB 20" no único programa de entretenimento ao vivo no ar, na última alegria do brasileiro.

Novos públicos voltaram os seus olhos para o "BBB20": jogadores de futebol, militantes e políticos, oportunistas de diferentes espécies, gente sem nada melhor para fazer.

Como escrevi na terça-feira, para muitos brasileiros, votar em Prior ou Manu foi equivalente a bater panela na janela, gritar contra esta quarentena forçada, contra o medo de ficar doente, contra o mau humor, contra ou a favor do presidente. Prior e Manu tiveram pouco ou nada a ver com isso.

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O lado B do BBB

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL