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Marcelle Carvalho

REPORTAGEM

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Maria Ribeiro sobre 'Desalma': 'Eu li os episódios e fui dormir com medo'

Ignes e Giovana: duas personagens fortes em uma cidade cheia de mistérios em "Desalma" - Estevam Avellar/TV Globo/Divulgação
Ignes e Giovana: duas personagens fortes em uma cidade cheia de mistérios em 'Desalma' Imagem: Estevam Avellar/TV Globo/Divulgação
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Marcelle Carvalho

Marcelle Carvalho é jornalista que cobre, há duas décadas, o universo da televisão. Suas maiores paixões são novelas e séries, que serão abordadas aqui a partir da visão de quem vê e de quem faz.

Colunista do UOL

25/10/2021 04h00

Não há período mais oportuno para "Desalma" chegar à TV Globo do que na semana do Halloween. A partir de hoje (25), a série sobrenatural, exibida há um ano no Globoplay, será a atração do "Corujão Mistério", às 2h25 (após o "Conversa com Bial"). Confesso que fiquei com taquicardia ao assistir a obra de Ana Paula Maia, tanto que, na época, decidi não ver os episódios à noite (medrosa, eu? Imagina!). Mas não estou sozinha nessa sensação, viu? A atriz Maria Ribeiro, que faz Giovana, uma das protagonistas da série, também ficou, digamos, impressionada com o clima da história.

Eu li os episódios e fui dormir com medo. É muito interessante, porque não é uma série fantástica no sentido de monstros, não é um medo mais óbvio. É sobre o mistério da vida: o que a gente faz com a consciência da morte, para onde vai a alma. A história tem essa pegada sobrenatural que eu acho que nunca vi na televisão brasileira", afirma a atriz.

Certeza mesmo ela tem dessa ser a primeira vez que trabalha com o gênero. Portanto, a carga dramática que o projeto traz a fisgou em cheio.

Nunca tinha feito nada sobrenatural. Adorei, é uma delícia, é divertido. Eu sou muito fã (do gênero). "Iluminado" é um filme que eu já vi umas dez vezes e sempre fico sem dormir. É bom, a gente volta à adolescência", brinca a artista, que não esconde a animação quando tem que mergulhar em algo muito distante de seu mundo.

Quanto mais longe de você o universo, mais gostoso de fazer. Quando eu era pequena e brincava na frente do espelho da minha mãe, eu não queria ser uma personagem parecida com quem eu era. Eu queria ser completamente diferente. Ao mesmo tempo em que a série é sombria, ela possibilita você brincar em outro universo. Eu acho muito mais legal do que fazer personagens coloquiais, por exemplo."

Alma, deixa eu ver sua alma

O mérito da série - exibida na TV aberta em cinco capítulos duplos - é justamente causar a sensação de desconforto, fazendo com que a gente fique o tempo todo com a respiração suspensa. A trama é muito bem amarrada e aborda um universo bastante instigante: a transmigração de alma, que está relacionada com a não aceitação da morte. É esse inconformismo que alimenta a trama e traz consequências profundas a vários personagens. Claro que a família de Giovana é uma delas.

série - Divulgação/Globo - Divulgação/Globo
Maria Ribeiro como Giovana em "Desalma"
Imagem: Divulgação/Globo

A história se passa em Brígida, fictícia cidade do Sul do país, onde fenômenos sobrenaturais assombram a população ao longo de décadas, enquanto rituais de bruxaria prometem trazer de volta ao mundo dos vivos as almas de pessoas que já se foram. É nesse local que transpira mistério que Giovana e as filhas vão morar, após a morte de Roman (Nikolas Antunes). O marido de Giovana, que nasceu em Brígida, mas pouco falava de seu passado à mulher, voltou à cidade e se matou, jogando-se de uma cachoeira.

Giovana é uma forasteira que chega de São Paulo com as duas filhas para tentar compreender a morte do marido. Brígida é uma cidade extremamente fechada, uma colônia de ucranianos, e ela tenta entender o que está acontecendo através do local e dos familiares de Roman. Ela é uma personagem cética, dentro de uma série sobrenatural. Porém, ao longo da série, Giovana têm todas as suas crenças confrontadas, porque vai passando por muitos acontecimentos que colocam tudo o que ela pensa em xeque", explica Maria.

Eita, que se eu fosse Giovana, catava minhas filhas e voltava correndo para São Paulo! O problema é quanto mais ela mergulha nos mistérios de Brígida, mais vai ficando difícil sair de lá. Mesmo percebendo que suas meninas começam a ser afetadas por essa atmosfera estranha:

Vários eventos na cidade desafiam o raciocínio lógico dela. Giovana começa a perceber a mudança no comportamento da filha mais nova, a partir do momento em que se insere naquela sociedade. Tem uma cena também em que a personagem, que chegou dizendo ser totalmente cética, entra sozinha em uma igreja, por sentir a necessidade de pedir ajuda. É uma cena superbonita em que ela diz: 'Eu não sei se você existe, mas eu preciso saber que eu não estou sozinha.' Quando vê, não tem mais como ser a pessoa que ela era."

Identificação e encontro com a musa

A verdade, minha gente, é que Giovana está sozinha, no meio do caos, com duas meninas para criar. E tudo que ela não pode fazer é desmoronar. Nem quando acredita existir muito mais coisa em Brígida do que pode imaginar.

Ela tem que dar conta de uma perda difícil, bastante dolorosa. Ao mesmo tempo, o fato de ter as meninas é o que lhe dá mais medo e coragem. Se você tem duas filhas, não pode cair, você tem que ir em frente. Então, é uma personagem bastante doída e bonita de fazer, porque tem que segurar a onda em função das garotas, que também perderam o pai e as suas raízes. Giovana é forte em função da maternidade. Ela é uma supermãe e, nesse sentido, eu me identifico muito com ela", constata a artista.

A sensação de solidão, todavia, é suavizada um pouco com a presença de Ígnes, papel de Claudia Abreu, a outra ponta do triângulo de protagonistas (Cássia Kis, a feiticeira Haya, completa o trio).

Giovana chega a uma cidade desconhecida, diz que tem uma relação bastante distante com a família de origem e Ignes a recebe com muito cuidado, carinho e atenção. Imediatamente, a leva para sua casa e Boris (Ismael Caneppele), marido dela, a contrata para trabalhar com ele. Acho o encontro de Giovana e Ignes o mais bonito", analisa a atriz.

E não é só a personagem de Maria que encontra segurança na de Claudia.

Para mim, Claudia Abreu é a musa máster da vida toda. Então, Giovana ser próxima da Ignes foi um encontro maravilhoso meu com Cacau também. E de uma cumplicidade feminina que é bom de falar. Aliás, a série é bastante feminista, porque as três personagens mais fortes são mulheres. Portanto, essa cumplicidade entre a Ignes e Giovana é bastante especial e foi muito bonito de fazer" derrete-se.