Luciana Bugni

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Opinião

'Próximo', na Netflix: série turca questiona a necessidade de ter alguém

"Tenho medo de me contentar com mediocridade. De me olhar no espelho e ver que o brilho dos meus olhos se apagou", diz a protagonista de "Próximo!", série turca que está entre as mais vistas da Netflix. Ela fala sobre relacionamentos estáveis que perdem a graça depois da combustão dos primeiros meses, se perguntando em que momento a gente começa a se irritar com o outro.

É difícil mesmo manter a mesma empolgação da conquista quando tudo vira um empreendimento de logística familiar, às vezes meio burocrático.

Na trama, que tem um ar de novelinha típica da Turquia, mas com um certo apelo Netflix (tem mais beijo na boca do que Fatmagul, que era sucesso no Brasil na década passada), Leyla está recém-separada. Tem um monte de amigos ao redor, bem na pegada sitcom moderninha, usa umas roupas lindas de morrer (quero todas) e é toda perfeita, porém triste. Às vésperas de completar 30 anos, vive a solteirice moderna como pode: sorvendo um monte de mensagens do Whatsapp e fotos à exaustão em redes sociais.

Entre os homens que a cercam, além do ex, Omer, com quem divide a guarda do cachorro, está um chef de cozinha com quem trocou uns beijos e uma noite tórrida de amor seguida de café da manhã especial e o milionário Cem, que vive sem camisa nas redes sociais (eu avisei que era novela, ué).

Tudo seria um chororô aqui seguido de uma pegação ali, não fosse a profundidade com que Leyla avalia tudo aos 30 anos. Os caras com quem ela sai não a completam — e ela olha tudo sentindo que não basta. O ex tem uma namorada nova e ela considera que foi traída. Os amigos tentam colocá-la para cima, mas ela se perde entre trabalho e festas sem nada que lhe devolva o brilho no olhar.

Se no casamento já não havia borboletinhas no estômago, na carreira solo ela tenta vetar os perigos para não se quebrar de novo. Tudo fica à sombra do relacionamento perfeito e apaixonado — ela pensa — de seus pais. Como ser feliz quando a régua que a gente coloca é muito alta?

É sobre isso que ela fala com o pai no sexto episódio: sente saudade da pandemia, ou do que viveu nesse período, porque eram os primeiros meses em que morava junto com Omer, quando aplaudiam músicos amadores da varanda e dividiam pães de fermentação natural (alguém se identifica?). "As pessoas ficaram muito diferentes na pandemia, procuravam abrigo um no outro com a sensação de que o fim do mundo estava chegando", ela diz.

E depois, nos anos seguintes, com o mundo aberto novamente, a sensação é de que nada mais basta. Fica difícil mesmo se a meta é um conto de fadas.

Nada basta mesmo quando ela se sente absurdamente atraída por Cem, em um daqueles encontros que pede uma dança de três minutos em uma festa e vira uma obsessão por meses. Ninguém sabe medir o tempo quando se apaixona. Mas mesmo assim ela fica cheia de buracos pelo que acha que não deveria querer.

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A atração forte bagunça tudo: ela afirma está confusa e que não sabe nem como dar a resposta para a pergunta "como você está?". "Sobrecarregada com a busca por fazer a coisa certa", diz, em um papo filosófico que veste muita mulher. A coisa certa, ali, seria não ficar com o cara errado — ou que parece equivocado por ser muito atraente, muito gentil e muito divorciado e arrastar um séquito de ex-mulheres malucas por ele.

Quando Leyla finalmente cede aos seus encantos mesmo com tantos alertas, ele vai embora no dia seguinte de manhã sem mandar mensagem alguma. O sumiço repentino corrobora a teoria de Yasmin Brunet no BBB: nenhum cara vai te tratar tão bem quanto aquele que quer te comer pela primeira vez. Mais do que com raiva, ela fica decepcionada com o que aquele vasto mundo da solteirice pode oferecer.

Estava ruim morar junto com Omer, foi pior ser traída por ele, mas será que mesmo assim aquela realidade conhecida não era menos dolorida do que se interessar por um cara gato e gostoso que não vai ligar no dia seguinte? E nessa busca por fazer a coisa certa, ela se perde se questionando: afinal, existe uma coisa certa quando se está extremamente atraída por alguém?

Leyla sabe que está fugindo de si cada vez que sai com um cara novo. Quando cogitar voltar com Omer. Quando responde o silêncio de Cem com reciprocidade. E nesse combo de fuga, amigos e baladas funcionam bem. Mas a tristeza perdura entre alegrias efêmeras. "É como se sempre houvesse uma derrota iminente", diz, sobre aquele vazio que fica depois de encontros muito intensos. "Ele é daquele tipo de cara que diz que você vai sofrer mesmo quando está a 300 metros de distância", tenta explicar para si mesma.

"Será que, ao ver as fraquezas e desejos dele, eu ainda o desejaria tão ardentemente? Acho que não, um relacionamento deve ser consciente, com preocupação em comum, sonhos em comum. Ele se casou e se divorciou 3 vezes! É por isso que eu não vou me apaixonar nem ter um relacionamento com ele", diz, racionalmente, querendo fazer justamente o contrário.

É ficção. Ninguém apaixonada racionaliza tanto. Mas é vida real quando a gente dá desculpas para o próprio sofrimento ou reata casamentos na tentativa de fingir que nada estava acontecendo. Na rotina que Leyla embola tentando reaver seu brilho no olho, há um momento em que fugir entre tantos amigos, festas e homens parece desnecessário.

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É se olhar no espelho, sozinha no quarto, e perceber com clareza que está justamente ali o que tanto buscamos no outro. A solução é a gente mesmo. Aí seguimos, sozinhas — lógico que ter um cão que nos acompanha no restante do percurso deixa tudo mais poético.

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Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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