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Marcelle Carvalho

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Juan Paiva, que vive Ravi, diz que 'foi desesperador' ser pai aos 16 anos

Juan Paiva, de "Um Lugar ao Sol": sucesso como Ravi não deslumbra o ator, cria da comunidade do Vidigal, Zona Sul do Rio - Marcio Farias/Divulgação
Juan Paiva, de 'Um Lugar ao Sol': sucesso como Ravi não deslumbra o ator, cria da comunidade do Vidigal, Zona Sul do Rio Imagem: Marcio Farias/Divulgação
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Marcelle Carvalho

Marcelle Carvalho é jornalista que cobre, há duas décadas, o universo da televisão. Suas maiores paixões são novelas e séries, que serão abordadas aqui a partir da visão de quem vê e de quem faz.

Colunista do UOL

17/12/2021 04h00

Quando Juan Paiva apareceu pela primeira vez em "Um Lugar ao Sol", desembarcando do ônibus que o levou ao encontro do amigo, Christian (Cauã Reymond), ele nem imaginava que ali começaria o burburinho sobre sua performance como Ravi. Salta aos olhos a construção nos detalhes desse jovem doce, de coração gigante, capaz de se encalacrar todo para segurar o maior segredo do melhor amigo. E a humildade com que o ator lida com o sucesso na novela, que chegou rápido e o pegou de surpresa.

Não esperava que fosse logo de cara. Na verdade, a gente nunca sabe como o público vai encarar, então, faço o trabalho primeiro para mim. Eu tenho que gostar para que outras pessoas possam gostar também. Essa repercussão positiva é consequência da minha dedicação e esforço. Fico aliviado por ter esse resultado", comemora Paiva, de 23 anos.

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Christian recebe Ravi no Rio: a amizade dos dois faz com que o rapaz minta para proteger o impostor
Imagem: reprodução

O ator é um rapaz simples por natureza. Criado no morro do Vidigal, comunidade da Zona Sul do Rio, não faz a menor questão de deixar a comunidade, onde mora com a mulher e a filha. O sucesso parece não deslumbrar o artista, que começou aos 8 anos no grupo de Teatro Nós do Morro, e tem na bagagem duas novelas de sucesso, "Malhação, Viva a Diferença" e "Totalmente Demais", a série "As Five", quatro filmes e uma ida ao Festival de Cannes, na França - primeira viagem internacional por conta da sua atuação em "Sem seu sangue".

Eu me sinto tão bem no Vidigal. É onde eu sou cria, cresci, conheço todo mundo. Aqui tem tanta coisa boa... Não pretendo mudar não, quero ficar aqui, morar aqui, viver aqui como sempre foi. Algumas pessoas ficam curiosas, querem saber por que não me mudo. Também não entendo essa curiosidade. Aqui é um lugar tão bacana de se morar...", afirma.

As raízes de Paiva estão tão profundas no Vidigal, que ele comprou sua casa próxima a da sua mãe. O novo lar vai abrigar a sua família: filha Analice, de 7, e a mulher, Luana, com quem tem uma união estável há oito. Assim como Ravi, o ator foi pai bem cedo, aos 16 anos. E pôde emprestar essa vivência para o personagem.

É parecida a história. Emprestei um pouco da minha experiência, de cuidar de uma vida, de um bebê. Isso facilitou bastante para me aproximar dessa realidade do Ravi", diz Paiva, que não esconde ter ficado paralisado ao saber da gravidez preoce da Luana:

Foi desesperador no início, preocupante. Mas procurei viver um dia de cada vez, contando com o apoio da minha família, da minha companheira. A gente sempre se ajudou. Hoje, é uma fase bem mais gostosa, tranquila. Minha filha já está aprendendo a ler e escrever, criando sua própria independência de acordo com a idade dela, claro. Amo minha filha e minha família", diz, orgulhoso.

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Luana, Analice e Juan: família construída quando o ator tinha 16 anos
Imagem: reprodução/instagram

"Luana e eu conversamos muito. Às vezes, as ideias não batem, mas a gente se respeita, buscando sempre caminhar juntos, crescer juntos. A gente se conheceu na escola. Luana é uma super parceria, companheira bacana. Junto com nossa filha, formamos um bondezinho", brinca ele.

A gente vê na novela o quanto Ravi é carinhoso e preocupado com o filho, Francisco. Nada muito diferente do intérprete com sua pequena Analice.

Brinco com minha filha, me divirto com ela, mas na hora que tem que falar sério, falo também. Orientar uma vida é complicado. Mas isso me ajudou a ter maturidade e responsabilidade. Mas ela também puxa a minha orelha. Se vir algum vacilo meu, algo que a desagrada, ela fala. Por mais que tenha pouca idade, ouço o que me diz, porque criança é sincera. E tem o fato de estamos crescendo juntos. O bom é que quando ela tiver jovem, eu ainda vou estar também. Isso é bacana", constata Paiva.

Um encontro nada normal

Os atropelos da vida de Ravi estão ligados também à falta de parceria com Joy (Lara Tremouroux). Apesar de muito diferente do motorista, o ator acredita que o personagem é profundamente apaixonado pela grafiteira, que vai morrer em breve, ao cair de um viaduto quando tentar colocar sua marca em um lugar mais alto.

Ravi ama Joy realmente. Ele tem pensamento de construir uma família, erguer um castelo, justamente por não ter tido isso na vida. Quer que o filho tenha pai e mãe. Mas Joy é uma pichadora, um mulher rolezeira, é da rua, da pista. Ao contrário dele, ela não queria ter filho, foi ele que insistiu para ela ter. Ela não quer esta responsabilidade", analisa o artista.

Talvez o fato de terem começado uma relação de forma tão incomum ajude a explicar essa falta de ressonância na união do casal. Aliás, a forma como se conheceram deu o que falar: Joy invadiu o apartamento de Ravi, pela janela, quando fugia da polícia. De cara se gostaram e foram para cama. Pouco tempo depois ela apareceu grávida. Na redes sociais, o público achou um tanto estranho o jeito como se encontraram.

Não é algo normal, né? É algo diferente. Mas se a química bateu, acho que é válido", acredita o ator.

Paiva faz uma pausa. Afirma que nunca tinha parado para pensar na situação atípica. E concorda que "foi muito louca a forma como se encontraram".

Ela entrou pela janela, é algo inusitado, diferente para caramba. Mas acredito na química, na troca de energia, troca de olhar, se bateu de forma sincera...

'Nunca imaginei viver a vida de outra pessoa'

A verdade é que a vida de Ravi já estava bem enrolada antes da chegada de Joy. Com princípios bem fortes, o rapaz teve que fechar os olhos para eles a partir do momento que foi mergulhado, contra a sua vontade, na farsa de Christian. Agora, com a descoberta da mentira por Tulio e Ruth, o calvário do impostor está respingando no ex-motorista, que foi demitido, vai se mudar com a família para a comunidade, será preso mais uma vez. Eita!

Ele entrou em uma enrascada, não tem muito o que fazer. Se ele abrir a boca, perde o amigo, o pai, porque é assim que Ravi vê Christian. É o cara que ele tem de verdade, com quem conversa. Portanto, por amor ao amigo/irmão tem que guardar o segredo. O problema é que, de certa forma, isso vai fazendo com que se corrompa por causa do outro", analisa.

Uma situação desnecessária na vida dos dois, convenhamos. Paiva acredita que Christian se precipitou quando tomou a decisão de tomar o lugar do irmão, Renato.

Com tantas porradas da vida, ele queria sair desse lugar que não deram para ele, mas deram para o irmão. Mas Christian fez de uma forma errada e foi caindo numa armadilha. Acabou em um beco sem saída, um lugar difícil de sair. Sinto, às vezes, pena do Christian por ele ter feito dessa forma, desse jeito meio maluco. Ele se meteu em uma enrosco e, agora, não tem para onde fugir", constata o artista.

Pelo visto, o intérprete de Ravi não entraria numa roubada dessa, né?

Nunca imaginei viver a vida de outra pessoa. Quero viver minha, a do outro é a do outro. Quero ter o que eu mereço, o que eu busco", afirma. A única coisa que eu faria era guardar o segredo como Ravi faz, se fosse meu amigo mesmo, cara responsável por mim. Ele faz isso por amor, pela história dos dois, por todo o carinho que Christian dedicou a ele. É a família do Ravi."

E por falar em família, Paiva tem o sorriso na voz ao falar de Cauã Reymond, a quem passou a considerar um irmão mesmo.

Cauã é generoso, bacana, cara muito coração. Já admirava o artista que ele é e quando passei a conviver, admirei ainda mais a pessoa que é. Se tornou um irmão. A gente troca mensagem, liga um para o outro. Virou amigo de verdade, que quero ter sempre por perto."